Se "em rio de piranhas, jacaré nada de costas", como sabe e aconselha qualquer bom brasileiro, Fernando Haddad tem tentado manter-se à tona nas águas turvas da radicalizada política brasileira, em que as taxas de rejeição têm conseguido suplantar as intenções de voto nos candidatos a presidente da República Federativa do Brasil, o maior país da América do Sul.

Até agora, o professor universitário Haddad tem enfrentado o largo descontentamento popular com o seu Partido dos Trabalhadores (PT), minado por acusações e condenações por corrupção, a enxurrada das chamadas "fake news" com que os rivais inundam as redes sociais e até o atraso com que entrou na corrida eleitoral

Vice de Lula, quando o antigo presidente, condenado e preso, se viu impossibilitado, de vez, de se recandidatar, coube a Haddad segurar a bandeira do Partido dos Trabalhadores (PT) para concorrer ao lugar no Palácio do Planalto, em Brasília. Foi a 11 de setembro. Daí, até à primeira ida às urnas, o filho de um emigrante libanês conseguiu conquistar 31 milhões de brasileiros. Ficou então com três semanas para tentar recuperar uma desvantagem de 18 milhões de votos para o antigo capitão do exército, Jair Bolsonaro, que simplesmente acusa de ser fascista.

Acho que os portugueses que conhecem o salazarismo e sabem tudo de ruim que o fascismo traz para o mundo, deviam ficar preocupados com a eleição no Brasil, porque a democracia, com o afastamento da Dilma sem crime de responsabilidade e a prisão injusta do Lula, denunciada pela própria ONU, isso é que deveria preocupar os portugueses”, afirmou o candidato no início do mês à reportagem da TVI.

Na política, Haddad já ganhou, quando foi eleito prefeito da mais populosa cidade brasileira, S. Paulo, com mais de 12 milhões de habitantes. E também já perdeu, quando falhou a recandidatura para continuar presidente do município, quatro anos depois, em 2016.

Agora, substituir Lula da Silva como candidato - que até liderava as sondagens eleitorais antes de desistir, após uma série de recursos - tem soado com algumas dissonâncias: também Haddad é acusado de corrupção e, até por isso, enfrenta uma forte desconfiança e rejeição popular face aos anteriores governos do PT, de Lula e de Dilma. Na passagem de testemunho, foi bem mais fácil alterar a música da candidatura, em que se passou a cantar “Lula é Haddad”, em vez de “Lula e Haddad”.

Menino e "músico"

Um violão, um carro de brincar e um sorriso de menino estão à vista na mais antiga fotografia de Fernando Hadadd, que surge nesta altura de campanha. Filho do emigrante libanês Khalil Haddad e da brasileira, filha de libaneses, Norma Teresa Goussain, o agora candidato a presidente do Brasil viveu a sua infância no bairro Planalto Paulista e estudou em colégios.

Fernando Haddad em criança

Khalil, o pai do candidato Haddad, emigrara para o Brasil quando tinha 24 anos e estabeleceu-se com uma loja de tecidos na rua 25 de Março, uma artéria comercial da cidade de S. Paulo. Fernando seria o seu segundo filho, nascido a 25 de janeiro de 1963, entre as duas irmãs, Priscila e Lúcia.

Dois anos antes de Fernando nascer, o seu avô paterno Khouri Habib Haddad morreu, já no Brasil, após deixar o Líbano, onde era um líder cristão ortodoxo. Reza a biografia oficial do candidato, que ele guarda na carteira uma foto do antepassado que não conheceu, mas sobre quem sempre ouviu contar que era um pacificador e mediador de conflitos na pequena aldeia libanesa natal de Ainata.

Haddad cresceu durante os 21 anos da ditadura miliar no Brasil, imposta no país entre 1964 e 1985. Pretendia ser engenheiro, mas aos 18 anos resolveu estudar Direito. Segundo a biografia oficial, a decisão foi influenciada por causa do pai ter sido vítima de uma burla comercial.

"The Pravda"

Na Universidade de S. Paulo, a ação políitica e o marxismo entranharam-se em Fernando Haddad, que, em 1984, chegaria a presidente do Centro Académico XI de Agosto, a associação de estudantes da Faculdade de Direito. Encabeçou então uma terceira lista, que vingou entre as tradicionais apoiadas por trotskistas e universitários ligados ao Partido Comunista Brasileiro: chamou a essa candidatura "The Pravda", numa junção entre os títulos dos jornais norte-americano "The New York Times" e do soviético "Pravda".

A atividade política na universidade valeu a Haddad passar a estar referenciado pela polícia política da ditadura militar, que então vivia os seus últimos anos. Mais ainda porque o jovem universitário se alistara em 1983 no Partido dos Trabalhadores e participaria ativamente no movimento "Diretas Já", que exigia o sufrágio sem internediações do presidente do Brasil.

A política e o marxismo colaram-se assim a Haddad desde os tempos de estudante. Em 1985, licenciou-se em Direito e ingressou, no ano seguinte, no mestrado em Economia, que concluiu em 1990 com a dissertação “O caráter sócio-económico do sistema soviético”. Mais um ano e fez-se ao doutoramento em Filosofia, que concluiu em 1996, com a tese “De Marx a Habermas – O materialismo histórico e o seu paradigma adequado”, versando sobre as teses dos neo-marxistas da chamada Escola de Frankfurt.

Com tanto estudo, em 1991, Haddad tornou-se professor na sua Universidade de S. Paulo, no curso de Ciência Política. Já era casado, desde 1988, com a odontologista e também professora, Ana Estela. O primeiro filho, Frederico, nasceria em 1992 e a filha Ana Carolina, em 2000.

Fernando Haddad com a mulher Ana Estela e os filhos Frederico e Ana Carolina

Novo século

Então militante do PT, Marta Suplicy tornou-se prefeita da câmara de S. Paulo, em 2001. E convidou Haddad para subsecretário das Finanças e Desenvolvimento Económico, que, dois anos depois, seguiu para Brasília, para integrar o primeiro governo de Lula da Silva.

Em 2005, Haddad tornou-se ministro da Educação, substituindo Tarso Genro, que abandonou o cargo ao ser nomeado presidente do PT.

Sete anos com ministro da Educação, Haddad serviu. E o professor assume agora ter servido os propósitos do então presidente Lula da Silva.

Me lembro bem. Ele falou: 'Haddad. Eu tenho que ser o presidente que mais vagas em universidade abriu, porque eu não pude fazer faculdade. Eu queria ser economista, eu sou um sujeito que gosta de estudar, de saber das coisas e eu não pude. Se eu chegar à Presidência e não fizer a diferença, quem vai fazer? Os doutores? Os doutores já passaram por lá e não fizeram’”, conta o agora candidato na sua página de candidatura.

O PT enaltece o trabalho de Haddad na pasta da Educação. Com números, muitos números - "mais de 400 novos campi de escolas federais em todos os 27 estados do Brasil", "construção de 37 mil escolas" e "de 18 universidades federais" - e medidas, caso das duas emendas constitucionais que instituíram, por exemplo, a obrigatoriedade do ensino dos quatro aos 17 anos.

Fernando Haddad com Lula da Silva

S. Paulo e Rock 'n' roll

A primeira vitória eleitoral de Haddad surgiu em 2012, quando se candidatou à câmara municipal da sua S. Paulo natal. Tal como agora, não foi à primeira. Perdeu para José Serra, a velha raposa da política brasileira e do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), mas recuperou na segunda volta, conseguindo 55% dos votos e alcançando o cargo de prefeito.

Na prefeitura, Haddad renegociou a dívida do município e apostou muito na mobilidade da sempre engarrafada cidade de S. Paulo, segundo a sua biografia oficial, criando ciclovias, aumentando os transportes públicos e criando corredores BUS. Mas, os preços dos transportes aumentaram e a contestação invadiu as avenidas.

A popularidade de Haddad, contudo, ia caindo. Mesmo quando se arriscou em prestações artísticas atrevidas, caso da versão desengonçada de "Smoke on the Water" dos Deep Purple, que tocou em palco com os rappers norte-americanos Public Enemy, ou da versão de "Blackbird", do chamado Álbum Branco, dos The Beatles, esgalhada com a banda brasileira de covers, Beatles 4Ever.

Haddad fez por cantar bem como prefeito, mas não alegrou os paulistas. Tentou a reeleição em 2016 e perdeu para João Doria Júnior do PSDB, o primeiro candidato até hoje a ganhar logo na primeira volta. O professor do PT ficou-se por uns escassos 16,7 % dos votos válidos.

Delfim e substituto

No ano passado, Lula da Silva anunciou que seria candidato à presidência. Saiu pelo Brasil fora em campanha e passou a liderar as sondagens. Fernando Haddad surgia como vice-presidente e continuou como número dois da "chapa 13" até meados do mês passado, quando se esgotaram os vários recursos interpostos pelo antigo presidente brasileiro.

Preso em Curitiba, capital do estado do Paraná, Lula tem pela frente uma pena aumentada por um juízo de segunda instância de doze anos e um mês de prisão, por ter recebido um apartamento em Guarujá, S. Paulo, como suborno inlcuído num esquema de corrupção suportado pela petrolífera Petrobras.

Haddad substituiu Lula como candidato do PT, tendo com vice-presidente Manuela d'Ávila, uma jornalista e ativista, militante do Partido Comunista do Brasil. Mas o candidato substituto também tem a justiça brasileira à perna: foi formalmente acusado pelo Ministério Público de São Paulo de corrupção, lavagem de dinheiro e associação criminosa.

Em causa, estará um suposto pagamento feito por uma empresa de construção ao PT, da ordem do meio milhão de euros, quando Haddad era prefeito de S. Paulo. O denunciante é o empresário Ricardo Pessoa e o procurador acusa o agora candidato de ter sido o “beneficiário final” do dinheiro pago da "Caixa 2", a expressão brasileira para "saco azul".

Surpreende que, no período eleitoral, uma narrativa do empresário Ricardo Pessoa, da UTC, sem qualquer prova, fundamente três acções propostas pelo Ministério Público de São Paulo, contra o ex-prefeito e candidato a vice-presidente da República, Fernando Haddad”, foi então a resposta da equipa eleitoral do PT.

A acusação não impedia, contudo, a candidatura de Haddad. Nem a vice-presidente, nem depois, à presidência do Brasil. Numa campanha em que teve de correr contra o tempo, frente a um candidato Bolsonaro que há muito estava no terreno, o professor chegou ao primeiro sufrágio do dia 7 de outubro em clara desvantagem nas intenções de voto.

Haddad conseguiu 29,28% dos 107 milhões de votos válidos. Venceu em nove dos 27 estados, especialmente nos do nordeste. Mas perdeu para Bolsonaro no interior profundo do Brasil e no sul litoral atlântico, onde se localizam as regiões mais populosas de S. Paulo e Rio de Janeiro.

Agora, no próximo domingo, para ser presidente terá de obter mais de metade dos votos que forem expressos, num universo eleitoral de 147 milhões de eleitores. O que passa por convencer muitos milhões de brasileiros. E não, propriamente, apenas um bocadinho assim...

Fernando Haddad na segunda volta das presidenciais
Paulo Delgado