O arquiteto Paulo Mendes da Rocha, criador do atual edifício do Museu dos Coches em Lisboa e vencedor em 2006 do Prémio Pritzker, o mais importante prémio de arquitetura, morreu este domingo, em São Paulo. Tinha 92 anos. 

A sua filha, Joana Mendes da Rocha, deu a notícia publicando uma simples fotografia no Instagram:

Paulo Mendes da Rocha foi o primeiro brasileiro receber o Leão de Ouro da Bienal de Veneza, em 2016, e ainda há duas semanas tinha ganho a Medalha de Ouro da União Internacional de Arquitetos. O júri destacou então a ousadia e o virtuosismo técnico do arquiteto: “a Medalha de Ouro UIA de Paulo Mendes da Rocha exemplifica uma vida de realizações ao longo de sete décadas que enfatizou a arquitetura como um ato público”.

Em julho próximo a sua obra irá estar em foco no Congresso Mundial de Arquitetos, que decorrerá online, e no qual Paulo Mendes da Rocha deveria participar. 

O arquiteto doou recentemente a totalidade do seu acervo profissional à Casa da Arquitetura, em Matosinhos. Entre os seus projetos destacam-se o Museu Brasileiro de Escultura (1988), a remodelação da Pinacoteca do Estado de São Paulo (1993), o Centro Cultural da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (1996) e o Museu da Língua Portuguesa (2006).

Mas, de todos, o mais conhecido dos portugueses é o Museu dos Coches, em Lisboa, criado com o atelier português de Ricardo Bak Gordon, inaugurado em 2015 e envolto em diversas polémicas, quer pelo custo da obra quer pelas características do edifício, considerado “demasiado moderno” por alguns.

Paulo Mendes da Rocha ignorou todas as polémicas e concentrou-se no que era importante. "Para um arquitecto, às vezes as coisas têm uma brutalidade que as outras pessoas não imaginam. Existe toda a lírica extraordinária associada aos coches, com neptunos e anjos e dourados, são lindos mas são coches que pesam toneladas e medem sete metros de comprimento. É muito diferente de querer acomodar telas de 250 gramas", confessava o arquiteto quando o projeto foi apresentado em Lisboa. "Precisa botar esse negócio lá, naquele lugar", dizia, naquele jeito brasileiro.

"Botar o negócio lá" foi o grande desafio deste projeto. E a expressão pode ser entendida de duas maneiras diferentes. Por um lado, foi preciso imaginar o edifício que ficaria bem naquele local, entre a linha do comboio da Avenida da Índia (e o Tejo do outro lado) e a Rua da Junqueira (com um conjunto arquitetónico classificado e que teve de ser "incorporado" no projeto), com a Calçada da Ajuda ao lado, o jardim, a Presidência da República, os Jerónimos e o Centro Cultural de Belém ao longe.

Numa cidade, o antigo e o moderno devem conviver. Tem de ser assim, não há outra forma”, dizia o arquiteto.

E, depois, também foi preciso saber como colocar os coches no novo edifício - e o arquiteto, que já conhecia Lisboa, foi, então, visitar pela primeira vez o antigo museu, no picadeiro, para ver de perto os monumentais coches. Só então começaram a surgir as primeiras ideias. "O edifício começou a sair dessa dimensão mecânica e materialmente grande dos objetos", explicou. 

Imaginou-o "levantado do chão para não ocupar totalmente o terreno", para não se impor desmedidamente e para facilitar a vida aos visitantes. "Suspenso mas com elegância.” Com muitos vidros e todo em branco. Enorme mas discreto, dando a ver aquilo que é realmente importante, que são os coches. 

"Criando espaços internos e externos", como se o museu tivesse uma vida em si mesmo, como uma pequena cidade dentro da cidade. E quem conhece um pouco a obra e o pensamento de Paulo Mendes da Rocha, sabe como esta ideia era fundamental para ele:

Atualmente, o arquiteto é visto como alguém capaz de fazer coisas completamente estrambóticas. Há uma visão muito mercantilista da arquitetura", lamentava.

Apesar de conhecido pelas suas grandes obras, o brasileiro insistia no essencial da arquitetura: "A cidade é feita com casas, você não consegue fazer uma cidade só com monumentos. Haverá de ter os seus monumentos e museus, mas a cidade é feita de alarido de crianças, escolas, transportes públicos eficientes." Tudo pelo bem-estar e felicidade. "O homem aflito não vale nada."

Maria João Caetano