Nos campos da Jordânia, milhares de refugiados sírios adaptam-se à vida sob confinamento forçado pela pandemia do coronavírus. 

Na disputa com a Grécia, o presidente turco cessa tentativas de chantagem com Atenas, sob ameaça de abrir as fronteiras de saída a milhares de deslocados.

No Mediterrâneo Central, estão suspensas as operações de busca e salvamento de milhares de migrantes que procuram asilo na Europa.

A UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) teme que a  pandemia possa ser devastadora para os refugiados, migrantes e populações deslocadas, se não houver uma ação internacional urgente.

É o ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) que o garante: até agora, ainda não houve casos de Covid-19 entre as cerca de 120.000 pessoas que vivem nos maiores campos de refugiados do Médio Oriente. O ACNUR faz o que pode para ajudar estes homens, mulheres e crianças a mitigar todas as ameaças.

Noutra frente, a Grécia explora a pandemia do novo coronavírus na sua disputa de refugiados com a Turquia.

A alemã Deutsche Welle (DW) conta como a pandemia está a ditar a política grega de asilo. O coronavírus forçou o presidente turco Erdogan a interromper as tentativas de chantagem na fronteira com a Grécia.

A DW sublinha que, de acordo com relatos dos media, os serviços secretos federais da Alemanha, BND, suspeitam que o governo da Turquia tenha levado as pessoas deslocadas em massa para a fronteira antes de tentar  incitar conflitos entre refugiados e autoridades na Grécia.

Já na fronteira que separa a Turquia da Bulgária, não há registo de atividade. Parece que o presidente Recep Tayyip Erdogan estava interessado apenas em agitar a Grécia, onde esperava escalar a situação já tensa nas ilhas ao inflamar nacionalistas.

De regresso à Jordânia, na sua página oficial, o ACNUR publicou a 2 de Abril, um artigo onde descreve  o dia-a-dia de alguns refugiados sírios.

É uma tarde ensolarada, a principal e movimentada rua comercial do campo de Za'atari, na Jordânia - o maior campo de refugiados do Médio Oriente - fica estranhamente quieta. Uma mão cheia de pessoas passa apressada carregando mantimentos, enquanto permanecem fechadas a maioria das centenas de lojas a que os moradores chamam ironicamente de Campos Elísios.”

Tal como o resto da população de 10 milhões de habitantes do Reino da Jordânia, os quase 120.000 sírios que vivem em Za'atari e no outro acampamento principal do país, em Azraq, estão confinados desde 21 de março, face à ameaça da Covid-19 (do inglês, Coronavirus Disease 2019). Mas, com tantas pessoas a viver em locais tão próximos, com acesso apenas a instalações básicas de saúde e saneamento, teme-se que possa vir a acontecer uma tragédia humanitária se o vírus chegar aos campos.

Ahmad Harb, refugiado sírio, de 35 anos, conta por telefone, à agência das Nações Unidas que, a princípio, os refugiados pareciam despreocupados e relutantes em mudar as suas rotinas. Mas, as sessões de consciencialização e atualizações regulares por SMS enviados pelo ACNUR ajudaram a fazer passar a mensagem.

Eles ficam em casa todo o dia e noite."

 

Aqui, as pessoas não levavam muito a sério este tipo de avisos, mas depois de algum tempo perceberam que não se tratava de uma brincadeira", explicou Harb. "As mensagens que receberam do ACNUR fizeram com que ficassem mais conscientes da gravidade da situação."

“A maioria das pessoas deixou de sair, a menos que seja absolutamente necessário", continuou. “Ficam em casa todo o dia e toda a noite. Alguns, até colocaram placas do lado de fora de suas portas onde se lê: "não são permitidas visitas."

Entregues à sua própria sorte

The Lancet, uma prestigiada revista científica, escreve na sua edição de 31 de março, que as medidas para conter a propagação da doença pelo novo coronavírus, avançadas por inúmeros países, resultaram no encerramento de fronteiras, logo em apertadas restrições de viagens. The Lancet sublinha que estas ações afetaram refugiados e migrantes em todo o mundo.

Ao mesmo tempo, prossegue a revista The Lancet, pode haver casos de repulsão com o retorno de requerentes de asilo para os seus países de origem, onde correm o risco de perseguição e aparente violação do direito internacional. A 7 de abril, a Organização Mundial de Saúde (OMS), já tinha reportado 184 países e territórios com casos de Covid-19 por transmissão local de coronavírus, muitos deles com grandes populações de refugiados.

Rumo ao sonho de uma vida melhor na Europa, têm cruzado o Mediterrâneo, milhares de migrantes. Desde 2015, mais de 16.000 migrantes morreram na tentativa de travessia. As dificuldades logísticas causadas pela Covid-19, levaram à suspensão das operações de busca e salvamento no Mediterrâneo central.

As poucas operações deste género, levadas a cabo antes dos bloqueios nacionais da Covid-19, levaram à quarentena imediata de migrantes nos centros de acolhimento. A revista The Lancet avança que, no momento em que estas medidas foram tomadas, não havia ainda qualquer caso confirmado de Covid-19 em África. Mas, o risco de contágio continua a ser muito elevado. Alguns refugiados e migrantes continuam a entrar e sair de  países que ainda não estão substancialmente afetados pela Covid-19,  para outros onde existe um número crescente de casos de infeção pela doença.

Iminente cenário de contágio para milhões de refugiados

Henrietta Fore, a diretora executiva da UNICEF, numa declaração datada de 1 de abril, admite que “a pandemia pode ser devastadora para os refugiados, migrantes e populações deslocadas, se não houver uma ação internacional urgente.”

O Covid-19, prossegue Henrietta Fore, “quase certamente ganhará uma posição nos campos de refugiados, centros de acolhimento ou centros de detenção que abrigam famílias migrantes. Dada a rapidez com que o vírus está a espalhar-se, esse cenário parece iminente.”

A diretora executiva da UNICEF conclui: “mesmo na ausência de crianças e famílias pandêmicas e desenraizadas - as que vivem como refugiados, migrantes ou deslocados internos - enfrentam imensas barreiras ao acesso a serviços de saúde e preventivos, como instalações adequadas de lavagem das mãos e saneamento. Assim, quando uma doença infecciosa ocorre, seu risco é agravado.”

Henrietta Fore deixa, no ar, a frieza dos números:

“Não estamos a falar de um pequeno número de pessoas. Hoje, 31 milhões de crianças foram arrancadas de suas casas, incluindo mais de 17 milhões de deslocados internos, 12,7 milhões de refugiados e 1,1 milhão de requerentes de asilo.”

A UNICEF vem, agora, lançar um apelo no sentido de uma ação internacional urgente, “para proteger os mais vulneráveis ​​nestes tempos sem precedentes.”

Rui Cordeiro