Norte de Moçambique. Cabo Delgado. Posto de Awassi. Quinta-feira, 10 de setembro.

As imagens do crime são penosas e inquietantes. Uma moçambicana, abandonada a si própria, nua, tenta fugir. Os tiros sucedem-se. Com o rolar dos segundos (que se arrastam) parece que nunca mais param. Para acabar com a agonia da moribunda, disparam obstinadamente mais umas rajadas. 

Um dos nossos colegas percebeu que a senhora é uma bruxa Al-Shababi. Por isso estava nua sozinha e sem medo. Pedimos à senhora para nos acompanhar. Daí que ela começou a dificultar, não restava mais nada a não ser executá-la."

A maioria do povo desta região é muçulmano. O comunicado, emitido dia 14, pelo Ministério moçambicano da Defesa não anuncia a realização de qualquer inquérito. É uma maneira de implicitamente assumir o crime. As Forças de Defesa e Segurança - as FDS - só não dão tréguas ao povo do norte de Moçambique, que o Estado ignorou durante décadas a fio.

A guerra tem vindo a alastrar na região de Cabo Delgado desde 5 de outubro de 2017.

As FDS raramente oferecem resistência aos "homens de negro" islamistas (chamados os Shabab) - os jovens da seita "dos adeptos da tradição do profeta", que recusam o Estado secular e defendem a instauração da lei islâmica.

Os mercenários russos partiram no ano passado. 

As forças operacionais ao serviço do governo em Cabo Delgado são as da empresa Dyck Advisory Group (DAG), cujo responsável é Lionel Dyck. Está associado ao massacre de civis na zona de Muxamba antes do bombardeamento pela aviação do Zimbabué de "Casa Banana", quartel-general da RENAMO. Foi a 28 de agosto de 1985.   

Nesta terra onde o quotidiano parece um inferno, o papel das forças armadas e da polícia faz mais parte do problema do que da solução.

A mulher sem nome e sem história que foi abatida nunca falou de paz. Só queria que a deixassem viver.

Rui Araújo