Com apenas sete anos, Bana al-Abed tem quase tantos como a guerra civil síria. Viveu rodeada pela destruição, aprendeu a ignorar os bombardeamentos constantes. Não conheceu outra realidade que não fosse a da guerra. Através de uma conta de Twitter, a mãe de Bana, Fatemah, foi contando ao mundo aquilo que a criança viu e sentiu durante os últimos meses, um espelho de uma realidade com anos. Foi uma das muitas vozes que tentou pedir ajuda externa a partir de Alepo, a cidade histórica síria que o Governo de Bashar al-Assad recuperou das mãos dos rebeldes.

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A menina síria tornou-se mais um símbolo da guerra civil que dura há quase seis anos. Mais um, sim, porque não é a única. Durante o ano que agora termina, outras caras e vozes de crianças sírias a viver no país percorreram o mundo, nunca por boas razões. Tal como a fotografia de Alan Kurdi se tornou um alerta para o drama dos refugiados no ano passado, as imagens de crianças como Bana já são um signo de uma geração que considera a fome, a sede, o medo de morrer e as fugas constantes como sendo a realidade normal.

Fatemah, uma professora de inglês, e Bana começaram a publicar relatos no Twitter sobre o que se passava na cidade no final de setembro. Em múltiplas ocasiões pediram que parassem com os bombardeamentos à cidade e com a matança que se tornou rotina, que parassem de destruir casas, escolas e hospitais. Relatos tão comuns como as confissões de saudade de Bana da escola e amigos.

Por várias vezes, Bana despediu-se dos seus seguidores, achando que a sua publicação da altura seria a última e lamentando que o fim pudesse estar próximo. As suas confidências eram normalmente acompanhadas de fotografias e vídeos dos bombardeamentos e seus efeitos, como são exemplo as fotos de cadáveres entre escombros.

“#SaveAleppo” ou “#StandforAleppo” eram duas hastags comuns nas publicações que rapidamente se tornavam virais e ajudavam a divulgar o que se passava naquela parte da cidade.

Numa entrevista à CNN, a mãe de Bana chegou a refutar as acusações do governo sírio, que a acusava de usar a filha como propaganda anti-regime. “Ainda estou aqui. Sou real. Ainda luto pela vida das minhas crianças. Não somos propaganda, somos pessoas reais. Somos pessoas de Alepo.”

Pessoas reais como o menino, não identificado, que em novembro chocou o mundo por surgir num vídeo, gravado num hospital improvisado de Alepo, a perguntar a uma assistente médica se iria morrer.

Vou morrer? Vou morrer?” questiona a criança. (Pode ver o vídeo AQUI. Atenção: as imagens podem chocar alguns espectadores).

O jovem surge a chorar, com uma máscara de oxigénio no rosto, que vai retirando para conseguir falar com a assistente. Foi uma das vítimas de um alegado ataque químico com gás cloro, lançado contra a zona rebelde. Alegado porque enquanto a ONU confirma que já foram utilizadas armas químicas na Síria por três vezes, o regime continua a negar estas informações.

A verdade é que o rapaz tornou-se o rosto de uma das piores ofensivas contra o Este de Alepo. E tanto o seu choro, como o ataque aéreo que se seguiu ao hospital, ficaram na memória de quem o viu.

Omran Daqneesh

Três meses antes do choro daquele menino ecoar pelo mundo foi o silêncio de outra criança quem chamou novamente a atenção para o que se passa na Síria.

Um vídeo divulgado na imprensa internacional e redes sociais mostra um menino de quatro anos, Omran Daqneesh, a ser colocado dentro de uma ambulância depois de um bombardeamento que lhe destruiu a casa. Sofreu ferimentos ligeiros na cabeça e estava ensanguentado. Não chorava, não gritava, estava sentado numa cadeira da ambulância. Um adulto talvez não estivesse tão calmo.

A mesma sorte não tiveram a mãe e o irmão, de apenas 10 anos, que sofreram ferimentos graves. O irmão de Omar, Ali, acabaria por não resistir.

As imagens de Omran chegaram ao outro lado do mundo e motivaram, até, um pedido invulgar. Uma criança norte-americana de seis anos, Alex, escreveu uma carta ao presidente Barack Obama a pedir que salvasse o menino e o levasse para os EUA, onde seria acolhida na família e escola do rapaz. Um vídeo onde Alex aparece a ler a carta que escreveu foi lida pelo presidente numa cimeira dedicada aos refugiados e elogiada por Obama.

Estas são as palavras de um menino de seis anos. Ele ensina-nos muito”, afirmou Obama.

Estes três rostos não são, de longe, os únicos que sofreram devido ao conflito. Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, a guerra civil já causou a morte de mais de 312 mil pessoas (90 mil civis, 53 mil rebeldes, 110 mil combatentes pró-regime – dos quais 60 mil soldados do exército sírio -, 55 mil jihadistas e quase 4 mil pessoas não identificadas) desde 2011, 16 mil eram crianças.

O chefe do escritório da UNICEF em Alepo estima, no entanto, que todas as crianças que vivem naquele ambiente de guerra estão traumatizadas e que pelo menos meio milhão precisem de acompanhamento psicológico.

Todas as crianças de Alepo estão a sofrer. Todas estão traumatizadas. Nunca na minha vida vi uma situação tão dramática [como] o que está a acontecer às crianças de Alepo”, disse, à agência France-Presse, Radoslaw Rzehak, que trabalha para a Agência das Nações Unidas para a Infância há 15 anos.

O responsável estima que 100 mil estão numa condição mais preocupante e necessitam de cuidados mais especializados.

Algumas das crianças, as que têm cinco ou seis anos de idade, nasceram quando a guerra já estava em curso. Elas só conhecem a guerra e acham que tudo é guerra e bombardeamento. Para eles, é normal que estejam a ser bombardeados, que têm de fugir. É normal terem fome e terem de se esconder. Este trauma vai durar muito, muito tempo."

Os casos que mais o preocupam são os dos meninos que acham tudo tão normal, que já nem se protegem durante um bombardeamento: “Já não veem perigo nisso. Para eles é apenas o dia-a-dia”. O instinto de defesa destas crianças pode estar em perigo.

Mas preocupam-no também as crianças que viram os colegas de escola e os professores morrerem durante os ataques aéreos que atingiram as escolas. “O lugar que era mais seguro para as crianças tornou-se no lugar onde morreram”, observou Rzehak.

As crianças sírias têm ainda de lidar com os traumas e com os medos dos próprios pais, que “também atravessam um pesadelo”.