Espanha entra na sexta-feira em campanha eleitoral para as eleições de 10 de novembro, que os socialistas do PSOE deverão voltar a ganhar, mas sem maioria absoluta ou uma solução para formar um Governo estável.

A questão catalã deverá dominar os oito dias de campanha oficial, mas os líderes partidários já estão a tentar captar o voto dos eleitores há várias semanas, desde que, em finais de setembro, o rei de Espanha constatou a falta de apoios para investir um executivo minoritário socialista.

Todos os analistas concordam que, apesar de nenhum partido ou bloco ter a maioria, desta vez terá de ser encontrada uma solução para dar posse a um Governo estável, que satisfaça os eleitores, cansados por serem chamados às urnas pela quarta vez nos últimos quatro anos.

A abstenção deverá aumentar e um novo impasse na governabilidade do país é uma situação insustentável” disse à Lusa o professor de Comunicação e Política Internacional na Universidade Europeia de Madrid, José Maria Peredo Pombo, acrescentando estar “convencido que, desta vez, o PP e outros partidos irão abster-se, se for necessário”, para permitir a formação de um Governo minoritário socialista.

O Partido Popular (PP, direita) faria pelo Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) o mesmo que os socialistas fizeram em 2016, quando permitiram um governo minoritário de direita liderado por Mariano Rajoy.

As últimas sondagens indicam que as intenções de voto no PSOE se mantêm nos 27-28%, um apoio idêntico ao das eleições legislativas anteriores, de 28 de abril último.

Depois de, no início de outubro, os socialistas estarem a subir na preferência dos espanhóis, a situação voltou a complicar-se, com os votantes desconfiados da falta de capacidade do partido liderado pelo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, para chegar a um acordo, que parecia possível, para formar Governo, primeiro em julho e depois em setembro.

O PSOE também está a sofrer com a reação violenta das forças independentistas, assim que foi conhecido a sentença, em meados de outubro, de 12 dirigentes separatista responsáveis pela tentativa de autodeterminação ilegal de maio de 2017.

O PSOE não quer saber dos votos dos partidos catalães independentistas que aceitou para subir ao poder no ano passado, mas que agora, se aceitasse, significaria perder votos a favor da extrema-direita”, segundo Peredo Pombo.

Finalmente, os socialistas parecem não estar a beneficiar, como se esperava, do apoio popular à transferência, há uma semana, do corpo do ex-ditador Francisco Franco do mausoléu do Vale dos Caídos para um cemitério, com menos exposição, nos arredores de Madrid.

Por outro lado, o PP consegue subir nas sondagens para cerca de 20%, depois de ter descido até aos 16,7% em abril, a sua votação mais baixa de sempre.

PSOE e PP voltam a afirmar-se como as formações mais importantes do sistrema partidário espanhol, depois de se ter receado que se tornassem irrelevantes com o aparecimento de novos partidos, nomeadamente o Cidadãos (direita liberal) e o Podemos (extrema-esquerda populista).

O PP consegue inverter a sua descida, muito à custa do Cidadãos que, depois de quase ter ultrapassado os populares em abril, desce agora para menos de 9% nas intenções de voto, com os eleitores a não perdoarem ter-se aliado à direita e voltado as costas ao PSOE com quem poderia ter formado Governo.

Os eleitores vão castigar o Cidadãos por o partido não ter utilizado os seus deputados para dar estabilidade governativa, e ter tentado concorrer com o PP ao lugar de principal partido da oposição de direita”, disse o professor universitário.

A coligação Unidas Podemos (que inclui o Podemos) está mostrar uma tendência para descer dos mais de 14% obtidos, empurrado pelo aparecimento do Mais País de Ínigo Errejón, um ex-militante que saiu zangado com Pablo Iglesias, líder do Podemos, partido que tinha ajudado a fundar.

O Mais País também estaria a “roubar” alguns votos aos socialistas, mas as sondagens apenas lhe dão cerca de 3%, uma votação muito aquém das expetativas iniciais.

O Vox (extrema-direita), que tinha uma tendência descendente a partir do pico de mais de 10% obtidos em abril, teve um impulso nas sondagens dos últimos dias, para mais de 12% dos votos, capitalizando a sua defesa de uma abordagem menos conciliadora para o problema catalão e também com a exumação de Franco.

Nas legislativas de 28 de abril, o PSOE obteve 123 deputados (28,68% dos votos), o PP 66 (16,70%), o Cidadãos 57 (15,86%), a coligação Unidas Podemos 42 (14,31%) e o Vox 24 (10,26%), tendo os restantes deputados sido eleitos em listas de formações regionais, o que inclui partidos nacionalistas e independentistas.

Para ser investido, o Congresso dos Deputados (câmara baixa das Cortes Gerais espanholas) tem de votar o novo executivo com mais de metade dos deputados (175 num total de 350) numa primeira votação ou por maioria simples numa segunda votação a realizar dois depois da primeira.