Organizações ambientalistas salientam a importância do Acordo de Paris, que se mantém ou até aumentou nos últimos cinco anos, mas lamentam que não esteja a ser cumprido e dizem que próximos tempos serão decisivos.

Em 12 de dezembro de 2015, em Paris, 195 países assinaram um acordo para impedir que as temperaturas globais subam além de dois graus celsius (02ºC) em relação à época pré-industrial e trabalhar para que esse aumento ronde os 1,5ºC, o que se consegue reduzindo drasticamente as emissões de gases com efeito de estufa (GEE).

Cinco anos depois a Lusa perguntou à Liga para a Proteção da Natureza (LPN), à Zero e à Associação Natureza Portugal (ANP), que trabalha em associação com a internacional World Wide Fund for Nature (WWF) que balanço faziam do Acordo. Todas o consideram um bom acordo, mas chamam a atenção para as metas por cumprir e falam dos próximos anos decisivos.

O Acordo de Paris é um mecanismo útil e foi uma vitória. Uniu-se todo o mundo à volta do entendimento de que as alterações climáticas são um problema. Mas o caminho está por percorrer”, diz Ana Marta Paz, dirigente da LPN, salientando que as reuniões que decorreram depois do acordo e os contributos para baixar as emissões de GEE não são suficientes para baixar a temperatura global.

A ambientalista lembra que os países devem apresentar até ao final do ano a revisão dos seus contributos para a redução dos GEE, mas diz que mesmo que sejam revistas essas contribuições a estimativa é que as temperaturas aumentem 2,7ºC até 2100.

Francisco Ferreira, presidente da associação Zero, acrescenta que as ambições de redução apresentadas no Acordo de Paris são insuficientes e que levarão as temperaturas a subir acima dos 03ºC. E não acredita que essas ambições sejam revistas, como previsto, até ao final do ano. Porque deviam ser apresentadas na reunião sobre o clima de Glasgow, que a pandemia de covid-19 adiou por um ano.

O Acordo de Paris vai ter aqui um atraso de decisão. O que ganhámos este ano foi uma paragem (de emissões) conjuntural, devido à pandemia (paragem da atividade económica reduziu a emissão de GEE). O problema é que para cumprirmos o Acordo de Paris precisávamos de uma pandemia por ano durante a próxima década”, diz.

Francisco Ferreira acrescenta que nos cinco anos que decorreram desde o Acordo de Paris era suposto ter havido “uma resposta política forte”, até tendo em conta os avisos dos cientistas, para que se chegasse a Glasgow com metas importantes. “Mas não aconteceu nada”.

Por isso, conclui, o Acordo de Paris não está ameaçado, mas não está também a ter a trajetória de limitar o aumento da temperatura em 1,5ºC. E o seu sucesso só será aferido dentro de um ano, na conferência de Glasgow.

Ângela Morgado, presidente da ANP/WWF, aponta outro momento importante, a conferência sobre a diversidade biológica na China, que também devido à pandemia foi adiada por um ano.

Diz a responsável que também pode ser um grande contributo para travar as alterações climáticas, porque “um quadro global ambicioso sobre a biodiversidade leva a melhor ambiente e a uma economia mais justa”.

Ângela Morgado considera que o Acordo de Paris é positivo, mas falha na produção de incentivos adequados, não penalizando os que não cumprem as metas que se propõem de redução de GEE. E insiste que o mundo precisa de “um novo acordo, para as pessoas e para a natureza”, que chame a atenção para o clima, mas também para a perda de biodiversidade, “duas faces da mesma moeda”.

E se Ângela Morgado diz que 68% das espécies diminuíram desde 1970, Ana Marta Paz alerta que no futuro, por causa do aquecimento global, há países que vão deixar de existir.

As temperaturas subiram 1,1ºC, há uma série de processos em fase de viragem, como a libertação de metano resultante do degelo ou a acidificação dos oceanos, há pandemias, e “ninguém acha que a situação seja dramática o suficiente para mudar”, considera-se normal haver voos de Lisboa para o Porto ou para Faro, alerta a especialista em engenharia energética e ambiental.

É por isso que, diz, a solução passa por “uma transição económica em que o desenvolvimento deixe de ser medido pelo crescimento do PIB e por padrões de produção e consumo que não são sustentáveis”. E, acrescenta, se a União Europeia “até não se sai mal” na luta contra o aquecimento global convém lembrar que a maior parte do seu consumo é produzido em países com altas emissões, que as têm precisamente para produzir para a Europa.

Com as mudanças no clima a acontecerem, com os relatórios científicos a alertarem para as consequências, os Estados Unidos saíram do Acordo de Paris e há países como o Japão, a Rússia ou a Austrália que também “não mostram grande entusiasmo”. É Francisco Ferreira a falar, acrescentando que há o risco de as únicas boas noticias nesta matéria serem “uma China um pouco mais ambiciosa” em matéria de redução de GEE e o regresso dos Estados Unidos ao Acordo.

Quanto ao futuro não estou pessimista. O Acordo de Paris foi bem pensado e é um instrumento a seguir. Mas não o estamos a conseguir cumprir, nisso estou pessimista”, disse ainda.

Ângela Morgado admite que um dos motivos para o Acordo não se cumprir é a falta de monitorização”. “É uma grande falha no Acordo de Paris, se não monitorizarmos nunca vamos perceber se as medidas são ou não adequadas”. Mas, ainda assim, é “um instrumento fundamental”.

Sendo um “instrumento fundamental”, mas que não está a ser cumprido, o que vai acontecer? Ana Marta Paz avança uma resposta: “As coisas irão mudar, as pessoas também. Mas o que temos de decidir agora é o quanto queremos que os mais jovens sofram no futuro, porque os nossos filhos e netos vão sofrer muito com a nossa inação”.

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