O novo autarca do Rio de Janeiro, a segunda maior cidade do Brasil, é um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus. A vitória folgada do líder evangélico Marcelo Crivella numa das mais importantes cidades brasileiras é sintomática do que aconteceu na segunda volta das eleições municipais, um pouco por todo o território: a queda da esquerda que dominou o Brasil na última década e a ascensão dos conservadores de centro-direita. 

Marcelo Crivella venceu no Rio de Janeiro pelo Partido Republicano Brasileiro (PRB) com 59,37% dos votos, derrotando Marcelo Freixo, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).

As eleições nesta cidade, de resto, ilustram bem as duas faces do Brasil da atualidade: de um lado o modelo conservador de Crivella, bispo da Igreja Universal, que defende a teoria criacionista, que condena a homossexualidade e a Igreja Católica, e, do outro, Freixo, um professor de História, que defende a legalização do aborto e das drogas leves, que liderou a resistência das forças de esquerda em plena crise do Partido dos Trabalhadores (PT).

A vitória de Crivella é um feito inédito e um passo muito significativo na estratégia política dos evangélicos, que ganham cada vez mais influência no Brasil.

Atualmente, já há um grande número de pastores evangélicos no poder Legislativo – são cerca de 80 deputados, mais 14% do que na última legislatura. Mas os objetivos políticos desta direita religiosa são bem maiores, segundo apontam os especialistas.

A investigadora brasileira Christina Vital, da Universidade Federal Fluminense, não tem dúvidas: os evangélicos querem chegar ao poder Executivo e, daí, alcançar o poder Judiciário. Numa entrevista ao Folha de São Paulo, a especialista sublinha que, para os evangélicos, chegar à Presidência do país é importante para poderem vetar assuntos que entram em conflito com os parâmetros religiosos, como por exemplo as matérias que têm a ver com a comunidade homossexual.

Uma tese que parece ser apoiada pelas declarações de Crivella. Em 2011, quando falava para um grupo de religiosos, o agora autarca afirmou que tinha trocado o altar pela política e que o Brasil devia ter um presidente evangélico pois só assim o evangelho poderia chegar a todas as nações do mundo.

A queda de um PT mais fraco do que nunca

O PT foi o grande derrotado destas eleições. Pela primeira vez desde 1985, o partido ganhou apenas numa capital de estado, Rio Branco. De 638 câmaras conquistadas em 2012, restaram apenas 254.

A derrota acontece num momento em que o partido está enfraquecido pelo impeachment da antiga presidente Dilma Rousseff, pela crise económica e pelos escândalos de corrupção que envolvem o ex-presidente Lula da Silva.  

O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), pelo contrário, saiu como o grande vencedor desta segunda volta. Não por ter conquistado o maior número de câmaras, mas por ter vencido nas mais importantes e agora governar para o maior número de brasileiros.

O maior número de câmaras foi conseguido pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), do atual presidente Michel Temer, que ficou, assim, em segundo lugar nestas eleições.