Os bebés nasceram, estão a crescer, e as 33 mulheres cambojanas vão-se confrontando com ainda mais dificuldades do que as que já suportavam, quando acederam a ser barrigas de aluguer, contratadas por agências para gerarem filhos de casais estrangeiros.

O caso das 33 mulheres detidas em junho do ano passado volta a ser notícia, dadas os problemas criados por uma nova lei, com a qual o governo do país localizado na península da Indochina, no sudeste asiático, pretende acabar com o tráfico de seres humanos.

Com a proibição da gestação de substituição na China - e muitos casais chineses com dinheiro a quererem ter filhos - o mercado das barrigas de aluguer encontrou no Camboja terreno fértil, sobretudo após a prática se ter tornado ilegal na Tailândia e na Índia, em 2015, e no Nepal, em 2016.

Só que, entretanto, a lei cambojana também mudou. E as tais 33 mulheres foram apanhadas em plena gestação, já com a penalização em vigor: arriscam-se a 20 anos de prisão, caso entreguem os bebés aos pais biológicos, de forma a receberem o dinheiro. Para evitar a cadeia, têm de criar as crianças que pariram até aos 18 anos.

"Se eu soubesse que era ilegal"

O caso das 33 mulheres, todas barrigas de aluguer de clientes estrangeiros, levou a cadeia britânica BBC a procurar algumas, meses depois de terem sido presas perto de Phnom Penh, a capital do Camboja.

Thilda - nome fictício de uma das mulheres - era das poucas que estava grávida pela primeira vez. Casada, aceitou ser barriga de aluguer de um casal chinês para ganhar 10 mil dólares (8,8 mil euros) e poder ter uma família sua com o marido, cujo baixos rendimentos não lhes permitiam ter filhos seus.

Quando um óvulo fecundado de um casal chinês foi implantado no seu útero, no final de 2017, a gravidez de aluguer já tinha sido proibida no Camboja, havia mais de um ano. Mas, o controlo legal era pouco ativo.

Se eu soubesse que era ilegal, eu nunca teria feito isso", afirma Thilda à BBC.

Segundo contou Thilda, já grávida, foi levada para uma residência num bairro caro de Phnom Penh, que partilhou com as outras 32 mulheres, distribuindo-se cinco por cada quarto.

Os quartos eram tão pequenos que não havia espaço para andar", relata Thida.

Em junho de 2018, a polícia encontrou o local, prendeu os funcionários da empresa de barrigas de aluguer e também as mulheres grávidas.

Quatro meses depois da detenção, em outubro de 2018, Thilda começou a sentir contrações. Foi levada para o hospital e bebé nasceu.

Ele é meu primeiro filho, amo-o realmente muito. Sinto-me mal que ele tenha vindo ao mundo e tenha ficado detido no hospital da polícia por meses", diz ela.

Pais chineses

Três dias após o nascimento, os pais biológicos do bebé chegaram ao Camboja e puderam encontrar-se com a parturiente. "Ele (o pai chinês) segurou o bebé e chorou, como se estivesse de coração partido. Senti muita pena dele", relata Thida.

O homem chinês passou 20 minutos com seu filho biológico. O encontro foi tão rápido que o casal e Thilda não chegaram a trocar números de telefone. E nunca mais se viram.

Dois meses depois, Thida e o bebé foram autorizados a deixar o hospital da polícia. Mas, com a condição de que não poderia entregar a criança aos pais biológicos que contrataram o serviço de barriga de aluguer. Ela terá de criar a criança até os 18 anos, caso contrário, pode ter de cumprir uma pena de 20 anos na cadeia.

As outras mulheres grávidas detidas na mesma operação enfrentam a mesma imposição. E todas sabem que serão vigiadas constantemente, para garantir que mantêm as crianças.

"Já não o podem tirar de mim"

Thilda já voltou para casa com o bebé, de que gosta como se fosse seu filho biológico, tal como o marido e restante família, segundo conta à BBC.

Sre-Oun, a sua sogra, também se mostra profundamente ligada à criança. "Não me importo que não tenha laços de sangue com a nossa família. Agora, é impossível entregá-lo. É tão lindo, mesmo quando está chorando para brincarem com ele".

Só que o nascimento da criança representa um difícil problema financeiro para o casal, que pretendia ganhar dinheiro para poder constituir família. Ao não o ter entregado ao casal chinês, Thida nunca recebeu os 10 mil dólares acordados. E o marido da cambojana ganha apenas o equivalente a 220 euros mensais. Pouco, muito pouco, para criar um filho.

Thilda só pretende contar ao filho como ele foi concebido, após completar 18 anos. Mas, admite que o casal chinês possa voltar antes disso: "Eu sei que eles também amam o bebé. Mas, agora, já não o podem tirar de mim".

Vigilância ao tráfico

À BBC, Chou Bun Eng, vice-ministra do Interior do Camboja, explica que o país proibiu a gestação de aluguer comercial por ser uma forma de tráfico, em que as crianças são vítimas. Porque as mães de aluguer, na maioria das vezes, não sabem quem pagou pela gestação, apenas são contactadas por uma agência.

Eles negociam o preço no útero. Não se importam com as crianças, que são tratadas como bens. Se nascem com algum tipo de deficiência, o preço cai. Vão abandoná-las e não vão assumir nenhuma responsabilidade. E às vezes a criança é vendida a outra pessoa", frisa Chou Bun Eng.

Se quiséssemos prendê-los (os pais biológicos), poderíamos tê-lo feito há muito tempo. Mas só o faremos, se tentarem levar as crianças para fora do país", afirma a governante, que salienta nada haver contra a entrega de apoio financeiro às mães de aluguer, até que as crianças completem os 18 anos. E aí escolham se querem ficar no Camboja ou juntar-se aos pais biológicos no estrangeiro.