Uma nova estirpe da covid-19 é já responsável por 10% dos casos da doença em Inglaterra e 6% em todo o Reino Unido. Identificada como AY 4.2, é considerada uma sub-espécie da variante Delta.

Segundo a BBC, as mutações da nova variante podem dar mais resistência ao vírus. As autoridades britânicas já estão a testar laboratorialmente a estirpe, para avaliar o risco que pode oferecer à população.

Inicialmente identificada em julho de 2021, esta variante tem crescido lentamente e inclui duas mutações na proteína Spike, denominadas Y145H e A222V, que também foram encontradas em outras estirpes.

Nove casos em Portugal

Em Portugal, segundo o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge, “foram detetadas até à data 9 sequências ‘AY.4’”, de entre 9.544 sequências Delta analisadas.

A análise genética indica que os casos detectados em Portugal (entre 24 de agosto e 4 de outubro) representam várias introduções independentes do vírus, as quais estão sob investigação pelas autoridades de Saúde”, pode ler-se no comunicado emitido no dia 19 de outubro.

Esta nova variante também foi detetada na Dinamarca e nos Estados Unidos.

Não existe ainda qualquer evidência científica que sugira que esta sublinhagem da Delta seja mais transmissível ou coloque sequer em perigo a eficácia das vacinas. De facto, nas últimas semanas têm surgido vários exemplos da emergência de novas combinações de mutações, mas que acabam por não ter impacto epidemiológico”, segundo o investigador do INSA João Paulo Gomes, em declarações à Lusa.

Segundo o microbiologista, “é normal” que devido ao turismo e ao fluxo de pessoas entre o Reino Unido e Portugal se continue a detetar alguns casos, mas ressalvou que é “muito cedo” para restrições de viagens ou outras medidas.

Como a sublinhagem AY.4.2 está a ter “uma expressão significativa” no Reino Unido e a crescer em frequência “semana após semana”, os investigadores do INSA tentaram perceber se estava a acontecer o mesmo em Portugal e concluíram que o panorama não é replicado no país.

“Não podemos falar de uma tendência crescente, mas sim já detetámos casos cá, tal como outros países também já detetaram, vamos estar atentos naturalmente para perceber se por acaso essa sublinhagem aumenta a sua frequência”, disse o investigador do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA.

Explicou ainda que o que se está a passar é que a comunidade científica se apercebeu, dado que a variante Delta “já há cinco, seis meses que domina o mundo inteiro”, que “é a própria Delta que está a evoluir”.

Estamos a falar da variante Delta que aparece com uma mutação aqui, outra mutação ali, e sempre que essas diferenças sejam significativas, de forma a que o vírus seja diferente o suficiente e tenha algum impacto epidemiológico, elas são então definidas como novas sublinhagens dentro da variante Delta”, explicou, adiantando que já foram descritas 30 sublinhagens.

De acordo com o investigador, ainda não se sabe se esta nova sublinhagem aumenta a transmissibilidade, se envolve a fuga ao sistema imunitário e pode pôr em perigo de alguma forma as vacinas.

“É tudo muito, muito, muito cedo”, salientou, referindo que vai ter de se esperar “várias semanas para perceber se o impacto epidemiológico que parece estar a ter no Reino Unido tem reflexos também nos outros países ou não”.

Contudo, observou, estes “pequeninos alertas” já foram dados noutras semanas com outras “pseudovariantes” que apareceram e que depois não deram em nada.

Acho que por agora podemos estar descontraídos, mas vamos estar naturalmente atentos ao evoluir da situação”, reiterou.

João Paulo Gomes sublinhou que “Portugal está numa situação muito boa”.

"Acima de tudo temos uma taxa de vacinação muitíssimo boa nas crianças acima dos 12 anos, coisa que não acontece na maior parte dos outros países europeus, o que faz com que isso nos dê algum conforto em termos de pressão do Serviço Nacional de Saúde e os resultados estão à vista”, observou.

Mesmo com o relaxamento das medidas e a máscara ter deixado de ser obrigatória na maior parte dos locais, não se está a verificar “uma explosão de casos”, nem um aumento significativo nos internamentos.

Tendo em conta que temos uma ótima taxa de vacinação e que agora Portugal sugeriu a terceira dose para os grupos mais vulneráveis penso que podemos encarar o inverno, não vou dizer com tranquilidade, mas com algum otimismo porque não há razões para que as coisas corram para o mal”, declarou João Paulo Gomes.

Reunião de emergência em Israel

Em Israel registou-se um caso, o que levou o ministério da saúde do país a reunir-se de emergência. Trata-se do caso de uma criança de 11 anos, que tinha estado na Moldávia.

Temos de ser rápidos a agir para manter o sucesso que conseguimos alcançar na luta contra a vírus”, pode ler-se num comunicado emitido pelo ministério da saúde israelita, citado pelo Times of Israel.

Até esta segunda-feira, 5,7 milhões de israelitas tinham a segunda dose da vacina, Adicionalmente, cerca de 3,8 milhões já receberam a terceira, de acordo com dados revelados pelo Jerusalem Post.

O Reino Unido tem registado um aumento dos casos de covid-19 na última semana. Desde o dia 13 de outubro, o país soma mais de 40 mil novas infeções por dia. O governo britânico já garantiu que, apesar da situação, não serão impostas novas restrições.

O professor François Balloux, diretor do University College of London Genetics Institute, considera, no entanto, que a nova variante não explica esta subida.

A sua potencial elevada transmissibilidade só explica, nesta altura, uma pequena percentagem dos casos. Representa 10% dos casos atualmente, e, assumindo que é 10% mais transmissível, só explicaria um aumento de 1% das infeções [a cada cinco dias]”, afirmou ao jornal The Guardian.

Pedro Falardo / com Lusa