Thaís de Campos veio a Portugal pela primeira vez em 2000. Ficou por cá durante oito anos. Voltou ao seu Rio de Janeiro, mas nunca deixou de vir com regularidade a este lado do Atlântico. A atriz que os portugueses bem conhecem das telenovelas voltou, há dois anos, “a botar mais o pé em Portugal do que no Brasil”.

Com uma filha adolescente a frequentar a escola em Portugal e outra na Universidade no Brasil, o coração de mãe continua dividido e a atriz continua dividida entre os dois países. Por cá, dá aulas e workshops de televisão, cinema e teatro, bem como formação na área da comunicação.

É com preocupação que, a esta distância, vê o evoluir da situação económica, social e política do Brasil.

É muito triste o que está a acontecer no Brasil. Estamos sem opção e o país chegou a um estado… Como é que um país tão grande, tão lindo, com tanta riqueza consegue chegar a esse estado? O Brasil está falido. A máquina não anda. Roubaram tanto, tanto, tanto que não deixaram dinheiro para que a máquina andasse.”

 

O Rio de Janeiro, então, é o pior. Os funcionários públicos não recebem. Em janeiro, quando fui logo depois do Natal, as pessoas diziam ‘tem três meses que a gente não recebe’, como é que poderíamos ter Natal; a gente não tem o que comer’. Os bombeiros, os polícias, os enfermeiros… Como é que funciona a máquina se não há nem dinheiro para as pessoas comerem?”

Para Thaís de Campos, foi este cenário que conduziu o país ao panorama político polarizado que o Brasil atravessa. É com surpresa, mas sobretudo com choque, que vê crescer no país onde nasceu os movimentos de extrema-direita que têm emergido no Brasil: “Tudo o que é extremo e tudo o que é violento nos choca, mas só quem vive lá, vê que a situação que está a acontecer já não é de agora, é de há algum tempo. Não existe segurança. Não conheço uma pessoa que não tenha sido roubada.”

É uma consequência. A partir do momento em que não há dinheiro, não há trabalho, a violência aumenta. Se o polícia não recebe, como é que ele vai defender? Se o bombeiro não recebe… É uma cadeia que vai propiciando a corrupção, propiciando a que as coisas aconteçam errado.”

Da segunda volta das eleições de domingo, Thaís de Campos espera sobretudo uma mudança. Mas, entre a espada e a parede, a atriz não consegue escolher: “Eu acho que quando a gente chega ao extremo a que a gente chegou, de o país não andar, de o país não conseguir se movimentar, tem de ter uma mudança. O que eu espero é que haja uma mudança. O melhor para essa mudança não é o Bolsonaro, com certeza, e nem é o PT. Mas infelizmente é o que nós temos, não é?”

Mesmo com a vitória quase certa de Jair Bolsonaro, considera que não há perigo de o país regressar à ditadura, como muitos temem. Até porque “um homem sozinho não pode fazer tanto estrago”.

A esperança da atriz está nos “novos políticos”, mas adivinha uma mudança lenta e que vai demorar muitos anos.

A minha esperança é nessas pessoas, nesses novos políticos, que eles consigam, aos poucos limpar o sistema. O sistema está completamente podre."

A alma de artista entristece-se quando pensa no futuro da Cultura no Brasil.

Com certeza, a cultura vai sofrer. Não tem como dizer que não. Ele [Bolsonaro] não é um homem que se preocupe com isso.”