A ex-presidente brasileira Dilma Rousseff, destituída em 2016, falou pela primeira vez no seu futuro político para admitir que poderá ser candidata a senadora ou deputada, apenas.

Não serei candidata a presidente da república, se é essa a sua pergunta. Agora, atividade política, nunca vou deixar de fazer (...) Eu não afasto a possibilidade de me candidatar a esse tipo de cargo: senadora, deputada, esses cargos", afirmou em entrevista à agência France Presse (AFP), realizada na sexta-feira em Brasília, cerca de seis meses após ter sido destituída da presidência pelo parlamento devido à 'maquilhagem' das contas públicas.

Apesar de destituída, Dilma pode continuar a ocupar cargos públicos, porém, não se candidatará mais à presidência do Brasil, cujas eleições venceu em 2011 e 2014, pelo Partido dos Trabalhadores (PT).

Atualmente, passa os seus dias em Porto Alegre, de forma tranquila, apesar de manter um guarda-costas, e só perde a paciência quando é consultada sobre o escândalo de corrupção da Petrobras que atingiu o seu governo e que culminou na operação Lava Jato.

Questionada sobre como é possível que desconhecesse a imensa teia de subornos que drenou mais de dois mil milhões de dólares da Petrobras para financiar campanhas políticas, Dilma disse apenas que "os processos são extremamente complicados" e que "ninguém no Brasil sabe de todos os processos de corrupção".

A primeira mulher presidente do Brasil admitiu que revê "sistematicamente" os documentos do processo que lhe puxaram o tapete do poder e que foi assumido pelo seu vice, Michel Temer, a quem acusou de liderar um "golpe parlamentar".

As pedras de Brasília e as emas da Alvorada sabiam que eles estavam inventando um motivo para me afastar. Foi a chamada justiça do inimigo: não se julga, se destrói."

Sobre Lula da Silva e a sua implicação no Lava Jato, Dilma saiu em sua defesa.

"Apesar de todo o processo de tentativa de destruição da personalidade, da história e tudo, o Lula continua em primeiro lugar nas sondagens, continua sendo espontaneamente o mais votado", indicou a ex-governante, para quem está em curso um "segundo golpe", que passa por criminalizar Lula para impedir que seja candidato.

Dilma Rousseff, 69 anos, foi destituída em 2016, depois de não resistir a um processo de destituição (impeachment).

Era acusada de editar créditos suplementares e de usar dinheiro de bancos federais em programas do Tesouro, as chamadas "pedaladas fiscais". Foi afastada da presidência a 12 de maio e considerou que o processo de impeachment de que foi alvo era um "golpe".

A chegada à cadeira do poder aconteceu em 2010. Dilma Rousseff foi a "escolhida" por Lula da Silva para o suceder na liderança do PT e chegar, assim, a chefe do governo brasileiro. Em 2014 voltou a ser eleita e depois da crise económica e política que levaram o executivo de Dilma a tomar medidas impopulares, como o aumento da carga fiscal, Dilma viu o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, autorizar a abertura de um pedido de impeachment apresentado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Júnior e Janaína Paschoal, que sustentava que o governo brasileiro cometeu irregularidades fiscais no atual mandato, iniciado em janeiro de 2015.

Da ditadura à presidência

Nascida em Belo Horizonte, no seio de uma família da classe média, começou muito cedo a interessar-se por política. Lutou contra a ditadura militar, integrando vários movimentos de esquerda: a organização Colina (Comando de Libertação Nacional), e, posteriormente, a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares).

Vivia na clandestinidade e usava nomes diferentes para não ser descoberta pelas forças do regime, mas chegou a estar presa em São Paulo durante quase três anos. Aí foi torturada com murros, choques elétricos e outras práticas violentas.

Quando saiu da prisão, dez quilos mais magra e com problemas de saúde, suspenderam os seus direitos políticos.

Mudou-se para o Rio Grande do Sul, mais propriamente para Porto Alegre, e ali se estabeleceu com o companheiro Carlos Araújo, com quem fundou o PDT do Rio Grande do Sul.

Dilma tinha sido expulsa da Universidade Federal de Minas Gerais e impedida de acabar os seus estudos naquela universidade. Foi na Universidade Federal do Rio Grande do Sul que acabou por se formar em Economia, em 1977.

Antes, em 1976, já tinha começado a trabalhar na Fundação de Economia e Estatística, como estagiária.

Fundadora do PDT do Rio Grande do Sul ao lado do companheiro Carlos Araújo, Dilma Rousseff foi ainda assessora da bancada do PDT na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul.

Depois, foi Alceu Collares, que Dilma apoiou na candidatura à prefeitura de Porto Alegre, que a nomeou para ser Secretária da Fazenda de Porto Alegre, cargo que exerceu entre 1985 a 1988.

Em 1989 foi nomeada diretora-geral da Câmara de Vereadores de Porto Alegre. Depois, tornou-se presidente da Fundação de Economia e Estatística, entre 1991 a 1993, e passou pela Secretaria Estadual de Energia, Minas e Comunicações, entre 1993 a 1994.

Em 2001, Dilma filiou-se no Partido dos Trabalhadores (PT) e tornou-se no braço direito de Lula da Silva. 

Coordenou a equipa de Infra-Estrutura do Governo de Transição entre o último mandato de Fernando Henrique Cardoso e o primeiro de Lula da Silva, tendo sido a responsável pelo programa de Energia do governo de Lula.

Em 2002, Lula da Silva foi eleito Presidente do Brasil com quase 53 milhões de votos, tornando-se no segundo presidente mais votado do mundo, apenas superado pelo presidente norte-americano Ronald Reagan. O PT estava pela primeira vez no poder e Dilma Rousseff tornou-se uma figura central do executivo de Lula.

Começou por ser ministra da pasta das Minas e Energia entre 2003 e junho de 2005 e após a demissão de José Dirceu de Oliveira e Silva, em 16 de junho de 2005, acusado de corrupção, chegou à Casa Civil.

Foi também indicada pelo presidente para ser gestora do PAC, Programa de Aceleração de Crescimento, motivo pelo qual ficou conhecida como "a mãe do PAC".

Redação / CM