A Índia vive a pior fase da pandemia de covid-19. Todos os dias são quebrados recordes de mortes e de contágios. Só nas últimas 24 horas foram mais 3.293 óbitos e 357 mil novas infeções (um recorde mundial), num dia em que o país ultrapassou os 200 mil mortos.

Perante o agudizar da situação em todo o país, começam a surgir casos de verdadeira sobrevivência, como aconteceu com Anikat e Mukul, numa história relatada no jornal The New York Times. Os jovens, de 21 e 19 anos, viram o pai começar a ficar com falta de ar, e de imediato suspeitaram de uma infeção por covid-19. Niranjan Saha, que vive com os filhos e a mulher em Nova Déli, tornava-se assim num dos mais de 29 milhões de casos ativos no país.

O apelo desesperado ocorreu da mulher da família, Usha Devi, que suplicou aos filhos: "Façam o que quiserem mas encontrem oxigénio. Vendam o meu ouro, mas arranjem uma botija".

Por estes dias esta será apenas uma de muitas histórias do género a acontecer no segundo país mais populoso do mundo, que tem mais de 1,3 mil milhões de pessoas.

O cenário é dantesco em várias cidades: os crematórios funcionam ao máximo, pessoas recebem assistência no meio da rua, outras simplesmente morrem por escassez de meios.

A história desta família vai contra o governo indiano, que diz ter oxigénio suficiente para todos, estando inclusivamente a trabalhar numa rápida expansão da rede de abastecimento. Mas, mesmo que isso seja real, essa produção não chega a todo o lado, ainda para mais num país com a dimensão da Índia.

Grande parte do oxigénio está na zona este, precisamente do outro lado do país, o que faz com que as localidades do oeste, como Nova Déli, estejam a sofrer particularmente com a grave situação.

Com o passar dos dias, a condição de Niranjan Saha, de 54 anos, piorou, tendo vindo a desenvolver febre. Deitado na cama, pediu à mulher que encontrasse um médico. Pelo meio, dizia: "Não quero morrer".

Quatro dias depois de saberem que o pai estava infetado, Anikat e Mukul apressaram-se a ir a uma loja no sul de Nova Déli. Um homem apareceu para os ajudar, e os irmãos prepararam as cerca de 10 mil rúpias (cerca de 110 euros) que a mãe lhes tinha dado.

São 60 mil rúpias [n.d.r. 664 euros]", respondeu-lhes o comerciante.

Não estavam sequer perto de ter o dinheiro necessário para ajudar o pai, até porque aquele era quase todo o valor que a família ganhava durante um ano inteiro.

O problema é que esta situação repete-se diariamente. Muitos dizem ter pago até 10 vezes mais o valor habitual de uma garrafa de oxigénio, e há já relatos de material a ser roubado dos hospitais.

Os irmãos voltaram para a mãe, que ligou desesperada aos seus conhecidos. Entre vários esforços, incluindo a penhora de jóias, lá foi possível juntar o suficiente.

Chegados a casa com o oxigénio, Anikat e Mukul tiveram nova dificuldade: ligar o oxigénio. Tudo isto enquanto Niranjan Saha tinha a saturação a 50, um nível muito perigoso, tendo em conta que o valor de referência não deve baixar dos 90, sendo que a partir dos 60 é mesmo imperativo o auxílio à respiração.

Enquanto os irmãos lutavam para ajudar o pai, o homem debatia-se com uma esforçada respiração. A certa altura, os seus olhos simplesmente fecharam-se e o corpo ficou firme e hirto.

Transportaram o pai para o hospital, onde viria a morrer ainda antes de ser admitido.

A situação está a ser impulsionada pelo aparecimento da variante indiana, comprovadamente mais contagiosa, e que tem uma dupla mutação. Perante a gravidade, os governos de vários países já anunciaram a ativação do mecanismo de ajuda internacional. Portugal também vai ajudar a Índia, enviando oxigénio e medicamentos.

António Guimarães