As consultoras Control Risk e Oxford Economics defendem que os efeitos da pandemia de Covid-19 em África serão prolongados, mas os investidores não vão sair do continente devido às mudanças estruturais que os governos estão a implementar.

"A pandemia da covid-19 indubitavelmente apagou as melhorias gerais nos índices que medem a recompensa e o risco no continente africano dos últimos anos, mas isto não deverá parar os investidores; a recuperação em África pode ser prolongada e desigual, mas também pode ser transformativa", lê-se na quinta edição do relatório com o Índice do Risco e Recompensa em África.

"A pandemia da covid-19 é uma crise global, mas a recuperação de África vai ser mais lenta e mais desigual do que na maior parte das outras regiões", alertou o diretor adjunto da Control Risks, Barnaby Fletcher.

Ainda assim, acrescentou, "esta recuperação vai ser uma oportunidade para os governos em todo o continente lidarem com os constrangimentos estruturais e promoverem novas soluções, algo que já estava a ver, e que abre oportunidades interessantes para os investidores".

O impacto imediato da pandemia no continente é visível já este ano, com a primeira recessão em 25 anos, mas os analistas destas duas consultoras alertam que "mais preocupante é a falta de margem de manobra orçamental dos governos africanos para apostarem em programas de estímulo às economias".

A recuperação, explicam, "terá de ser liderada pelo setor privado, que já estava fraco antes e ficou ainda mais enfraquecido durante a pandemia".

Cada país terá de encontrar as suas soluções, entre o lançamento de reformas estruturais profundas e com efeitos visíveis nas economias, e a regressão de uma década no desenvolvimento.

"A realidade estará algures no meio destas duas visões, e cada país terá de encontrar o seu lugar neste largo espetro", resumiu o diretor do departamento africano de pesquisa macroeconómica na NKC African Economics, a subsidiária da Oxford Economics dedicada a África.

No relatório, os analistas mostram algum otimismo relativamente aos impactos da pandemia na governação dos países africanos.

"Já há indicadores de que a escala desta crise está a motivar algumas reformas que já eram necessárias; confrontados com um enquadramento global volátil, os governos africanos têm uma necessidade urgente de desenvolver a indústria da produção artesanal, as cadeias de abastecimento global e os mercados de capital nacionais", exemplificam os analistas.

Além disso, acrescentam, há também sinais de que grande parte da força laboral está a entrar na economia formal para poder ter acesso aos apoios estatais e "apesar de algumas destas tendências terem sido postas em andamento ainda antes da pandemia, a covid-19 acelerou o processo".

Os investidores "que fiquem em África durante esta recessão vão ter não só um papel importante a desempenhar na recuperação do continente, mas também vão ver oportunidades e mudanças excitantes", concluem.

O relatório aborda apenas os lusófonos Angola e Moçambique, mostrando, no caso de Angola, uma ligeira melhoria de 0,03 pontos no Índice de Risco, que passou de 6,16 pontos em setembro de 2019 para 6,13 este mês, e uma degradação do Índice de Recompensa, que desceu de 3,18 para 1,48 pontos.

Moçambique, por seu turno, seguiu a tendência geral do continente: o Índice de Risco piorou de 6,07 para 6,36 desde setembro do ano passado, e o Índice de Recompensa caiu de 3,72 para 2,94.

Em África, há 32.795 mortos confirmados em mais de 1,3 milhões de infetados em 55 países, segundo as estatísticas mais recentes sobre a pandemia naquele continente.

/ RL