A Conferência Episcopal de Moçambique (CEM) classificou esta sexta-feira como "crítica" e "muito instável" a situação no distrito de Muidumbe, Cabo Delgado, de onde emergiram há uma semana relatos de assassinatos que incluem decapitações.

A perceção que temos é que é uma situação bastante desoladora, que necessita de uma intervenção um pouco contundente para clarificar o que se passa, mas primeiramente há que encontrar um modo de acolher toda essa gente" em fuga do distrito, referiu João Carlos, bispo de Chimoio (capital provincial de Manica, centro de Moçambique), em conferência de imprensa em Maputo.

A crise humanitária no norte do país, com dois mil mortos e 435.000 deslocados, foi um dos principais temas da II Assembleia Ordinária Anual da CEM, a decorrer desde o início da semana na Matola, arredores da capital moçambicana.

Tivemos alguns assessores que nos vieram ajudar a refletir" durante a assembleia e informação recolhida através de "algum trabalho no terreno", referiu.

Ainda assim, "é difícil precisar efetivamente as situações" que foram relatadas aos bispos sobre o que se tem passado no distrito de Muidumbe.

Rebeldes armados que desde 2017 atacam Cabo Delgado, com intensidade reforçada desde o início deste ano, fizeram na última semana uma investida sobre o distrito e sobreviventes em fuga relataram à Lusa a morte de familiares, bem como a perda de casas e outros bens. 

As autoridades moçambicanas ainda não se pronunciaram, mas o portal na Internet Pinnacle News, que se apresenta como uma rede de comunicadores comunitários, relatou há uma semana terem havido centenas de decapitações num campo de futebol usado como local de extermínio na aldeia de Muatide.

Sem indicar números, Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral das Nações Unidas, disse na quarta-feira à Lusa ter "informações de fontes no terreno" consideradas "fiáveis" que apontam para um elevado número de mortes.

Na noite de terça-feira (quarta-feira em Lisboa e Maputo), o secretário-geral da ONU, António Guterres, mostrou-se “chocado” com os “recentes relatos de massacres perpetrados por grupos armados não estatais em várias aldeias na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, incluindo a decapitação e rapto de mulheres e crianças”.

A violência armada está a provocar uma crise humanitária com cerca de 2.000 mortes e 435.000 pessoas deslocadas para províncias vizinhas, sem habitação, nem alimentos suficientes - concentrando-se sobretudo na capital provincial, Pemba.

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