Jean-Louis Georgelin, o general do exército francês que está à frente da reconstrução da catedral de Notre-Dame, garante que ainda é possível cumprir a promessa de Emmanuel Macron e devolvê-la a Paris em 2024. Mas, um ano depois do incêndio que consumiu Notre-Dame - o primeiro aniversário do incêndio assinala-se quarta-feira, 15 de abril - a tarefa parece cada vez mais difícil e o próprio Georgelin admite que vai ser preciso "arregaçar as mangas". 

Em entrevista à revista L'Express, citada pelo The Guardian, o general insiste que os atrasos inesperados não conduzirão, necessariamente, a um atraso dos trabalhos. "Obviamente, a área em torno da catedral estará longe de terminada e talvez o pináculo não esteja completo, mas a catedral voltará a ser um local de culto e esse é o nosso objetivo", explicou.

A data de reabertura da catedral foi estabelecida pelas autoridades francesas para 16 de abril de 2024, cinco anos após o incêndio.

Mas os artesãos que tinham vindo de todo o país para trabalhar na restauração do monumento foram mandados para casa devido às restrições para combater a pandemia de Covid-19. No verão passado, os trabalhos já tinham sido interrompidos devido à presença de chumbo. E a operação para retirar os 40.000 tubos dos andaimes danificados pelo incêndio, que caíram com o pináculo da catedral, deveria ter começado em março mas foi adiada devido ao confinamento obrigatório. 

Georgelin diz estar à procura de formas alternativas para recomeçar a reconstrução, mesmo que parcialmente, mas há uma resposta que lhe falta: o que fazer com o pináculo, conhecido como La Flèche (a flecha) que foi acrescentado ao edifício original pelo arquiteto francês Viollet-le-Duc no século XIX. "Têm de nos deixar trabalhar e não nos deixarem ser apanhados por controvérsias", pediu. O debate sobre o pináculo divide-se entre fações opostas: aqueles que querem que seja reconstruído tal e qual como era antes do incêndio, e os que pedem que integre um toque mais contemporâneo, como sugeriu o próprio Macron. "Quanto mais depressa for tomada uma decisão sobre o pináculo, mais rapidamente consequiremos concentrar-nos na reconstrução. É importante que os objetivos sejam definidos", disse o general. 

Veja também:

Recorde-se que a catedral de Notre-Dame estava em obras quando começou o incêndio que acabaria por destruí-la quase totalmente, apesar de a estrutura ter ficado de pé. O edifício principal começou a ser construído no século XII e foi sendo acrescentado e alterado ao longo dos séculos: a catedral foi edificada em 1163, iniciou a função religiosa em 1182 e os trabalhos de construção prosseguiram até 1345.

A 15 de abril de 2019, aquele que era um dos monumentos mais visitados de todo o mundo começou a arder às 18:43, hora local (menos uma hora em Lisboa). O incêndio começou na base do pináculo de 93 metros de altura, feito de madeira e chumbo. Este acabaria por  ruir pouco antes das oito da noite. Cerca de 500 bombeiros combateram as chamas, que só foram dominadas pelas 9:30 do dia seguinte. Dois terços do telhado ficaram destruídos, bem como "a floresta", a estrutura em madeira que suportava a  cobertura da catedral, parte do teto colapsou e cerca de 400  toneladas de chumbo, do telhado e do pináculo, ficaram em pó, que depois se dispersou com o vento, contaminando o espaço em redor. 

O presidente e o primeiro-ministro franceses anunciaram então a abertura de um concurso internacional para a reconstrução de parte da catedral, o que motivou inúmeros arquitetos a divulgarem as suas ideias. Um pináculo em vidro, por exemplo, foi sugerido pelo britânico Norman Foster. E, dando continuidade ao vidro, o arquiteto Nicolas Abdelkader, do estúdio francês NAB, propôs um telhado de vidro que seria utilizado como estufa, transformando a o pináculo numa torre de colmeias. E o estúdio de arquitetura italiano Fuksas propôs uma telhado e uma "flecha" também de vidro, como uma clarabóia, que seriam iluminados à noite. Houve mesmo quem avançasse com a ideia de um telhado de vitrais. Os projetos são inúmeros, mas têm cada vez menos tempo para serem concretizados, apesar da confiança do general Georgelin.

Bárbara Cruz