O ministro dos Negócios Estrangeiros confirmou à TVI que Portugal vai enviar uma missão composta por 60 militares experientes para Moçambique.

A equipa portuguesa tem como objetivo primário apoiar as forças moçambicanas na "formação de tropas especiais". A missão já estava idealizada desde o início do mês de dezembro, quando o Ministro da Defesa Nacional esteve reunido com o seu homónimo moçambicano, em Maputo.

Augusto Santos Silva acrescentou ainda que estão a ser ultimados os detalhes da missão, que deverá ter início nas próximas semanas.

O planeamento da missão está nos últimos passos e, portanto, nas próximas semanas certamente que a missão começará. (...) Cerca de 60 militares portugueses apoiarão as forças armadas moçambicanas na formação de tropas especiais”, refere o ministro.

Relativamente ao cidadão português que ficou ferido com gravidade depois de ter sido baleado numa perna, na vila de Palma, em Cabo Delgado, Augusto Santos Silva escusou-se a comentários aprofundados por respeito à vítima.

O ministro adiantou apenas que "foi ferido com seriedade", mas já "está a receber tratamento num bom hospital em Joanesburgo", na África do Sul.

Augusto Santos Silva adiantou igualmente que a própria União Europeia já respondeu "positivamente" a um pedido de apoio da ministra dos Negócios Estrangeiros de Moçambique

O apoio europeu também deverá chegar a território moçambicano em "três dimensões: ação humanitária, desenvolvimento e segurança". De acordo com Santos Silva, "a União Europeia já definiu o norte de Moçambique como a sua prioridade número um, em termos de ação humanitária, em 2021”.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros acredita que a ajuda europeia pode chegar a Moçambique nos próximos meses. Contudo, esclarece que neste momento a prioridade central é, sobretudo, a segurança no norte do país.

Espero que, nos próximos meses, uma operação de apoio do lado europeu estejas também no terreno. (...) É preciso não ter ilusões. Neste momento, a dimensão humanitária e de cooperação para o desenvolvimento estão dependentes da estabilização da situação. A questão da segurança, hoje é crítica. Evidentemente, com ataques terroristas indiscriminados e selváticos que irrompem a qualquer momento não é possível garantir condições de segurança mínima para o trabalho dos agentes humanitários e cooperantes. A segurança é hoje crítica. Mas, nós, quer União Europeia quer Portugal, não deixamos de ter projetos humanitários em curso no norte de Moçambique”, evidencia o Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Santos Silva lembra que "Moçambique é hoje uma vítima do terrorismo internacional", à semelhança do que já aconteceu em França, Bélgica ou Estados Unidos. 

Para o ministro, o terrorismo só pode ser combatido através de um esforço global. O governante afasta críticas às autoridades moçambicanas e ao presidente Nyusi e destaca a solidariedade portuguesa para com Moçambique.

Não tenho nenhuma crítica a fazer às autoridades moçambicanas nem ao presidente Nyusi. (…) Apoio Moçambique nesta luta, que é também de todos nós, contra as redes terroristas internacionais. (...) As forças armadas e policias de Moçambique precisam do nosso apoio para combater este inimigo tão terrível e sinistro que é o terrorismo. Tal como Portugal, a França, a Bélgica ou Estados Unidos precisam do apoio de todos. Esta ameaça que enfrentamos é muito difícil de superar e precisamos de nos mobilizar todos contra ela. (...) Moçambique é hoje uma vítima do terrorismo internacional. Não tenho outras palavras que não sejam de solidariedade para com o povo moçambicano e com as autoridades moçambicanas. Não é hora para outra coisa se não exprimir solidariedade, exprimir apoio e materializá-lo”, diz o ministro.

Augusto Santos Silva esclarece ainda o que se sabe para já sobre as milícias que têm causado pânico no norte de Moçambique. Tratam-se de "grupos terroristas, visto que não respeitam nenhuma lei da guerra", que pretendem provocar "deslocações maciças de populações" através de "métodos absolutamente selváticos como decapitações".

Estes elementos armados têm um discurso "inspirado pelo fundamentalismo islâmico" e não são originários do território moçambicano. Por detrás de todo o terror que tem sido alastrado, parece estar o objetivo de dizimar "os projetos de gás no norte de Moçambique".

Santos Silva acredita que estes grupos estejam a ser "financiados através de práticas de extorsão e conluio com redes de tráfico, como droga, madeiras preciosas, pessoas e pirataria".

É este universo terrível, que enfrentamos no norte de Moçambique. Está longe de ser um problema interno. É uma ameaça que vemos noutras regiões do mundo e que é uma ameaça para todos nós. Por isso, é que a comunidade internacional se deve mobilizar e, por isso, é que Portugal, enquanto país com laços muito próximos de Moçambique se mobiliza no plano bilateral, que se mobiliza por si próprio e procura liderar a mobilização da Europa”, clarifica o Ministro dos Negócios Estrangeiros.

Nuno Mandeiro