A Cimeira do Clima terminou com um acordo sobre o Pacto Climático de Glasgow, após uma maratona de negociações, marcada pela abordagem aos combustíveis fósseis e o seu papel na crise climática.

O texto final revisto só conseguiu luz verde depois de prolongadas negociações, marcadas por profundas divisões em questões-chave, incluindo as metas de extinção dos combustíveis fósseis.

Já no plenário de encerramento, a Índia apresentou uma proposta de última hora que visou suavizar a meta de colocar um fim ao uso de carvão. A proposta foi feita pelo ministro do Ambiente indiano, Bhupender Yadav, que no plenário de encerramento pediu para mudar a formulação de um parágrafo em que se defendia o fim progressivo do uso de carvão para produção de energia sem medidas de redução de emissões.

Mais especificamente, a Índia quis substituir o fim progressivo - "phase-out" por uma redução progressiva - "phase down" -, uma proposta que foi aceite com manifestações de desagrado de várias delegações, como a Suíça, e a União Europeia, e ainda de países mais vulneráveis às alterações climáticas.

No final, esta versão revista foi aprovada com alterações feitas oralmente, encerrando os trabalhos. Contudo, esta cedência de último minuto levou a um pedido de desculpa emocionado do presidente da Cimeira do Clima, Alok Sharma.

Peço desculpa pela forma como este processo foi desenvolvido. Peço imensa desculpa. Também percebo a profunda desilusão. Mas também é crucial que protejamos este acordo”, afirmou, na sessão final, parando por momentos a intervenção para se recompor.

A aprovação surge por entre críticas de vários países e instituições, nomeadamente da União Europeia, representada pelo vice-presidente da Comissão, Frans Timmermans.

 

 

 

Sabemos que quanto mais tempo levamos para nos livrarmos do carvão, mais peso se coloca sobre o ambiente e sobre a economia. O carvão simplesmente não é uma proposta inteligente, é por isso que queremos acelerar a sua extinção", afirmou, sublinhando que a União gostaria de ter ido "mais além" com o acordo.

À alteração de última hora, adotaram críticas também países como a Suíça, México e Liechtenstein, que descreveu as mudanças no acordo como "um comprimido difícil de engolir".

Mas foi a enviada especial para o Ambiente das Ilhas Marshall, Tina Stege, que foi mais incisiva, ao dizer que a referência inédita ao carvão no texto tinha sido uma das poucas vitórias da Conferência. 

Era uma das poucas coisas que queríamos levar daqui de volta para casa com orgulho. E agora vemos essa luz diminuída”, lamentou, acrescentando que só aceitava a alteração "apenas”, e sublinhou “apenas”, porque “existem elementos críticos deste acordo” que as pessoas do seu país “precisam para sobreviver”. 

Guterres já reagiu, sublinhando que "a catástrofe climática continua a bater à porta" e criticando um documento cheio de contradições.

Em comunicado, António Guterres considerou que a 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas "deu passos em frente que são bem vindos", mas ressalvou que se trata de "um compromisso" cheio de "contradições".

 

 

Ainda não chega", afirmou sobre o consenso a que se conseguiu chegar em Glasgow.

A ativista sueca Greta Thunberg lamentou também as conclusões alcançadas na cimeira da Nações Unidas sobre o clima (COP26), em Glasgow, na Escócia, resumindo-as a “blá, blá, blá”.

"O verdadeiro trabalho continua fora dessas salas. E nunca, jamais, desistiremos", disse a fundadora do movimento greve climática estudantil, numa mensagem divulgada no Twitter, a propósito do fim da COP26, após duas semanas de trabalhos e um dia depois do previsto.

A jovem ativista sueca já tinha advertido que classificar o acordo climático como “pequenos passos na direção certa”, “fazer algum progresso“, ou “ganhar gradualmente” era o “equivalente a perder".

 

 

Já o Presidente da República português, Marcelo Rebelo de Sousa, saudou o “pequeno passo” dado na cimeira, lamentando que “não tenha sido possível um consenso mais ambicioso”.

Embora lamentando que não tenha sido possível um consenso mais ambicioso, nomeadamente no que diz respeito aos combustíveis fósseis, à redução de emissões, aos prazos para atingir os objetivos limitados em discussão, ao apoio financeiro aos países menos desenvolvidos, para se adaptarem às mudanças que aí estão e mitigarem os efeitos para os seus povos, o Presidente da República saúda o pequeno passo dado pelo COP26 em Glasgow, que ainda assim representa um avanço, tímido, na luta contra as alterações climáticas”, lê-se num comunicado hoje divulgado no 'site' oficial da Presidência da República Portuguesa.

 

Entre os pontos da declaração, a ONU exorta os membros do Acordo de Paris a dobrarem o dinheiro que contribuíram para o financiamento climático (cerca de 80 mil milhões de euros) até 2025.

A discussão dividiu-se ainda entre países como Índia e China, que pediram mudanças na orientação de abandono dos combustíveis fósseis, e outros que defenderam que o texto, embora imperfeito, deve ser adotado.

Antes, falando pela União Europeia, o vice-presidente da Comissão Europeia, Frans Timmermans, fez um apelo inflamado: "Por amor de Deus não matem este momento pedindo mais coisas, pedindo para acrescentar isto ou apagar aquilo!".

Em duas horas e meia, dezenas de intervenções de países menos desenvolvidos lamentaram a falta de resolução na adoção de um mecanismo efetivo de compensação por perdas e danos provocados pelas alterações climáticas.

 

COP26: Ambientalistas lamentam emenda da Índia em cimeira que "soube a pouco"

As organizações ZERO, Oikos e a Fundação Fé e Cooperação (FEC) consideraram “lamentável” a emenda na declaração final da Cimeira do Clima (COP26) proposta pela Índia de considerar a redução do uso de carvão, ao contrário da sua eliminação.

Para as organizações ZERO, Oikos e a FEC, esta emenda “mostra a enorme dependência de muitos países deste combustível fóssil em particular, que é um elemento fundamental da descarbonização global”.

 

 

 

Sobre o evento, afirmam que “as medidas adequadas no combate à crise climática exigiam uma resposta satisfatória em todos as frentes: mitigação, adaptação, financiamento e justiça climática”.

“Em nenhuma delas esta COP cumpriu inteiramente. Ficámos bem aquém de assegurar uma trajetória que garantisse um aquecimento não superior a 1,5°C em relação à era pré-industrial. Trata-se de um 'status quo' iníquo, para a resolução do qual a 26.ª Cimeira do Clima não deu os contributos necessários. Contudo, se o texto final não agrada inteiramente a ninguém, não deixa de ser uma base para progressos futuros”.

As três organizações, que estiveram presentes na 26.ª Cimeira do Clima, consideram que “a confirmação da ausência na cimeira do presidente Chinês, Xi Jinping, e a falta de novos compromissos significativos da parte da China na redução das emissões, nomeadamente já a partir de 2025, como a ciência indica ser imprescindível, foi uma desilusão”.