A ex-amante do rei Juan Carlos, Corinna Larsen, escreveu, pelo menos, três cartas aos reis de Espanha, Felipe VI e Letizia, na sequência das investigações da justiça espanhola por suspeitas de corrupção do rei emérito e que envolvem a empresária alemã.

As cartas foram enviadas em março e abril de 2019, através da sociedade de advogados que representa Corinna Larsen, a firma londrina Kobre & Kim, com a intenção de "providenciar informação do interesse dos reis".

O diário espanhol El Mundo divulgou as três cartas, sendo a última, datada de 23 de abril, a que contém várias ameaças à casa real espanhola.

Depois de nas missivas anteriores, Felipe VI ter recusado abrir qualquer canal de comunicação com a ex-amante do pai sobre as presumíveis irregularidades financeiras de Juan Carlos, bem como o alegado envolvimento do rei de Espanha nos negócios do progenitor, na carta de 23 de abril, Corinna Larsen ameaçou revelar informações que "afetarão o coração da casa real, as finanças e as ligações íntimas ao Centro Nacional de Inteligencia", os serviços secretos espanhóis (CNI, na sigla original).

A ex-amante de Juan Carlos exige que o rei de Espanha nomeie um intermediário para a resolução dos problemas legais em que está envolvida, nomeadamente o facto de estar a ser considerada a testa de ferro do rei emérito, numa operação de 65 milhões de euros, dinheiro depositado numa conta na Suíça.

Felipe VI negou sempre qualquer envolvimento nos negócios do pai, tendo, inclusive, anunciado a 15 de março passado que renunciava a qualquer herança a que tenha direito.

A carta de Corinna termina com um ultimato ao rei de Espanha, de que se as suas exigências não forem atendidas irá revelar à comunicação social tudo o que sabe.

Investigação a Juan Carlos

O Supremo Tribunal espanhol decidiu investigar as suspeitas de delito de corrupção do rei emérito, Juan Carlos, na construção do comboio de alta velocidade entre Medina e Meca, na Arábia Saudita.

De acordo com o Ministério Público, a investigação, que passa para o Supremo Tribunal, irá concentrar-se em "delimitar ou descartar" a relevância criminal dos acontecimentos ocorridos desde junho de 2014, quando Juan Carlos deixou de ser chefe de Estado e, com isso, perdeu a imunidade que a Constituição espanhola lhe concedia.

A procuradoria-geral considera ser necessário realizar “novas diligências que afetam diretamente o rei emérito", que está a ser investigado pelo Supremo Tribunal.

A investigação tem por base um processo iniciado pela procuradoria anticorrupção no final de 2018 para indagar sobre possíveis comissões pagas na adjudicação da construção do comboio de alta velocidade a um consórcio de empresas espanholas em 2011.

O Ministério Público enviou há alguns meses uma comissão rogatória à Suíça para aceder a dados sobre uma alegada doação de 65 milhões de euros de uma fundação com sede no Panamá - chamada Lucum e alegadamente ligada a Juan Carlos - a uma conta de Corinna Larsen.

Uma conversa entre Larsen e um ex-comissário da polícia, José Villarejo, a cumprir pena de prisão desde 2017, deu origem a este processo, que está a decorrer em simultâneo com as investigações do Ministério Público de Genebra (Suíça) contra as movimentações de alegados testas de ferro em contas bancárias neste país.

Há alguns meses, o Ministério Público suíço encontrou alegadas provas da movimentação de 100 milhões de dólares por vários gestores de contas na Suíça e suspeita que esse dinheiro, que chegou a uma conta no Panamá da Fundação Lucum, seria proveniente do rei saudita Abdul Aziz Al Saud, sendo o único beneficiário desta fundação Juan Carlos.

Em 2012, o dinheiro foi para uma conta de Corinna Larsen, embora o monarca tivesse reservado um milhão para uma outra "antiga amante" residente em Genebra.

Os advogados de Larsen explicaram, numa declaração, que em 2012 a sua cliente tinha recebido um presente "não solicitado" do rei emérito, "que o descreveu como uma forma de doação para ela e para o seu filho”.

O jornal britânico The Telegrah também publicou que o Rei Filipe VI é o segundo beneficiário de uma conta da fundação panamenha ligada ao seu pai.

Catarina Machado