Barcelona acordou, pela terceira noite consecutiva, com cheiro a queimado e um rasto de destruição nas várias ruas do centro da cidade. Durante mais de cinco horas, arderam dezenas de carros e a polícia foi atacada com cocktails molotov, ácido, garradas e petardos. Foram registados 45 incêndios.

Aos 51 detidos desde segunda-feira, juntam-se mais 46 da última noite. Ou seja, após três dias consecutivos de protestos, são já mais de 90 o número de detenções por distúrbios públicos e ataques contra agentes de autoridade.

Houve ainda registo de 97 feridos, entre eles, 36 polícias. Perto de 30 pessoas foram transportadas para o hospital e dois manifestantes foram atropelados pela polícia. De acordo com o El País, o número de manifestantes na rua era menor, mas, em contrapartida, agiram com mais força, coordenação e agressividade. 

A violência rebentou a partir das 21:00 (horas locais, menos uma hora em Lisboa) quando os ânimos da concentração organizada pelo Comité de Defesa da República (Comités de Defensa de la República - CDR), que reuniu mais de 22 mil pessoas e que tinha como pressuposto ser pacífica, começaram a exaltar-se.

Alguns dos manifestantes seguiram para o ministério regional do interior, tentaram desmontar o gradeamento que protegia o edifício, atiraram papel higiénico e exigiram a demissão do conselheiro Miquel Buch. A polícia tentou desmobilizar os manifestantes para a praça onde estava a decorrer a concentração do CDR e foi aqui que começaram os confrontos. Removeram andaimes de prédios em construção para criarem barricadas e chegaram mesmo a lançar pirotecnia contra um helicóptero da polícia.

Os moradores, bares e hotéis foram fechando as portas e as janelas à medida que os protestos se iam intensificando. Um dos moradores contou à enviada especial da TVI a Barcelona, Margarida Martins, que quando saiu do trabalho não conseguiu entrar em casa porque toda a rua estava em chamas.

A repórter da TVI deu-nos conta de que nas primeiras horas da manhã, as ruas de Barcelona já estavam a ser limpas dos restos dos carros, motas e contentores que arderam.

Governo espanhol acredita que violência é organizada e coordenada

A porta-voz do governo espanhol, Isabel Celáa, considerou que os elementos violentos envolvidos nos confrontos na Catalunha “não são infiltrados” como disse o presidente da Generalitat, mas sim “jovens catalães” devidamente coordenados.

São jovens catalães coordenados. O que estão a fazer não se improvisa e os apoios que eventualmente estão a receber são alvo de investigação, neste momento”, disse a porta-voz do governo em entrevista à Radio Euskadi.

Celáa acrescentou que a declaração institucional de Torra sobre os confrontos “não convenceu totalmente o Executivo”, destacando que se verificaram condenações “mais claras” por parte de outros protagonistas políticos, como a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC) e o próprio conselheiro do Interior do governo autónomo catalão, Miquel Buch.

A declaração de Torra teve muitas nuances e modulações. Falou de ‘infiltrados’, mas todos vimos que são jovens catalães”, disse.

 

“A maior esquizofrenia vem de quem impulsionou a saída às ruas (referindo-se a Torra) e que depois quer que o ‘tigre’ regresse à jaula. Não é assim tão fácil”, ironizou a porta-voz.

Isabel Celáa disse que neste momento está a ser investigado “quem está por detrás” desses grupos “minoritários, mas coordenados” tendo garantido que vão ser julgados e castigados de acordo com a lei.

Já esta quinta-feira, o presidente do governo regional da Catalunha, Quim Torra, anunciou que “será preciso investigar até ao fim para se ficar a saber quem está por detrás dos incidentes” que ocorrem nas ruas da Catalunha depois de ter sido conhecida a sentença sobre os implicados no "Processo".

Na quarta-feira, Torra afirmou que os responsáveis pelos desacatos são “infiltrados”, mas esta quinta-feira disse que se “há provocadores e agitadores que querem alterar o rumo das manifestações pacíficas é preciso isolá-los e afastá-los”.

Mesmo assim, Torra acrescentou que ninguém deve “criminalizar a desobediência civil” e instou o conselheiro do Interior do governo local a “investigar qualquer situação irregular que tenha acontecido”.

Torra disse também que deve ser feita a “autocrítica” sobre as cargas da polícia regional (Mossos d’Esquadra).

O Tribunal Supremo espanhol condenou na segunda-feira os principais dirigentes políticos envolvidos na tentativa de independência da Catalunha a penas que vão até um máximo de 13 anos de prisão, no caso do ex-vice-presidente do governo catalão.

Assim que foi conhecida a sentença, uma série de grupos de independentistas iniciaram movimentos de protesto em todo o território da comunidade autónoma espanhola mais rica.

Segundo dados do ministro do Interior espanhol, Fernando Grande-Marlaska, em três dias de protestos já foram realizadas 97 detenções e 194 polícias regionais e nacionais ficaram feridos. Quanto ao número de civis feridos, o governo espanhol não fez qualquer balanço.