A falta de camionistas no Reino Unido está a provocar problemas sérios ao nível do abastecimento de produtos alimentares e combustíveis. As fotografias das prateleiras vazias nos supermercados e os vídeos das lutas junto aos postos de combustíveis fazem lembrar os primeiros episódios da fantástica série O Colapso. 

Este é o primeiro parágrafo de um artigo de opinião, assinado por Enrique Feás, no Vozpópuli, um órgão de comunicação exclusivamente digital.

O que se está a passar e quais as lições que podemos aprender? Questiona o autor, para prosseguir a sua análise. Antes de mais há que distinguir problemas e soluções. A falta de camionistas não é um problema novo, é estrutural no Reino Unido. Não há oferta suficiente de profissionais nacionais para garantir o abastecimento das necessidades do setor logístico, tal como não há para o setor agrícola ou de saúde.

A pandemia acabou por acentuar muitos problemas e este foi um deles. Dezenas de milhares de trabalhadores, muitos deles sem terem a situação regularizada no país, voltaram para os seus países durante o confinamento, já que ninguém conseguia trabalhar. Em paralelo, as entidades encarregadas de emitir cartas de condução ou realizar exames a novos motoristas estiveram vários meses fechadas e muito trabalho ficou acumulado.

Ou seja, a covid acabou por reduzir a oferta local disponível e agravou um problema existente. Por outro lado, o Brexit, acabou por impedir a solução tradicional: corrigir o défice de camionistas nacionais já não é possível porque a opção de contratar, de forma rápida, trabalhadores europeus já não existe. Acresce um défice adicional, com a saída de muitos trabalhadores do Reino Unido, que não tem volta a dar, porque o Brexit impede o seu regresso por falta de terem a situação regularizada. Dito de outra forma: saíram devido à covid e não regressam por causa do Brexit. No contexto atual, as autoridades apenas podem diminuir os entraves ao nível da administração e facilitar a atribuição de vistos.

Aumentar salários

Aumentar salários? É certo que, atualmente, os salários não são muito competitivos para os camionistas britânicos (ainda menos após uma reforma fiscal para combater os falsos trabalhadores independentes e que endureceu os requisitos). É um bom momento para exigir melhorias e deveriam aproveitá-lo. Mas mesmo que um aumento dos salários no setor atraia alguns milhares de trabalhadores britânicos, a oferta terá sempre um limite estabelecido pela disponibilidade efetiva, a rentabilidade do setor logístico e a possibilidade desse aumento de custos ser pago pelos clientes.

A ministra do Interior, Priti Patel, insiste que estes trabalhos devem ser feitos por cidadãos britânicos. No entanto, a idade média dos camionistas é de 55 anos, o que revela que os mais jovens não olham para o transporte de gasolina como uma profissão com futuro (e fazem bem. Não deverá demorar muito para vermos camiões sem motoristas, a circular nas estradas da Europa). Esta responsável disse, ainda – utilizando uma terminologia curiosa – que teme uma “avalanche” de industrias a exigirem “um tratamento preferencial” similar. Acabou por ceder e anunciar 10 mil vistos para trabalhadores estrangeiros (metade para o setor agroalimentar e metade para o transporte de combustíveis). Todavia, advertiu que são vistos temporários (só até ao Natal).

E é esta advertência que antecipa pouco êxito para a iniciativa: estará disposto, um trabalhador europeu a passar pelo processo de toda a papelada de um visto sem ser para um par de anos, mas apenas três meses – e num contexto de grande procura na Europa – é muito provável que nem o salário relativamente mais alto oferecido no Reino Unido compe se todo o trabalho.

Há, pelo menos, cinco lições a tirar desta crise e não são só válidas para o Reino Unido

Em primeiro lugar, mais uma vez se mostra que os imigrantes não são uma ameaça para o mercado laboral nacional. Os tempos mudam e nem sempre as novas gerações estão dispostas a herdar algumas profissões, mesmo que sejam bem remuneradas. Fingir que os trabalhadores nacionais conseguem responder a todas as necessidades do mercado de trabalho é uma ilusão.

Em segundo lugar, a pandemia reconfigurou as prioridades dos indivíduos. Quando a morte se aproxima de uma pessoa ou da sua família, muitas decisões de vida e de trabalho são repensadas e, ou se antecipa a reforma ou se passa a ver de outra forma propostas que antes não eram atrativas.

Em terceiro lugar, o mercado interno e a livre circulação de trabalhadores na União Europeia, oferece, acima de tudo, uma garantia de flexibilidade no ajustamento da oferta e da procura laboral. Porque, recorde-se, um mercado comum permite não só a livre circulação de bens, mas também de fatores produtivos, aumentando a eficiência. 

Em quarto lugar, a burocracia pode anular qualquer política económica. Eliminar algumas tarifas, não garante a continuidade da exportação de os restantes custos forma elevados; conceder ajudas às famílias não garante que estas as recebam, se para isso, precisarem de dezenas de documentos; e um visto de trabalho no Reino Unido pode não ser atrativo, se for preciso lidar com muitos papeis, para apenas uns meses de trabalho.

Por último, em quinto lugar, os governos podem justificar qualquer medida, mas não podem negar que estas tenham os seus efeitos. A decisão de abandonar o mercado único ou de limitar a entrada de trabalhadores europeus podem ser o resultado de uma promessa eleitoral e de um referendo, mas tem sérios custos de eficiência; aumentar o salário mínimo pode melhorar a situação de muitos trabalhadores, mas fechará o mercado a outros; o aumento automático das pensões pode ter lógica social, mas pode ser insustentável do ponto de vista financeiro; reduzir o uso de combustíveis fósseis é urgente do ponto de vista ambiental, mas vai tornar o preço da eletricidade mais caro.

A política é a arte de decidir que benefícios devem prevalecer e os custos que se devem assumir, sem enganar os cidadãos, dizendo-lhes que as suas medidas não vão ter custos. A situação no Reino Unido diz-nos que negar a existência de custos não é só absurdo, como também perigoso, porque a realidade é teimosa e acaba sempre por se impor. E, com isso, a raiva lógica dos cidadãos por se sentirem enganados. E como isso, claro, a raiva dos cidadãos quando se sentem enganados.
 

Redação / PP