Portugal acordou esta sexta-feira num confinamento quase semelhante ao de março, mas com uma grande diferença: as escolas continuam de portas abertas e todo o ensino é presencial.

A decisão tomada por António Costa foi política, depois de uma dura discussão sobre o tema com especialistas do Infarmed. Embora muitos dos estudos realizados sobre o impacto da abertura das escolas no crescimento de infeções diárias não coloquem as salas de aula como zonas de máximo risco de contágio, os investigadores reforçam que a movimentação de pessoas que as escolas abertas implicam é preocupante.

O consenso sobre a abertura ou o encerramento de escolas foi generalizado em Portugal, mas esse também não foi o caso na Europa, onde o medo de uma onda incontrolável de infeções pelo novo coronavírus no inverno levou um número crescente de governos a fechar escolas, rompendo com a consonância anterior de que o ensino presencial deveria ser a regra. 

Em grande parte, os países europeus mantiveram as escolas abertas no outono passado, mesmo quando impuseram um segundo lockdown, encerrando bares, restaurantes, locais de lazer e lojas não essenciais. 

O contraste surgiu após muitos países mudarem para o ensino à distância, apesar dos avisos de professores e especialistas de que isso iria provocar um agravamento das desigualdades educacionais e iria causar danos psicológicos e até nutricionais às crianças e adolescentes.

 

Quais os países europeus com escolas encerradas?

O Reino Unido, a Irlanda, a Alemanha, a Dinamarca e algumas regiões do norte da Itália ordenaram que as escolas fechassem por várias semanas para tentar conter as infecções. Em alguns casos esses encerramentos foram prolongados a seguir às férias de Natal.

O aumento dos surtos de covid-19 também provocou o encerramento de escolas na Holanda, marcando uma reviravolta no discurso do governo sobre a prioridade de manter as escolas abertas, argumentando que não são locais de significativo risco.

Vários são os estudos que noticiam que o vírus é menos disseminado entre crianças. O último trabalho a ser desenvolvido nesta matéria provém da Islândia e demonstra que os menores de 15 anos têm metade da probabilidade de serem infetados, em comparação com adultos. 

Com base no argumento de que as escolas são locais seguros, a França conseguiu conter significativamente a propagação do vírus durante o confinamento que impôs em novembro, apesar de manter todo o ensino presencial.

No outro lado do espectro está o Reino Unido que decretou que todas as escolas primárias e secundárias, na maior parte dos casos, teriam de aderir ao ensino remoto.

As únicas exceções são os filhos de trabalhadores essenciais e aqueles considerados vulneráveis, que estão autorizados a ir fisicamente à escola todos os dias. O governo esclareceu que estes casos incluem crianças sem acesso a um computador em casa ou a um lugar tranquilo para estudar.
 

Durante a primeira vaga da pandemia, dezenas de países fecharam as escolas, prejudicando a educação de quase 9 em cada 10 alunos, de acordo com dados da Unicef.

Os estudantes que vivem em países pobres foram afetados muito mais pelos confinamentos do que os colegas em países mais ricos, com acesso a portáteis e a internet rápida, alerta a agência da ONU. Porém, mesmo em alguns dos países mais ricos da Europa, o cancelamento do ensino presencial gera preocupação.

Investigadores alertaram que o encerramento prolongado das escolas irá agravar os problemas de saúde mental e colocará os alunos de famílias mais pobres em desvantagem. Num paper publicado em outubro, a RKI, a entidade científica responsável pelo aconselhamento do governo na luta contra a pandemia enfatizou que o país deveria tentar manter as escolas abertas custe o que custar. Um apelo na mesma linha de outros países da União Europeia.

Embora esta esperança esteja a começar a desvanecer, existem evidências de que estes confinamentos escolares vão ser diferentes dos registados na primavera.

Algumas regiões da Alemanha aproveitaram um furo na legislação que torna a frequência às aulas voluntária, o que significa que as crianças são fortemente incentivadas a ficar em casa, mas podem ir à escola se os pais não puderem trabalhar em casa.

A Dinamarca, que também registou aumento de casos nos últimos dias, disse que, por enquanto, excluirá apenas os alunos mais velhos do ensino presencial, mas que as medidas podem vir a ser reforçadas se as restrições não tiverem um impacto suficiente

Henrique Magalhães Claudino / Atualizado no dia 15/01