Os Estados Unidos acusaram, esta sexta-feira, piratas informáticos chineses de executarem uma ampla campanha, ao serviço da principal agência de inteligência de Pequim, para usurpar segredos comerciais e informação de agências do Governo e corporações norte-americanas.

Trata-se da mais recente acusação numa série de casos criminais abertos pelo Departamento de Justiça norte-americano envolvendo ciberespionagem chinesa, e coincide com uma acusação da Grã-Bretanha contra o ministério chinês de Segurança do Estado, por roubo de segredos comerciais.

Os dois alegados piratas informáticos são acusados de violarem redes de computadores nos EUA, desde 2006, em indústrias como aviação e espaço, finanças, biotecnologia, óleo e gás, ou farmacêutica.

Os procuradores do Departamento de Justiça afirmaram que os 'hackers' obtiveram também os nomes, números de segurança social e outras informações pessoais de mais de 100 mil membros da marinha norte-americana.

Os acusados terão infiltrado empresas de computação em nuvem e outros fornecedores de tecnologia para obter a informação dos respetivos clientes, incluindo da Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço (NASA, na sigla em inglês) e 45 empresas do setor tecnológico.

Os procuradores identificaram os 'hackers', que não foram colocados sob custódia da polícia, como Zhu Hua e Zhang Shilong.

Nos últimos sete anos, mais de 90% dos casos de espionagem económica abertos pelo Departamento de Justiça norte-americano estão relacionados com a China, segundo o Procurador-Geral Adjunto dos EUA, Rod Rosenstein, enquanto mais de dois terços dos roubos de segredos comerciais estão ligados a Pequim.

"Os atores patrocinados pelo Estado chinês são os mais ativos em espionagem económica", afirmou o diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI) norte-americano, Chris Wray, no anúncio do caso, publicado no portal oficial do organismo.

"Damos as boas-vindas a uma competição justa, mas não vamos tolerar pirataria ilegal, roubo ou fraude", apontou.

Na mesma nota, Wray disse que o "objetivo da China, colocando de forma simples, é substituir os EUA como a superpotência mundial" e que Pequim "está a usar métodos ilegais para chegar lá".

Também os secretários de Estado e da Segurança Interna dos EUA, Mike Pompeo e Kirstjen Nielsen, respetivamente, emitiram um comunicado conjunto a acusar a China de renegar ao compromisso alcançado em 2015 de que não iria procurar obter vantagem competitiva através do roubo de segredos comerciais, propriedade intelectual e informação comercial confidencial.

Na semana passada, funcionários norte-americanos declararam no Congresso que a contínua pirataria levada a cabo por Pequim fez desse compromisso, feito pelo Presidente chinês, Xi Jinping, em 2015, uma "fantochada".

"Nós queremos que a China cesse as suas atividades ilegais no ciberespaço e honre o seu compromisso para com a comunidade internacional, mas as evidências sugerem que a China não pretende cumprir com as suas promessas", afirmou Rod Rosenstein.

Nos últimos meses, o Departamento de Justiça dos EUA abriu outros casos envolvendo funcionários dos serviços de inteligência e piratas informáticos chineses.

Em outubro passado, pela primeira vez, um funcionário do ministério chinês de Segurança do Estado foi extraditado para os EUA para ser julgado.

Entretanto, um jornal oficial do Partido Comunista Chinês afirmou hoje que o caso envolvendo Zhu Hua e Zhang Shilong "serve claramente para ilustrar a escalada de ataques contra a China, realizados pelos EUA, através de mecanismos legais".

Em editorial, o Global Times lembrou que a "acusação é feita a dois indivíduos específicos", mas que o Departamento de Justiça sugere que o caso é "contra a China".

"As falácias lógicas embrulhadas nas alegações não impedem que quem está de fora pense que se trata de nada mais do que um esforço cuidadosamente construído, motivado por propósitos políticos", acusou.

O jornal escreveu que "o preconceito está tão enraizado numa arrogância cultural", que "algumas elites norte-americanas estão agora convencidas de que o rápido crescimento da China nunca teria acontecido sem primeiro usurpar tecnologia norte-americana".

NO texto, acrescenta-se que "se as instituição norte-americanas tivessem sistemas cibernéticos tão frágeis, então não existiria lá nada de valor para usurpar".