Raul de Orofino sabe muito bem o que é a crise. No tempo de Fernando Collor de Mello, quando a crise se adensou no Brasil e os grandes mecenas do Teatro viram as contas pessoais congeladas, os atores ficaram sem palcos. Raul não baixou os braços e foi representar na casa dos espectadores. Uma espécie de “teatro pizza”, como ele lhe chama.

Passou a fazer teatro terapêutico em aviões, para combater o medo de voar e, daí até ao trabalho nas empresas que hoje o leva a Espanha, Itália, França e alguns países africanos, foi um curto salto.

Raul de Orofino sabe bem o que é a crise. Viveu-a em Portugal nos tempos da troika e elogia a forma como os portugueses souberam sair dela, “sem fantasmas”.

O ator, que vive em Portugal há 19 anos, começou a carreira ainda a ditadura era uma ‘velha senhora’. Ouviu relatos de quem a sentiu na pele, de quem foi preso e torturado.

Mas nem todo esse percurso preparam Raul para o que vê agora no Brasil.

Essa situação social é muito triste, porque eu vejo que as pessoas estão pouco informadas. As pessoas não têm conhecimento do que é um discurso fascista. Nós temos um candidato que tem um discurso que é fascista. O herói dele é um torturador. É inaceitável ele dizer publicamente isso.”

 

Ele pensa em armar todo o mundo e ele pensa em dar armas para crianças de cinco anos. Não sou eu que estou dizendo. Não é uma fake news. Há vídeos dele falando isso.”

O trabalho que Raul de Orofino faz há anos nas empresas tem como objetivo derrubar ódios e preconceitos. É com o que dá e recebe nessas peças e palestras que adivinha que um discurso de apelo ao preconceito “pode não dar boa coisa”.  

Esse homem não pode ir para uma Internet e para a televisão dizer que o nordestino tem de comer capim. É um povo enorme o nordestino. Ele não respeita as pessoas e isso me dá muito medo. (…) Uma pessoa que chefia uma nação, se não tem respeito pelas pessoas, isso pode não dar em boa coisa.”

“As pessoas maltratarem-se umas às outras, ter preconceito com as pessoas nunca leva ninguém para lado nenhum. É muito triste ver isso. É muito triste ver seres humanos maltratar outros seres humanos”, sublinha, em entrevista à TVI

Numa entrevista em que fez questão de sublinhar que “Haddad não é a melhor coisa do mundo”, Raul de Orofino nunca trata o opositor do candidato do Partido dos Trabalhadores (PT) pelo nome. Mas reconhece-lhe pelo menos uma qualidade: soube rodear-se das pessoas certas.

Ele foi muito inteligente e as pessoas não reconhecem isso. Pelo que parece, ele foi-se apoiar por uma pessoa que ajudou o Trump. Há pouco tempo descobriram, isso é factual, sobre as fake news. E as empresas estão bancando essas fake news. Segundo a lei eleitoral brasileira, a candidatura seria impugnada pelo TSE[Tribunal Superior Eleitoral]. Não foi impugnada e nem vai ser.”

Apesar da vantagem de Jair Bolsonaro nas sondagens, o ator e palestrante mantém uma esperança numa reviravolta: “Eu sou um homem otimista. Eu sou um homem que acredita no melhor. Eu ainda tenho esperança que isso vire. Não, eu não sou do PT. Eu não acho Haddad a melhor coisa do mundo. Mas se eu tiver que votar entre uma árvore e o fascista, eu vou escolher a árvore. Se eu tiver que escolher entre um poste e o fascista, eu vou escolher o poste. É tudo, menos o fascista.”

Com o teatro e a arte a correrem-lhe nas veias, não esconde a preocupação com o futuro da Cultura no Brasil.

Não tenho ideia. Não sei o que esse homem vai fazer. Se ele for eleito, não é? Com o outro, eu ficou um pouco mais tranquilo. Mas com ele não sei.”

Manuela Micael