O caos vivido nos campos de refugiados na Grécia ganhou outra dimensão esta semana após a descoberta do corpo de um jovem natural da Somália. Morreu sozinho numa tenda e apenas foi encontrado 12 horas após ter perdido a vida e rodeado de ratos.

O alerta para o corpo foi dado por requerentes de Asilo instalados no campo da ilha grega de Chios que falam num horror tremendo ao observarem a vítima rodeada por ratazanas, ratos e outros animais roedores.

O caso ocorreu na segunda-feira, dia da Páscoa ortodoxa e feriado nacional na Grécia. Acredita-se que o jovem de 28 anos, que não foi identificado pelas autoridades gregas, tenha morrido de causas naturais.

Através de um curto comunicado, as autoridades que tutelam a pasta da migração grego descartaram a existência de um crime e disseram que o "infeliz" foi encontrado por um médico militar com mordidas na orelha e na mão. “A causa exata da morte será conhecida na autópsia que será realizada.”

O jovem vindo da Somália, como as centenas de milhares de sírios que o precederam, deixou um país vincadamente marcado pela violência e pela pobreza. Quase seis anos após o início da crise de refugiados na Europa, o fim trágico do que teria sido uma viagem longa e arriscada voltou a evidenciar as condições deploráveis ​​dos “centros de acolhimento” insulares na Grécia.

Para os trabalhadores humanitários em Lesbos, Chios, Samos, Leros e Kos - as cinco ilhas do Mar Egeu na linha de frente dos fluxos migratórios- o incidente oferece mais uma prova do fracasso das políticas de contenção seguidas pelos líderes da UE nas fronteiras de um continente aparentemente desesperado para manter refugiados fora do território.

O diretor exucutivo da ONG humanitária Intersos fala mesmo num ponto de rotura, que rapidamente pode ser transformado num ponto de não retorno. 

Há apenas uma verdade: os campos nas ilhas gregas são sinónimos de sobrelotação e condições desumanas”, afirma Apostolos Veizis ao jornal The Guardian, sustentando que “as pessoas estão diariamente expostas a ratos, lixo e violência”.

O especialista refere ainda que, nas unidades de saúde das ilhas, as crianças são frequentemente admitidas com sinais de picadas de rato. “É vergonhoso e terrível que eles tenham que viver em condições tão vergonhosas quando realmente isto pode ser combatido”. 

As chegadas de refugiados e requerentes de asilo à Europa caíram drasticamente no ano passado. Estima-se que 11.472 homens, mulheres e crianças estão agora registados nos serviços do Mar Egeu, de acordo com o Ministério de Proteção ao Cidadão da Grécia. 

O campo de Chios, que hospedava 5.000 pessoas em dezembro de 2019, agora acomoda cerca de um quinto desse número, resultado de políticas de migração rígidas que incluem o “descongestionamento” das ilhas.