Numa curta declaração, enérgica, mas sem direito a perguntas, o presidente brasileiro tentou pôr uma pedra sobre o assunto que abalou o país, quarta-feira à noite, com a revelação de que o empresário Joesley Batista teria gravado a conversa que tivera consigo a 7 de março. Na qual Temer teria assentido a que ele continuasse a pagar mensalmente subornos ao detido ex-deputado, Eduardo Cunha. Para que este não contasse o que sabe à Justiça.

Ouvi relato do empresário, dizendo que auxiliava a família do ex-parlamentar. Não solicitei que isso acontecesse (...) Repito: em nenhum momento autorizei que pagassem a quem quer que seja para ficar calado. Não comprei o silêncio de ninguém", frisou Michel Temer.

Ouça aqui a gravação da conversa entre Joesley Batista e Michel Temer

Além de ter assumido a reunião com Joesley e o irmão Wesley, patrões da JBS, uma das maiores empresas de processamento e venda de carne congelada, Michel Temer confirmou também ter pedido ao Supremo Tribunal a gravação da reunião. Sem efeito, até ao momento.

Tentei conhecer o conteúdo das gravações que me citam. Solicitei oficialmente acesso a esses documentos, mas até ao presente momento não o consegui", revelou o presidente brasileiro.

Na declaração, Michel Temer salientou de viva voz, não precisar de cargos públicos: "Nada tenho a esconder" mas deixou clara a acusação de que as "conversas gravadas clandestinamente trouxeram de volta o fantasma da crise política. E todo o esforço de tirar o país da crise pode-se tornar inútil".

Temer advogou mesmo que será através da investigação levada a cabo pelo Supremo Tribunal, que passou a incluí-lo a si também, que se fará luz sobre todos os meandros da Operação Lava Jato, que investiga o maior escândalo de corrupção e pagamento de subornos da história do Brasil.

Inquérito aberto

Apesar da resistência de Michel Temer em se manter como presidente, muitas vozes se têm levantado, considerando que deveria abandonar o cargo. Incluindo o antigo presidente Fernando Henrique Cardoso, que usou o Facebook para o efeito. Mesmo sendo conhecido como um dos que sempre apoiaram o senador Aécio Neves, também ele fortemente apanhado nos mais recentes episódios da novela político-judicial que se agudiza no Brasil.

Entretanto, o juiz do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, decidiu alargar a investigação da Operação da Lava Jato ao presidente brasileiro Michel Temer, por via das denúncias feitas pelos empresários da JRB, que participam no processo sob o regime da "delação premiada", um estatuto próximo do de "arrependido", que lhes traz atenuantes a nível penal.

Demissões anunciadas

De acordo com a imprensa brasileira, haverá, contudo, baixas no governo de Michel Temer. A saber, o ministro das Cidades, Bruno Araújo, e também Aloysio Nunes, titular das Relações Exteriores terão prontas as cartas de demissão.

Além das ondas de choque no intrincado mundo político brasileiro, a crise criada em torno das suspeitas sobre o presidente teve já como repercussão um abalo nos mercados financeiros.

Formalmente, um pedido de impeachment foi feito pelo deputado Alessandro Molon, do partido Rede. E nas ruas das maiores cidades, milhares têm vindo a exigir o afastamento do presidente.