O Dia da da Independência do Brasil tornou-se uma prova de fogo para Jair Bolsonaro. Há semanas que o Presidente brasileiro tem apelado à participação dos seus apoiantes em manifestações do Dia da Independência que se assinala esta terça-feira - e que celebra Declaração de Independência do Brasil do Império Português no dia 7 de setembro de 1822.

O objetivo de Bolsonaro é deixar claro o apoio popular ao seu governo, de forma a contrariar as críticas na imprensa nacional e internacional e os números apresentados pelas sondagens a pouco mais de um ano das eleições. Além do agravamento da situação económica - com inflação e desemprego a crescer -, o presidente tem sido muito atacado pela forma como lidou com pandemia de covid-19.

Bolsonaro, cuja popularidade hoje ronda os 25%, segundo todas as sondagens, reiterou que estará presente nessas manifestações "junto com o povo" para dar  "um ultimato àquelas pessoas" que "não respeitam o Constituição".

Segundo o Presidente brasileiro, "o povo" na rua vai exigir que quem o "desafia" "se curve diante da Constituição, defenda a liberdade e entenda que está errado, mas que sempre há tempo para se redimir".

O diferendo com o Supremo Tribunal

Nos atos em que participará esta terça-feira, o presidente deverá, portanto, repetir a frase “Eu só posso fazer alguma coisa se vocês assim o desejarem”, dita nas últimas semanas como crítica ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que acusa de usarem os seus poderes para boicotarem o trabalho do governo.

Nós não criticamos instituições ou poderes. Somos pontuais. Não podemos admitir que uma ou duas pessoas que, usando da força do poder, queiram dar novo rumo ao nosso país", disse Bolsonaro num comício recente.

 

Essas uma ou duas pessoas têm de entender o seu lugar. E o recado de vocês, povo brasileiro, nas ruas, na próxima terça-feira, dia 7, será um ultimato para essas duas pessoas", acrescentou o Presidente.

Embora não tenha citado nomes, Bolsonaro fez alusão aos juízes do STF Alexandre de Moraes e Luís Barroso, com quem se desentendeu no quadro de um sério conflito institucional que, em parte, é alimentado por grupos de extrema-direita que apoiam o Governo.

Barroso, além de membro do Supremo Tribunal Federal, preside ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobre o qual Bolsonaro sustenta, sem provas, que prepara uma fraude para as eleições de 2022 através do uso do sistema eletrónico de votação, que o país adotou em 1996 e cuja transparência é amplamente reconhecida.

Moraes, por sua vez, é responsável por um processo de divulgação massiva de notícias falsas e ataques a instituições democráticas pela internet, em que são investigados o próprio Presidente e dezenas de militantes de extrema-direita.

Este apelo aos protestos foi rejeitado pelo Congresso e pelo próprio Supremo Tribunal Federal e condenado por organizações empresariais, bancos, sindicatos e partidos políticos da direita mais moderada, que nos últimos dias publicaram manifestos em defesa da democracia e contra qualquer tipo de "aventura autoritária".

Manifestações pacíficas mas que podem tornar-se violentas

Em várias cidades haverá esta terça-feira manifestações pró e contra Bolsonaro, mas a grande expectativa é em relação ao que vai acontecer em São Paulo e, na capital, Brasília, onde os eventos contarão com a presença do próprio presidente.

Em Brasília são esperados cerca de 100 mil manifestantes de pelos menos dez estados, sendo que a capacidade hoteleira da região encontra-se perto da lotação, de acordo com a imprensa local, que relata ainda que caranavas provenientes de várias parte do país se deslocaram para o centro do poder brasileiro para os protestos

São 14 os grupos favoráveis ao presidente que vão se reunir na Esplanada dos Ministérios e poderão transitar entre a Biblioteca Municipal e a rua acima do Congresso Nacional. Já os grupos contrários ao governo vão reunir-se na Torre de TV, localizada a cerca de três quilómetros da Esplanada.

E apesar de o presidente apelar a que todos os protestos sejam pacíficos - dizendo que serão apenas manifestações em “defesa da liberdade” e “dos valores conservadores” - alguns manifestantes mais radicais têm usado as redes sociais para fazer ameaças e apelar à "invasão" das sedes do Parlamento e do STF, sugerindo até o assassinato de juízes.

Os manifestantes já estão nas ruas e, como eles, milhares de polícias (três mil só em Brasília), que vão tentar manter a ordem. Os eventos desta noite deixaram já um aviso sobre o que se pode esperar para o dia de hoje.

A chegada de Bolsonaro e de alguns ministros está agendada para às 10 horas da manhã (14.00 em Lisboa). Depois, o presidente deve viajar até São Paulo, onde discursa para manifestantes na avenida Paulista.

No final do dia, se verá se Jair Bolsonaro conseguiu ou não atingir os seus objetivos.

"O apoio das ruas é a cartada de Bolsonaro para virar o jogo e mostrar que ainda tem força política", escreve Jorge Vasconcellos no Correio Braziliense. "Ainda que tenha o respaldo de apoiadores para uma guinada mais radical, Bolsonaro não conta com o aval das Forças Armadas para aventuras autoritárias. E corre o risco de ver aliados importantes abandonarem o barco se insistir no confronto institucional."

Maria João Caetano