China e países próximos estão a tomar precauções à medida que milhões de chineses começam a viajar, por altura das férias do Ano Novo Lunar, ameaçando alargar uma nova pneumonia oriunda do centro do país.

A ansiedade em torno da doença aumentou depois de o especialista do Governo chinês Zhong Nanshan ter revelado que o novo tipo de coronavírus, uma espécie de vírus que causa infeções respiratórias em seres humanos e animais, é transmissível entre seres humanos.

Até à data, as autoridades diziam que não havia evidências de que fosse transmissível.

Seis pessoas morreram desde que o vírus foi inicialmente detetado, no mês passado, em Wuhan, um cidade do centro da China, que é também um importante centro de transporte doméstico e internacional.

Só esta terça-feira, a China registou 77 novos casos da misteriosa pneumonia com origem no centro do país, elevando para 291 o número total de pacientes infetados. A Comissão Nacional de Saúde do país asiático atualizou o número total de infetados confirmados, enquanto 922 pacientes estão sob observação, numa altura em que milhões de chineses começam a viajar, por ocasião do Ano Novo Lunar.

Fora da China, quatro casos do novo coronavírus foram confirmados entre viajantes chineses na Coreia do Sul, Japão e Tailândia, todos também oriundos de Wuhan.

O principal conselheiro para o ministério da Saúde da Austrália, Brendan Murphy, anunciou também que o país aumentou já a triagem nos aeroportos. A Austrália recebe um número significativo de viajantes da China, e conta com três voos diretos por semana de Wuhan para Sydney.

Os passageiros estão a ser recebidos por equipas médicas para avaliações, disse Murphy, citado pela imprensa australiana.

Japão, Coreia do Sul, Hong Kong e outros locais com vários voos diretos para a China também estão a adotar medidas mais rigorosas de triagem. Pelo menos três aeroportos nos Estados Unidos começaram a rastrear passageiros de companhias aéreas oriundas do centro da China.

"Precisamos de aumentar o nível de alerta, pois o número de pacientes continua a aumentar na China", disse o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe.

Os primeiros casos identificados estão ligados a um mercado de mariscos, situado nos subúrbios de Wuhan, pelo que se suspeita que os primeiros pacientes tenham contraído o vírus a partir de animais.

A transmissão entre seres humanos só foi confirmada na segunda-feira.

Zhong, especialista do Governo chinês, que ajudou a expor a verdadeira escala da pneumonia atípica, em 2002, disse à emissora estatal CCTV que duas pessoas na província de Guangdong foram infetadas a partir de familiares.

Quinze funcionários hospitalares também testaram positivo para o vírus, anunciou a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan. A comissão tinha dito, na semana passada, que nenhum dos funcionários que teve contacto próximo com os pacientes tinha sido infetado.

O presidente chinês, Xi Jinping, instruiu os departamentos do Governo na segunda-feira a divulgar prontamente informações sobre o vírus e aprofundar a cooperação internacional.

Durante a epidemia da pneumonia atípica, o Governo chinês tentou inicialmente ocultar a gravidade, mas o encobrimento foi exposto por um médico reputado.

Na rede social chinesa Weibo, o Twitter chinês, vários internautas difundiram conselhos de prevenção, incluindo como usar máscaras e lavar as mãos. Algumas pessoas disseram ter cancelado os seus planos de viagem e que vão ficar por casa durante as férias do Ano Novo Lunar.

Segundo o ministério chinês dos Transportes, a China deve registar um total de três mil milhões de viagens internas durante os próximos 40 dias.

Macau cria centro de contingência

O Governo de Macau criou um centro de contingência para reforçar a resposta ao novo tipo de coronavírus e alargou o controlo da temperatura corporal a todos os turistas provenientes da China.

O centro visa "orientar e coordenar as ações das entidades públicas e privadas no âmbito da prevenção, controlo e tratamento das infeções por novo tipo de coronavírus", afirmou a secretária para os Assuntos e Sociais, Ao Ieong U, em conferência de imprensa.

Não existe até ao momento qualquer caso confirmado em Macau e o alerta mantém-se no nível 3, relativo a um risco médio que exige um acompanhamento mais apertado e que já está em vigor desde 05 de janeiro.

Criado por despacho do chefe do Executivo, o centro de contingência vai funcionar 24 horas por dia e é responsável por "todas as medidas preventivas e de controlo necessárias, conforme a intensidade da propagação das infeções por novo tipo de coronavírus", acrescentou Ao Ieong U.

Por sua vez, o diretor dos Serviços de Saúde, Lei Chin Ion, anunciou que, face ao aumento significativo de casos de infeção, as autoridades de Macau alargaram o controlo da temperatura corporal a todos os turistas chineses que chegam ao território por avião.

Anteriormente, a medida aplicava-se apenas a turistas provenientes de Wuhan, cidade no centro da China, onde surgiram os primeiros casos da doença.

"A população de Macau não tem de ficar preocupada porque o Governo vai tomar as medidas necessárias", realçou a governante, apelando ao público para que não acredite nas "informações não oficiais que circulam nas redes sociais".

No entanto, não descartou a possibilidade de a doença se vir a registar em Macau, numa altura em que já foram confirmados casos em várias cidades chinesas, incluindo Zhuhai, adjacente ao território.

Lei Chin Ion anunciou que os dirigentes dos Serviços de Saúde vão suspender as férias previstas para esta época e que algumas cirurgias não urgentes serão suspensas para que os profissionais se possam focar nas medidas de prevenção da pneumonia viral.

O novo coronavírus é semelhante ao que provoca a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), mais conhecida como pneumonia atípica, que infetou os primeiros doentes no sul da China em 2002 e se espalhou a mais de 20 países, matando quase 800 pessoas, e a Síndrome Respiratória do Médio Oriente, que foi identificada pela primeira vez em 2012 na Arábia Saudita, estendendo-se a 27 países e que causou mais de 850 mortos.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) convocou para hoje uma reunião de peritos para avaliar se os casos de coronavírus na China constituem uma emergência de saúde pública internacional.

O diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, convocou o Comité de Emergência da organização para que avalie esta possibilidade e as recomendações a seguir se for declarada a emergência de saúde pública internacional, aplicável às epidemias mais graves.

/ AM - Notícia atualizada às 9:56