Quatro dias antes de ser assassinada brutalmente, a quinta vereadora mais votada da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Marielle Franco, denunciou a atuação violenta da Polícia Militar dentro do estado. O caso levantou o debate sobre uma possível relação no crime do 41º BPM, conhecido como “Batalhão da Morte”.

Marielle tinha assumido, a 28 de fevereiro, a relatoria de uma comissão criada na Câmara Municipal para acompanhar a intervenção federal no Rio de Janeiro. No dia 10 de março, postou nas redes sociais uma crítica à atuação os militares na favela de Acari: "O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! O 41° batalhão da PM é conhecido como Batalhão da Morte. CHEGA de matarem nossos jovens". 

Criado em 2010 para controlar os 544 mil habitantes das favelas da Pedreira e do Chapadão, desde então o 41º Batalhão foi responsável por 567 homicídios. De acordo com os números do jornal Folha de S. Paulo, que compilou dados oficiais, o 41º BPM responde sozinho por 12% das mortes em consequência de intervenção policial dos 41 batalhões da cidade. Em Janeiro, 41% das mortes violentas na região sob tutela do batalhão resultaram de ações dos seus agentes. Os casos mais mediáticos foram a chacina em 2016 de cinco jovens, entre os 16 e os 25 anos, dentro de um carro atingido por 111 tiros disparados pelos polícias e o da morte de Maria Eduarda, de 13 anos, alvejada em 2017 no pátio da escola.

Os investigadores da polícia civil que cuidam do caso concluíram que para a execução de Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes foram disparados 13 tiros de uma pistola 9 milímetros de um lote de munições vendido à polícia federal de Brasília em 2006, utilizado numa chacina policial em 2015 nos arredores de São Paulo, em que morreram 23 pessoas. Os mesmos investigadores referiram que um segundo carro, com matrícula de Nova Iguaçu, nos arredores do Rio, esperou Marielle sair do encontro com jovens negras para a seguir. Nele estava um homem que passou horas ao telefone.

A polícia já ouviu uma mulher que passava junto ao local e Fernanda Chaves, a assessora de Marielle, que no banco de trás do carro relia um texto enviado minutos antes ao Jornal do Brasil ao lado da vereadora. De acordo com informações no blogue da jornalista Mónica Bergamo, do Folha de S. Paulo, Fernanda disse em depoimento que, assustada, depois de ouvir estrondos e disparos e ter sido atingida por estilhaços, ainda conseguiu tirar a perna do motorista do acelerador e desligar o carro.

No artigo do Jornal do Brasil publicado na sexta-feira a título póstumo, Marielle Franco perguntava porque foi o Rio de Janeiro o alvo de intervenção militar se há nove estados com índices de violência superior.

"O interventor federal General Braga Netto disse que o Rio é um laboratório para todo o Brasil. E o que vemos é que neste laboratório as cobaias são os negros e as negras, os periféricos, favelados, trabalhadores”, escreveu.