A Igreja Católica beatificou, este sábado, na Argélia, 19 religiosos e religiosas católicos assassinados durante a guerra civil, entre os quais os sete “monges de Tibhirine”, na primeira beatificação organizada num país muçulmano.

Cerca de 1.200 pessoas, algumas centenas vindas do estrangeiro, concentraram-se na esplanada da capela de Nossa Senhora da Cruz, na cidade de Orão (400 quilómetros a oeste de Argel), durante as duas horas e meia da cerimónia.

Que “o bispo Pierre Claverie (…) e os seus 18 companheiros, fiéis mensageiros do Evangelho, humildes artesãos da paz (…) sejam a partir de agora considerados abençoados”, declarou o cardeal Angelo Becciu, enviado especial do papa, que leu o decreto de beatificação em latim.

Familiares dos novos beatos, religiosos católicos e imãs muçulmanos, assim como o ministro dos Assuntos Religiosos argelino, Mohamed Aissa, estiveram presentes na cerimónia.

O arcebispo de Argel, Paul Desfarges, homenageou “as milhares e milhares de vítimas da guerra civil argelina (…) heróis anónimos do quotidiano” e foi observado um minuto de silêncio.

O papa Francisco enviou uma mensagem desejando que a “celebração ajude a curar as feridas do passado e crie uma nova dinâmica do encontro e da convivência”.

Os “19 mártires da Argélia” incluem 15 franceses, dois espanhóis, um belga e uma maltesa, de oito diferentes congregações católicas, assassinados entre 1994 e 1996, durante a guerra civil na Argélia, que causou cerca de 200.000 mortos.

Pierre Claverie, dominicano e arcebispo de Orão, partidário do diálogo com o islão, foi morto em 1996 por uma bomba, que matou também o seu jovem motorista argelino Mohamed Bouchikhi, também homenageado.

Beatificados foram também os sete monges trapistas de Tibhirine, raptados em 1996 e dos quais só as cabeças foram encontradas, um assassínio cujas circunstâncias exatas continuam a ser um mistério.

O caso inspirou o filme do realizador francês Xavier Beauvois, “Dos Homens e dos Deuses”, Prémio Especial do Júri em Cannes em 2010.

Do grupo dos beatificados fazem ainda parte quatro Padres Brancos metralhados no pátio da sua missão em Tizi-Ouzou (100 quilómetros a leste de Argel) no final de 1994, um irmão marista, uma irmã da congregação da Assunção, duas freiras missionárias agostinianas, duas freiras de Nossa Senhora dos Apóstolos e uma irmã do Sagrado Coração.

Todos foram mortos a tiro e todos tinham recusado, apesar dos riscos, abandonar a Argélia e a sua população.

O que explica, segundo Paul Desfarges, a vontade da Igreja Católica de que a sua beatificação fosse na Argélia.

Restam poucos cristãos na Argélia dado a maioria ter abandonado o país aquando da sua independência em 1962. O islão é a religião de Estado e de 99% dos habitantes, embora a Constituição garanta a liberdade de culto.