O gabinete do vereador brasileiro Carlos Bolsonaro, filho do presidente, Jair Bolsonaro, pagou cerca de sete milhões de reais (1,12 milhões de euros no câmbio atual) a 11 alegados "funcionários fantasma", segundo um relatório obtido pelo GloboNews.

O valor consta num ofício anexado à investigação do Ministério Público contra Carlos Bolsonaro, por suspeitas da prática de peculato.

Os procuradores encontraram indícios de que a prática se tenha estabelecido já no primeiro mandato de Carlos Bolsonaro na câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, em 2001.

Em causa está a alegada contratação de "funcionários fantasma" e da prática de “rachadinha” – um esquema em que funcionários devolvem parte dos seus salários – no gabinete de Carlos Bolsonaro, e que são investigados desde setembro do ano passado.

Carlos Bolsonaro já reagiu através do Facebook, numa publicação em que pergunta como "como pode a Globo ter acesso a segredo de justiça antes de todos?".

A. Repito SEMPRE: como pode a Globo ter acesso a SEGREDO DE JUSTIÇA antes de todos? Os novos “problemas” são:...

Publicado por Carlos Bolsonaro em  Sexta-feira, 4 de setembro de 2020

No relatório a que o canal televisivo GloboNews teve acesso, estão citados funcionários que moram em outros municípios ou estados, o que inviabilizava o cumprimento das funções, segundo a investigação.

Uma das contratadas foi Diva da Cruz Martins, de 72 anos, moradora de Nova Iguaçu, a cerca de 40 quilómetros do centro do Rio de Janeiro, e que não soube explicar aos procuradores qual a denominação do seu argo.

“Eu não encontrava com ninguém. Eu ia lá e regressava, não sei nem quem lá trabalhava. Não sei nem quem era funcionário, e quem não era”, disse a ex-funcionária, citada pela reportagem.

Em depoimento, disse que o “seu trabalho” era “comparecer à Câmara de Vereadores uma vez por mês, buscar uns folhetos e distribuir às pessoas no centro de Nova Iguaçu”, serviço pelo qual supostamente auferia três mil reais (478 euros).

Outro exemplo entre os alegados "funcionários fantasma" investigados é Guilherme Hudson, que ao longo de 10 anos recebeu 1,5 milhões de reais (240 mil euros), o salário mais alto entre os suspeitos.

Em depoimento, Hudson disse que sua função era de assessoria jurídica e que fazia análise da constitucionalidade de projetos de lei apresentados. Contudo, disse ter "trocado pouquíssimos e-mails" com o seu chefe, Carlos Bolsonaro, em 10 anos e que "não tem nenhum documento guardado" do tempo em que foi funcionário.

Também o militar da reserva Edir Barbosa Goes, que ainda é assessor de Carlos Bolsonaro, recebeu quase 1,5 milhões de reais ao longo de 11 anos para distribuir panfletos.

As entregas dos folhetos informativos, sobre as atividades do vereador, eram feitas de porta em porta e também em filas de bancos, segundo explicou Goes em depoimento.

Desses 11 funcionários investigados, apenas cincos constam na lista de controlo de entrega de crachá - que identifica os funcionários - fornecida pela Câmara dos Vereadores ao Ministério Público.

/ AG