Mais de um ano após a primeira morte provocada pela covid-19, dez investigadores e especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) chegam à China para investigar a origem do novo coronavírus esta quinta-feira, uma semana depois do inicialmente previsto.

A missão tem como principal objetivo viajar até Wuhan, onde foram notificados os primeiros casos de covid-19, no final de 2019, e além da OMS integra especialistas da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e da Organização Mundial de Saúde Animal.

Cientistas dos Estados Unidos, Japão, Rússia, Reino Unido, Holanda, Dinamarca, Austrália, Vietname, Alemanha e Qatar farão ainda parte desta missão.

Em fevereiro e julho de 2020, duas equipas de especialistas visitaram a China com o mesmo objetivo da atual missão, mas poucos pormenores foram divulgados sobre a origem de um vírus que já provocou quase dois milhões de mortes entre as cerca de 90 milhões de pessoas que ficaram contagiadas pelos SARS-CoV-2 em todo o mundo.

A visita da missão à China, em particular a Wuhan, foi confirmada segunda-feira pelas autoridades de Pequim, depois de, na semana passada, ter sido anulada à última hora por falta das autorizações necessárias por parte de Pequim, tendo agora as autoridades chinesas dado luz verde.

Na sequência do sucedido, e numa rara demonstração de tensões entre a OMS e o Governo chinês, o diretor-geral da agência, Tedros Adanon Ghebreyesus, disse então estar “muito dececionado” com os obstáculos colocados pelas autoridades chinesas à chegada dos especialistas, para uma missão que sofreu meses de atrasos e tem estado rodeada por secretismo de ambas as partes.

Na rede social Twitter, congratulou-se agora com o anúncio feito hoje por Pequim, e disse que a equipa quer “trabalhar com especialistas chineses” no âmbito de uma “missão crucial” para identificar a origem do vírus e a “via de transmissão para a população humana”.

Nos últimos meses, Pequim reagiu mal aos pedidos de uma investigação independente, tendo mesmo aplicado sanções comerciais à Austrália, que insistiu nesse sentido em várias ocasiões.

As autoridades chinesas, apesar de confirmarem a visita da missão, que está previsto durar entre cinco a seis semanas, não adiantaram quaisquer pormenores sobre o programa, devendo os especialistas cumprir uma quarentena logo que cheguem a território chinês.

Os sucessivos atrasos impostos pela China para aceitar uma investigação independente implicam que os primeiros vestígios da infeção sejam bastante complicados de encontrar, sobretudo em Wuhan, cidade que reportou a primeira morte associada ao novo coronavírus a 11 de janeiro de 2020.

Em Wuhan, como noutras partes da China, a pandemia esteve amplamente sob controlo na primavera e o número nacional de mortos permaneceu oficialmente em 4.634 desde meados de maio. 

A China tem sido criticada internacionalmente pela reação inicial à epidemia, tendo vários médicos de Wuhan que evocaram a existência do vírus sido acusados pela polícia de “propagarem rumores”, enquanto um jornalista independente que cobria então a quarentena na cidade sido condenado a quatro anos de prisão em fins de dezembro.

Mesmo o nome da primeira vítima mortal da covid-19 continua por conhecer, sabendo-se unicamente tratar-se de um homem de 61 anos que frequentava o mercado Wuhan, considerado como o primeiro grande foco da pandemia e que foi encerrado a 01 de janeiro de 2020, mantendo-se, de resto, vedado ainda hoje, com as autoridades chinesas a não permitirem a entrada a especialistas independentes.

Mais a norte, o país está a confrontar-se nos últimos dias com um ressurgimento epidémico limitado em Hubei, a província em redor de Pequim, com mais de uma centena de contaminações em 24 horas, o número mais elevado a nível nacional desde julho de 2020.

Dezoito milhões de habitantes das duas vastas regiões estão proibidos de sair dos limites das respetivas municipalidades.

/ NM