O Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) editou esta segunda-feira a página oficial para retirar a informação de que a transmissão do novo coronavírus pelo ar "é a forma principal da propagação do vírus".

Naquela que foi a terceira revisão de conteúdo do CDC sobre a transmissão do vírus desde junho, a agência norte-americana decidiu apagar a publicação que afirmava que a maior parte dos casos de infeção decorria da inalação de partículas suspensas no ar. O post, colocado no site oficial na sexta-feira, indicava ainda que a ventilação de espaços fechados é crucial para travar a pandemia.

A atualização do centro epidemiológico explicava que o contágio acontece “através de gotículas respiratórias ou de pequenas partículas, como as dos aerossóis, produzidas quando uma pessoa infetada tosse, fala ou respira”. 

Estas partículas podem ser inaladas pelo nariz e pela boca, produzindo uma infeção. Crê-se que esta é a forma principal da propagação do vírus”, continuava o texto da agência. 

No entanto, Jay Butler, vice-diretor do CDC, disse ao jornal Washington Post que a informação disponibilizada na sexta-feira foi um erro. “Infelizmente foi publicado um rascunho sem qualquer revisão técnica”, explicou.

Numa publicação do Twitter é possível ver as últimas duas alterações feitas às recomendações sobre o novo coronavírus. Em junho, o CDC mudou as orientações do site e apagou a mensagem que diz que a transmissão através de superfícies contaminadas é rara. Na outra fotografia é possível ver como a agência afirma que a transmissão aérea é possivelmente a forma de propagação mais comum.

 

 

Ao analisar o conteúdo apagado na segunda-feira, o professor de química na Universidade do Colorado, avançou que a publicação tinha poder para mudar políticas e comportamentos sobre a pandemia.

Foi uma grande mudança”, explicou o professor ao Washington Post um dia antes do CDC apagar o conteúdo. “Se conseguirmos reduzir a transmissão porque mais pessoas entendem como o vírus se transmite é uma coisa boa”, disse Jimenez.

Em julho, uma carta aberta levou a que a Organização Mundial da Saúde reconhecesse o risco da contaminação aérea. No documento, assinado por 239 cientistas, era assinalada a necessidade de mais restrições no uso de ventilação e ar condicionado para minimizar a recirculação do ar. Pode chegar a ser mesmo necessário instalar luzes ultravioleta em alguns edifícios para monitorizar partículas infecciosas, escreveram na altura.

Linsey Marr, especialista em transmissão aérea de vírus e co-signatária da carta, disse na altura ao The New York Times que a OMS subvalorizou a propagação através das gotículas do ar porque se baseou em estudos de hospitais que sugerem baixos níveis de transmissão. 

Na maioria dos edifícios, disse Marr, "a taxa de troca aérea é geralmente muito menor, permitindo que o vírus acumule no ar".

Não é claro se o CDC decidiu seguir a mesma linha de pensamento da OMS, no entanto Jose-Luis Jimenez afirma que ainda há uma grande oposição de altos cargos em relação à tese da transmissão aérea.

Aqueles que, como nós, estão a estudar a transmissão aérea têm ficado frustrados por a mudança demorar tanto tempo. Finalmente a mudança chegou”, disse o professor de química antes da mesma mudança ser apagada do site do CDC.

O Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças está a tomar medidas para salvaguardar o processo de publicação de informação para que o erro não se repita. 

A revisão de conteúdo surge após a agência ter apagado uma publicação que sugeria que a transmissão do vírus através de superfícies contaminadas “não é frequente”.

Henrique Magalhães Claudino / Atualizada às 13:21 horas