Hong Kong procurou esta sexta-feira tranquilizar os turistas depois de dezenas de países emitirem alertas de segurança relacionados com os protestos pró-democracia, que estão a causar perdas na indústria de viagens da região administrativa especial chinesa.

Numa nota divulgada por um porta-voz do Governo, admite-se que os recentes bloqueios e confrontos entre a polícia e os manifestantes causaram inconvenientes, mas garante-se que se confinaram a áreas limitadas.

No comunicado, sublinha-se que o Governo e a indústria de viagens estão a trabalhar para minimizar as interrupções e "todos estão prontos para receber e ajudar os visitantes em Hong Kong a qualquer momento".

Na quinta-feira, o Governo informou que a chegada de turistas caiu 26% no final do mês passado em relação ao mesmo período de 2018 e que continua a cair em agosto, sendo que o setor de viagens representa 4,5% da economia da cidade.

O impacto pode ser tão mau ou pior do que em 2003, aquando do surto da Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS), afirmou o presidente do Conselho da Indústria de Viagens, Jason Wong Chun-tat, segundo o jornal South China Morning Post.

Wong disse que os cancelamentos podem reduzir em 40% as receitas de hotéis em agosto, comparativamente ao mesmo período do ano passado.

O secretário de Comércio de Hong Kong, Edward Yau Tang-wah, disse que 22 países e regiões, incluindo os Estados Unidos, emitiram alertas de viagem para Hong Kong.

Mais protestos estão agendados para este fim de semana, inclusive no aeroporto internacional da cidade, um dos mais movimentados do mundo, onde dezenas de voos foram cancelados na segunda-feira, quando os controladores de tráfego aéreo se associaram à greve geral que paralisou várias zonas da cidade.

A polícia de Hong Kong informou que 592 pessoas foram presas nos protestos desde 09 de junho, com idades entre 13 e 76 anos, e enfrentam agora acusações que, no limite, podem resultar em penas de prisão até dez anos.

A polícia disparou gás lacrimogéneo e balas de borracha contra os manifestantes, com estes a responderem com varas de metal, arremessos de pedras e tijolos, bem como com bombas incendiárias de fabrico caseiro.

Em várias ocasiões, os manifestantes foram atacados por pessoas desconhecidas que se acredita estarem ligadas a grupos do crime organizado, o que motivou críticas à inação da polícia.

A liderança do Partido Comunista em Pequim até agora não interferiu visivelmente na situação, embora em editoriais e comentários públicos tenha condenado manifestantes e organizadores do protesto, classificando-os de criminosos e "radicais violentos", alegando que foram inflamados por políticos de Israel, EUA e Taiwan, entre outros.

Na quinta-feira, a representação do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês em Hong Kong emitiu um protesto formal sobre uma reunião entre funcionários consulares norte-americanos na cidade e figuras da oposição, entre as quais o ativista Joshua Wong.

A China exigiu que os EUA explicassem o objetivo da reunião e "parassem imediatamente de interferir nos assuntos de Hong Kong".

Wong foi libertado em junho depois de cumprir uma sentença de dois meses por desobediência relacionada com o envolvimento nos protestos em 2014, durante os quais se defendeu um processo eleitoral mais democrático no território administrado pela China, naquela que ficou conhecida como a "Revolução dos Guarda-Chuvas".

O Departamento de Estado norte-americano defendeu as ações da diplomata que liderou as reuniões e acusou o Governo chinês de "comportamento agressivo", por supostamente divulgar a fotografia da norte-americana e informações pessoais sobre a família.

Hong Kong vive há cerca de dois meses um clima de contestação social desencadeado pela apresentação de uma proposta de alteração à lei da extradição, que permitiria ao Governo e aos tribunais da região administrativa especial a extradição de suspeitos de crimes para jurisdições sem acordos prévios, como é o caso da China continental.

A proposta foi, entretanto, suspensa, mas as manifestações generalizaram-se e denunciam agora aquilo que os manifestantes afirmam ser uma "erosão das liberdades" na antiga colónia britânica.