Um avião que fazia a travessia entre Atenas e Vilnius foi desviado este domingo da sua rota, acabando por aterrar na capital da Bielorrússia, Minsk. Ao início não se percebeu qual a razão para tal acontecer, mas assim que o piloto do voo 4978 da Ryanair anunciou o desvio, houve alguém que percebeu instantaneamente do que se passava.

A bordo do Boeing 737 ia Roman Protasevich, um jornalista de 26 anos procurado pelo regime bielorrusso por ter feito a cobertura dos massivos protestos contra a reeleição do presidente Alexander Lukashenko, que está no poder há 26 anos.

O que aconteceu afinal?

Cerca de 120 passageiros viram o avião ser desviado da rota entre duas capitais de estados-membros da União Europeia (Grécia e Lituânia).

A primeira versão oficial foi a de uma ameaça de bomba a bordo, o que obrigava o aparelho a antecipar a aterragem alguns minutos (Minsk e Vilnius ficam a cerca de 200 quilómetros). A situação acabou por ser confirmada pela tripulação do voo da Ryanair.

O desenrolar da situação foi descrito à agência Reuters por um passageiro lituano, que notou uma mudança no comportamento de Roman Protasevich assim que foi anunciada mudança de planos de aterragem.

Quando foi anunciado que íamos aterrar em Minsk, ele levantou-se, abriu o compartimento de bagagem, tirou a bagagem e começou a tentar dividir coisas. Penso que fez um erro. Havia muita gente a quem ele podia ter dado as coisas, como eu ou outros passageiros, e não à namorada, que também penso que foi detida", revelou Mantas, como se identificou.

Fora do Boeing 737, e ainda em pleno ar, estava um caça MiG-29, que tinha ordens específicas para mandar o avião aterrar em Minsk.

Chegados ao aeroporto, Roman Protasevich foi imediatamente separado do resto dos passageiros, com vários cães pisteiros a serem utilizados para farejar a bagagem que trazia.

Ele foi parado por causa da bagagem", explicou Mantas.

Um outro passageiro, que preferiu não se identificar, disse à imprensa lituana que o homem acabou por ter de entregar o passaporte, antes de confirmarm que sabia o que se estava a passar: "Eu sou a razão de tudo isto", terá dito.

Mais tarde, o presidente da Lituânia acabaria por confirmar que a mulher de Roman Protasevich também não embarcou quando o voo para Vilnius foi retomado.

Já esta segunda-feira, o diretor-executivo da Ryanair, Michael O'Leary, falou numa situação assustadora para passageiros e tripulação, referindo que existe a hipótese de que agentes do KGB estivessem a bordo do avião.

Quem é o homem detido?

Aos 26 anos, Roman Protasevich é um dos principais rostos da revolta contra Alexander Lukashenko, que começou a 9 de agosto, depois de o presidente ter sido reeleito, numas eleições envoltas em polémica.

O povo saiu à rua, e nem a repressão dos protestos motivou a desistência dos manifestantes, mesmo que milhares e milhares tenham sido detidos.

Roman Protasevich, cujo canal se tornou a principal fonte de informação durante as primeiras semanas de protestos antigovernamentais após as eleições presidenciais de agosto de 2020, viajava de Atenas para a capital lituana e acabou detido pelas autoridades bielorrussas, quando os cerca de 120 passageiros do avião da Ryanair foram forçados a submeter-se a novo controlo sanitário no aeroporto de Minsk devido a um suposto aviso de bomba.

Anteriormente, o jornalista bielorrusso já tinha notado que estaria a ser seguido em Atenas, alegadamente por agentes ligados aos serviços secretos da Bielorrússia. As versões sobre a aterragem de emergência são também contraditórias, com Minsk a relatar que foram os próprios pilotos a solicitar autorização, enquanto no aeroporto de Vílnius foi reportado um suposto conflito entre os pilotos e alguns dos passageiros.

Através do Telegram, o canal Nexta defendeu que foram os agentes dos serviços secretos bielorrussos que alertaram para a existência de um alegado engenho explosivo no interior do avião. Fontes próximas da presidência relataram que foi Lukashenko quem ordenou pessoalmente a interceção do avião, que foi escoltado por um caça MiG-19, a fim de supostamente defender a Europa de uma ameaça à sua segurança.

Quem já reagiu?

A comunidade internacional não demorou a condenar o caso. Primeiro foi a Organização do Tratado Atlântico Norte (NATO, na sigla original), que considerou o caso “um incidente sério e perigoso que requer investigação internacional”.

Seguiram-se vários países, entre os quais Portugal, através do ministro dos Negócios Estrangeiros, que pediu a libertação imediata do jornalista.

A aterragem forçada na Bielorrússia de um avião europeu, em rota entre duas capitais da União Europeia, é inaceitável e merece a nossa firme condenação. Exigimos a libertação imediata de Roman Protasevich”, publicou o ministério português na plataforma social Twitter.

No mesmo sentido foram os Estados Unidos, que falam num “ato chocante levado a cabo pelo regime de Lukashenko que ameaçou as vidas de mais de 120 passageiros, incluindo cidadãos norte-americanos”.

Já esta segunda-feira, França propôs a interdição do espaço aéreo da Bielorrússia, enquanto a Bélgica quer que os aviões da companhia aérea daquele país sejam impedidos de aterrar no resto do espaço europeu.

A Bielorrússia acabou por reagir esta segunda-feira, rejeitando as acusações de ter provocado o desvio do aparelho.

Da Alemanha chegou a confirmação de que a Lufthansa suspendeu todos os voos para Minsk, devido a uma "ameaça de segurança".

António Guimarães