Ao contrário do que acontece em Portugal, no Reino Unido o Dia da Mãe celebra-se no quarto domingo da Quaresma, que este ano calhou a 22 de março. Na sexta-feira anterior a esse fim de semana, quando lhe perguntaram se iria visitar a sua mãe, Boris Johnson respondeu: “Vou certamente mandar-lhe os meus melhores votos e espero conseguir vê-la". No seu artigo semanal no Daily Telegraph desse domingo, o primeiro-ministro britânico escrevia, porém “Neste Dia da Mãe, o melhor presente que podemos dar – nós que tanto devemos às nossas mães – é poupá-las ao risco de apanharem uma doença muito perigosa. A notícia triste é que isto significa ficar longe.” Confusos? Pois. O público britânico também terá ficado. Nesse mesmo fim de semana, milhares de pessoas decidiram ignorar o conselho oficial de ficarem por casa e encheram ruas, parques e praias, aproveitando o tempo solarengo.

Logo na sexta-feira, os assessores de Boris Johnson apressaram-se a dizer aos jornalistas que o que o primeiro-ministro queria dizer com aquilo do “espero conseguir vê-la” era que contava falar com a mãe através de uma videochamada na internet. Pode ser que sim. No entanto, o rumo seguido por Johnson na resposta à pandemia do novo coronavírus é visto por muitos como hesitante, errático e até negligente. Com um papel escrito à frente, as intervenções do primeiro-ministro mostram habitualmente alguma certeza e clareza. Mas quando larga o guião, a sua comunicação ressente-se, enfraquecendo a mensagem com elementos por vezes contraditórios.

São duas faces do mesmo político que trazem à memória a premissa básica do famoso romance do escocês Robert Louis Stevenson “O Médico e o Monstro”, de 1886. Com o título original “Strange Case of Dr Jekyll and Mr Hyde”, o livro conta como o racional e bondoso doutor Jekyll cria e usa em si próprio um soro, sob cujo efeito o médico se transforma numa personalidade oposta: o colérico, violento e até assassino senhor Hyde, criatura mesmo fisicamente alterada em relação a Jekyll, e que faz trinta por uma linha enquanto dura o efeito do soro.

Da literatura fantástica do século XIX para a atualidade, presume-se que o corpo que alberga tanto o dr. Johnson como o sr. Boris terá pelo menos recebido soro fisiológico durante as três noites que passou na unidade de cuidados intensivos do hospital de Saint Thomas em Londres. A direção hospitalar não deu grandes pormenores sobre o tratamento dado ao líder conservador de 55 anos de idade, além de que lhe foi administrado oxigénio, mas que nunca chegou a ser ligado a um ventilador.

O empurrão francês

Em geral e também nesta crise da Covid-19, Boris Johnson está longe de ser um Donald Trump ou um Jair Bolsonaro. Mas pelo menos partilhou com os dois populistas da direita radical americana e brasileira uma renitência considerável a impor medidas drásticas para fazer face à epidemia. Uma semana antes daquele Dia da Mãe, uma sondagem da Opinium indicava que nem 36% dos britânicos confiavam no que o primeiro-ministro dizia sobre a crise do coronavírus.

A 16 de março, o Reino Unido contava 1.372 casos confirmados e um total de 35 mortos. Nessa altura, a Itália, a Espanha e as vizinhas França e Irlanda já tinham fechado as escolas, e os britânicos estavam bastante irritados por Johnson ainda não ter mandado encerrar os estabelecimentos de ensino. Havia inclusive uma petição ao Parlamento já com mais de meio milhão de assinaturas para que se mandasse fechar as escolas. Na quarta-feira, 18 de março, o líder conservador lá cedeu, anunciando que seriam encerradas a partir de sábado, 21.

Para muita gente, isso não chegava. Mesmo para gente de fora do país. Na manhã da sexta-feira, 20, dia em que respondeu à pergunta sobre o Dia da Mãe, Boris Johnson falou ao telefone com o Presidente francês. Segundo o diário Libération, Emmanuel Macron ameaçou fechar nessa mesma tarde as fronteiras de França a quem quer que viesse do Reino Unido caso Johnson não adotasse medidas bem mais restritivas para combater a Covid-19. Naturalmente, nem o número dez de Downing Street nem o palácio do Eliseu confirmaram qualquer ameaça feita por Macron. Mas o facto é que nessa mesma noite Johnson anunciou que cafés, pubs, restaurantes, bares, cinemas, teatros e ginásios teriam de fechar, tal como as escolas, logo no dia seguinte, sábado. Nesse fim de semana do equinócio da primavera, como já vimos, houve uma frequência maciça de parques, praias e outros espaços públicos ao ar livre, mas também de lojas e supermercados. No domingo à noite, Boris Johnson alertou que era crucial seguir o conselho de manter o distanciamento físico entre as pessoas, dando a entender que medidas bem mais duras podiam ser aplicadas em breve se necessário. Só que, mais uma vez, deu uma no cravo e outra na ferradura, na tal ambivalência dr. Jekyll/sr. Hyde, ao afirmar “Eu quero, claro que sim, que as pessoas possam ir a parques, espaços abertos e se divirtam. É crucial para a saúde, para o bem-estar físico e mental”.

Seja pela vaga de indisciplina epidémica do fim de semana, seja ainda pelos efeitos da suposta ameaça de Emmanuel Macron de fecho da fronteira franco-britânica, o chefe do governo anunciou 24 horas depois que passavam a vigorar as restrições já então adotadas em tantos países europeus, como Portugal, aquilo a que os anglófonos chamam o lockdown. Johnson anunciou nessa segunda-feira, 23 de março, que as pessoas só podiam sair de casa por motivos médicos ou para ajudar alguém, para compras de bens essenciais, para exercício uma vez por dia ou para trabalhar, mas neste caso apenas se fosse absolutamente necessário. O primeiro-ministro anunciou igualmente a proibição de ajuntamentos de mais de duas pessoas, bem como o encerramento de todos os estabelecimentos comerciais cuja atividade não fosse considerada essencial. Nesse momento, registavam-se já 6.650 infetados e 335 mortes no país, quase o quíntuplo de contaminados de uma semana antes, e praticamente dez vezes mais mortos.

Passou-bens, cavalos e râguebi

Quando Boris Johnson escreveu pela primeira vez na sua conta de Twitter sobre o coronavírus havia apenas nove casos positivos confirmados no Reino Unido. Foi a 18 de fevereiro, num tweet a dizer que tinha falado ao telefone com o Presidente chinês Xi Jinping para lhe expressar a sua solidariedade, e que o Reino Unido tinha doado equipamento médico à China para fazer face ao surto que veio a tornar-se uma pandemia. Dez dias depois, a 28, após a primeira morte de um britânico pela doença - passageiro do paquete Diamond Princess, ancorado no porto japonês de Yokohama – o primeiro-ministro declarou “A questão do coronavírus é algo que é agora prioridade número um do governo”. Nesse dia, os infetados no país eram apenas vinte.

Três dias mais tarde, a 3 de março, já tinham passado os cinquenta. Johnson apresenta o plano de ação do governo para travar o vírus. No entanto, acaba por responder aos jornalistas com a frase “Dou passou-bens constantemente. Estive num hospital na outra noite, onde penso que havia aliás alguns doentes de coronavírus, e dei passou-bens a toda a gente. Continuo a dar passou-bens”. No dia 5, os casos são 116 e regista-se a primeira morte no país. O primeiro-ministro informa que se continua na fase de contenção, e que essencialmente o que quer dizer é “Lavem as mãos, e tudo como de costume”.

E muita coisa continuou como de costume durante uma semana ou mais. Entre 10 e 13 de março, Cheltenham, 140 quilómetros a oeste de Londres, realiza como todos os anos o seu concorrido festival de corridas de cavalos, atraindo perto de 250 mil pessoas. Face às críticas de que foi alvo por ter mantido o festival em tempo de epidemia, a organização justifica-se já neste mês de abril, invocando entre outras coisas o facto de o próprio primeiro-ministro ter ido ver um jogo de râguebi três dias antes de arrancar a competição hípica. Isso mesmo, a 7 de março Boris Johnson foi ao estádio londrino de Twickenham ver a seleção de Inglaterra dar uma tareia de 66-7 ao País de Gales, em jogo a contar para o Torneio das Seis Nações feminino, perante dez mil espetadores. “Tarde fantástica em Twickenham a ver o râguebi e a felicitar as Rosas Vermelhas pela sua última vitória”, escreveu o primeiro-ministro no seu Twitter. O torneio foi entretanto suspenso, e as jovens inglesas arriscam-se a não receber o praticamente garantido título de campeãs.

No dia 11 de março, o Liverpool perdeu surpreendentemente o título de campeão europeu de futebol, ao ser eliminado em Anfield Road pelo Atlético de Madrid. 54 mil pessoas estiveram no estádio, três mil delas adeptos espanhóis, numa altura em que a epidemia já grassava em Espanha, particularmente em Madrid e Barcelona, e em que já todos os jogos da liga espanhola se realizavam à porta fechada. Foi nesta terça-feira, 11, que o diretor da Organização Mundial de Saúde declarou que a Covid-19 se tinha tornado uma pandemia. Um dia antes, foi anunciado que uma subsecretária de Estado da Saúde, Nadine Dorries, estava contaminada com o vírus. A 12 de março, o Reino Unido contabiliza 590 casos e dez mortes.

Em busca da imunidade de rebanho

É neste contexto que o Reino Unido e a União Europeia cancelam por acordo, a 12 de março, todas as reuniões face-a-face na negociação para um acordo de comércio pós-Brexit. Boris Johnson decidiu no início do ano pôr na lei que o prazo para obter um acordo com Bruxelas acaba a 31 de dezembro, sendo a alternativa a tão temida rutura caótica com a União Europeia, da qual o país formalmente já saiu em janeiro, mas com um período de transição em curso que praticamente nada muda até ao fim do ano. Nada na frente da relação jurídica com a europa comunitária mudou, mas tudo mudou já na frente da saúde.

Johnson anuncia nesse dia 12 pelo menos uma mudança. O país já não está na fase de contenção do vírus, passa à fase forçosamente mais resignada de adiamento da propagação do mesmo. E afirma “Esta é pior crise de saúde pública numa geração”. O líder do governo adianta que tem de ser honesto com o público, e é-o: “Muito mais famílias vão perder entes queridos prematuramente”. Mesmo o Guardian, diário esquerdista, reconhece uma marcada mudança de tom no discurso do primeiro-ministro, um aumento da seriedade desejável perante uma gravíssima epidemia. Um aumento desejável, mas não suficiente para muitos, bastando recordar que a imposição do encerramento das escolas ainda demorou mais onze dias.

Mas nessa comunicação de 12 de março, Boris Johnson acrescentou ainda que “O número de casos é mais alto, talvez muito mais alto, do que o número de casos que confirmámos até agora com testes”. Uma dedução intelectualmente honesta, sem dúvida, logo corroborada pela estimativa do homem que Johnson tinha ao seu lado, Sir Patrick Vallance, principal conselheiro científico do governo: a de que o número real de casos seria dez a vinte vezes maior do que os 590 confirmados, isto é, entre cinco mil a dez mil infetados. Uma estimativa perfeitamente razoável. O problema com esta franqueza comunicativa é que ela podia ser uma indicação de que a estratégia do governo para combater o vírus assentava na expectativa de obter imunidade de grupo, aquilo a que em inglês chamam imunidade de rebanho.

No dia seguinte, essa indicação só se reforçou com as declarações de Patrick Vallance à Rádio 4 da BBC: “Uma das coisas-chave que precisamos de fazer é desenvolver alguma espécie de imunidade de rebanho, de modo a que mais pessoas sejam imunes a esta doença e reduzamos o contágio”. Na mesma entrevista, Vallance disse que seria necessário que 60% da população britânica ficasse infetada para se alcançar a imunidade de rebanho, isto é, o ponto em que a quantidade de população imune e assintomática se torna tão grande que permite uma significativa redução probabilística do contágio aos ainda não imunes ao vírus. Entretanto, as orientações de Boris Johnson e do governo para confinamento do público mantinham-se na recomendação de apenas sete dias em casa, e apenas para quem tivesse tosse insistente e febre com temperatura igual ou superior a 38,7 graus.

A desconfiança de que a busca da imunidade de rebanho era o objetivo central da estratégia de Downing Street levou mais de 200 cientistas a assinarem uma carta aberta apelando ao governo que a reconsiderasse. O argumento era que essa estratégia provocaria centenas de milhares de mortes e ao mesmo tempo a rutura na capacidade de resposta do serviço nacional de saúde. O ministro da Saúde Matt Hancock negou que a estratégia governamental fosse tentar alcançar a imunidade de rebanho, mas sim aquilo que preconiza a OMS e que a maioria dos países segue: atrasar o ritmo da subida de casos, evitar que a curva ascendente seja muito abrupta, e tentar que ela se torne numa curva descendente no mais breve tempo possível.

O paciente inglês

Desde o início da emergência que Boris Johnson prometeu aos britânicos basear as suas decisões na ciência. Se o principal conselheiro científico do governo – supostamente a quintessência das virtudes de um dr. Jekyll - tiver defendido uma estratégia de imunidade de rebanho, não será propriamente por culpa da faceta sr. Hyde do primeiro-ministro que este terá pensado ou tentado levá-la a cabo. Tanto mais que o conceito cientificamente válido da imunidade de rebanho tem afinidades com a ideologia laissez-faire, laissez-passer do neoliberalismo económico dominante no Partido Conservador, e particularmente no círculo estrito de Johnson, a começar pelo mentor e conselheiro político de aura mefistofélica, Dominic Cummings.

Mas as previsíveis consequências políticas e, a longo prazo, até as consequências eleitorais duma estratégia dessas foram mais que suficientes para que o executivo a renegasse. É a 20 de março que Boris Johnson usa pela primeira vez no seu Twiter a hashtag “StayHomeSaveLives” (#FicarEmCasaSalvaVidas), aparentemente rendido à necessidade do lockdown nacional que imporá três dias depois. A estratégia pessoal de Johnson quanto aos cuidados próprios - com aqueles tempos de passou-bens a toda a gente, mesmo num hospital com doentes de Covid-19 - é que lhe pode ter valido ter-se juntado aos mais de milhão e meio de infetados no mundo.

Dois dias após o Príncipe Carlos, herdeiro do trono, revelar que estava contaminado e com sintomas ligeiros, chega a vez do primeiro-ministro anunciar no dia 27 de março que testou positivo para o novo coronavírus e que se colocou em isolamento em Downing Sreet. Fica-se a saber que também o ministro da Saúde Matt Hancock tem o vírus e se isolou. Boris Johnson diz num vídeo no Twitter que tem febre e uma tosse persistente. Mas continua a chefiar o governo, tendo feito nessa mesma sexta-feira uma reunião ministerial através de videoconferência. Na terça-feira, 31, preside ao primeiro conselho de ministros totalmente realizado por via digital. Na quinta, 2 de abril, publica um vídeo em que volta a prometer aumentar a quantidade de testes de despistagem do coronavírus. Nesse momento, do mais de meio milhão de profissionais do serviço nacional de saúde apenas cerca de dois mil tinham sido testados. No mesmo dia, Johnson vem à porta de Downing Street participar no aplauso coletivo ao pessoal médico na linha da frente do combate à doença. O aspeto do chefe do governo não era nada famoso.

No sábado, dia 4, Carrie Symonds, a noiva do primeiro-ministro, grávida de pelo menos seis meses, revela no Twitter que passou a semana anterior de cama com sintomas do coronavírus, mas que se sente mais forte e está a convalescer. Desde o teste positivo do noivo que Symonds, de 32 anos, não se encontrava em Downing Street, onde vive com Boris Johnson, mas sim em isolamento em Camberwell, no sul de Londres. Domingo, 5 de abril, o governo anuncia que o primeiro-ministro foi internado como medida de precaução, já que os sintomas se mantinham, dez dias após se ter confirmado a presença do coronavírus. Na noite de segunda, 6, Johnson ingressa na unidade de cuidados intensivos do hospital de Saint Thomas, depois dum agravamento do seu estado durante a tarde.

É somente nestas circunstâncias que Boris Johnson delega por fim os seus poderes em Dominic Raab, 46 anos, ministro dos Negócios Estrangeiros. A generalidade dos analistas políticos considera que a escolha mais óbvia para gerir a crise pandémica teria sido o muito mais experiente Michael Gove, 52 anos, atualmente no cargo equivalente em Portugal a ministro da Presidência do Conselho de Ministros. Mas Gove, que foi um dos dois principais rivais do primeiro-ministro na corrida à liderança do Partido Conservador no ano passado, é uma ameaça muito maior do que Raab ao poder pessoal de Johnson.

Ao fim de três noites, o chefe do governo melhorou o suficiente para abandonar os cuidados intensivos na quinta-feira, dia 9. Na sexta, Downing Street informou que já tinha conseguido começar a andar, e este sábado que continuava a fazer muito bons progressos na sua recuperação. Onde não há assim tanto progresso é no equipamento protetor para os profissionais de saúde, com a Associação Médica Britânica a referir situações dramáticas provocadas pela escassez de máscaras e luvas. É porventura um sinal de deficiente preparação do governo conservador para fazer face à Covid-19. Já no fim de março, Richard Horton, que dirige The Lancet, uma das mais prestigiadas revistas médicas, denunciou: “Sabíamos na última semana de janeiro que isto vinha aí. A mensagem vinda da China era absolutamente clara de que um novo vírus com potencial pandémico estava a atingir cidades. Sabíamos isso há onze semanas, e depois desperdiçámos o mês de fevereiro quando podíamos ter agido”.

Quando Boris Johnson foi hospitalizado, no dia 5, contavam-se cerca de 48 mil infetados no Reino Unido. Seis dias mais tarde, já eram perto de 80 mil os casos. O coronavírus não matou Johnson, mas em menos de uma semana de internamento, as vítimas mortais no país praticamente duplicaram de cinco mil para dez mil.

Miguel Cabral de Melo