O ex-candidato presidencial brasileiro Fernando Haddad excluiu esta quarta-feira, em Lisboa, uma disputa futura da liderança do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda), adiantando que o quer é "recolocar" a esquerda em diálogo com a sociedade.

Não passa pelos meus planos [a disputa da liderança]. Passa pelos meus planos recolocar a esquerda numa situação de diálogo com a sociedade para evitar que decisões equivocadas sejam tomadas em nome do país", disse Fernando Haddad aos jornalistas.

O antigo prefeito de São Paulo e ex-ministro da Educação do Partido dos Trabalhadores, derrotado por Jair Bolsonaro (extrema-direita) nas eleições presidenciais de outubro, está em Lisboa no âmbito de uma viagem que visa mobilizar as forças de esquerda contra os avanços da extrema-direita.

Afirmando-se "um professor disponível para um projeto coletivo", Haddad sublinhou o facto de o Brasil ter, neste momento, um "Presidente visivelmente despreparado", que anuncia decisões erradas como a saída do Pacto Mundial das Migrações ou do Acordo do Clima de Paris.

Um país que foi constituído por imigrantes, sair do Pacto de Migrações das Nações Unidas... O Brasil jamais faria isso em condições normais. Foi um gesto de automatismo, macaqueando as decisões tomas pelos americanos, sem nenhuma reflexão", disse.

Fernando Haddad apontou também o que considerou "uma visão equivocada, anticientífica e negacionista" da questão ambiental.

Um país que é celeiro do mundo tem muito a perder se deixar o Acordo de Paris e, em Davos, [o Presidente] fez questão de mencionar a expressão 'por hora', dizendo que 'por hora permanecemos no acordo', apesar do recuo aparente do Governo brasileiro em relação à saída do acordo", apontou.

Para Haddad, tal significa que o Presidente ainda não está convencido dos prejuízos que a saída do acordo acarretaria para o Brasil, nomeadamente para as exportações brasileiras.

O antigo candidato denunciou, neste sentido, uma "agenda diplomática equivocada" do Governo brasileiro, "automaticamente alinhada, num alinhamento cego" com os Estados Unidos.

Por isso, Haddad reafirma a "pretensão de colaborar para que a oposição haja democraticamente em proveito de um projeto alternativo para o país", baseado numa aposta nas frentes dos direitos civis, políticos, sociais e ambientais e da soberania social e direitos sociais.

Para Haddad, no atual panorama político brasileiro há seis partidos com "condições de oferecerem alternativas" e de fazer "boa oposição".

O papel da Oposição é apresentar alternativas melhores do que as do Governo. É isso que faremos", disse, considerando que as medidas que vem sendo anunciadas por Jair Bolsonaro vão, mais cedo ou mais tarde, ter uma reação crítica por parte da sociedade brasileira.

 

Não há como não haver uma reação das pessoas de espírito mais livre e que não querem viver sob ameaça. Acho que já está até a haver essa reação. Estamos a dia 23 [a tomada de posse foi a 01 de janeiro] e já há uma indignação com essas posições", disse.

O ex-candidato do PT disse esperar que o Governo "possa ainda mudar" e "reaja a uma sociedade que é muito mais avançada e arejada" que o Executivo.

Fernando Haddad manifestou ainda preocupação com a "escalada da intolerância" a nível global, defendendo a existência de uma agenda também global para "refrear o avanço do obscurantismo".

Haddad, que já esteve reunido com forças de esquerda nos Estados Unidos, Uruguai, Espanha, vai reunir-se esta tarde com representantes do Partido Socialista.

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