O infecciologista David Urbaez defendeu hoje que a tendência de queda da covid-19 no Brasil, registada nos últimos dias, não é "substancial", nem "coerente", e há um risco real de aumento devido à falta de medidas governamentais eficazes.

Em declarações à agência Lusa, o médico brasileiro David Urbaez, que é também consultor da Sociedade Brasileira de Infectologia, afirmou não ver perspetivas de continuidade na queda dos índices de mortos e contágios pela covid-19 no Brasil, e acusou governos e prefeituras de estimularem a economia sem colocarem em prática um modelo de proteção da saúde dos cidadãos.

Neste momento temos uma ligeira queda nos índices da covid-19, mas não é algo substancial. Não temos ferramentas suficientemente refinadas que garantam que continuaremos nessa queda de maneira absoluta e coerente, porque temos muitas variáveis completamente soltas, sem qualquer ação de controlo por parte das autoridades, que são fundamentais", afirmou o especialista.

Trata-se de uma queda muito lenta, e se acontecer qualquer modificação no meio desse caminho, como a reabertura de algumas atividades, como espetáculos culturais ou a permissão de publico nas bancadas de jogos desportivos, onde há uma grande quantidade de pessoas a circular, voltará a haver uma elevação no número de contágios e mortes, certamente", avaliou Urbaez.

Até ao momento, o Brasil, segundo país com maior número de mortos em todo o mundo e o terceiro com mais casos, acumula 131.210 mortos e mais de 4,3 milhões de casos desde o início da pandemia, registada oficialmente no país em 26 de fevereiro.

Desde 12 de agosto, a média semanal de mortes causadas pelo novo coronavírus no Brasil está abaixo de mil e, desde o dia 28, abaixo de 900. Nesta semana, a média manteve-se abaixo de 800. Assim, o Brasil segue uma aparente tendência de queda nas mortes causadas pelo novo coronavírus.

Contudo, David Urbaez mantém-se cético em relação a essa possível descida, acreditando que o país sul-americano não irá ter "uma queda profunda, em que a média semanal de mortes chegará aos 300 ou 200 óbitos". "Acredito que vamos desenhar uma queda parcial, e vamos continuar a manter os níveis altos", disse.

Continuamos a ter cerca de 30 mil casos de infeção por dia, o que é um valor alto, mas, como estamos a vir de um período com taxas muito altas, começamos a ver todos esses discursos de triunfo sobre a pandemia. Isso traz aquilo que chamamos de consequências involuntárias, em que as pessoas começam a agir como se já não existisse pandemia", declarou à Lusa o médico brasileiro.

Na avaliação do infecciologista, vários setores económicos e políticos "muito dominantes" estão, de forma intencional, a levar as pessoas a crer que o final do novo coronavírus no Brasil está próximo, de forma a atender a interesses económico-financeiros.

Urbaez indicou que, a par da reabertura económica que vem sendo efetuada nos últimos meses, governos federal, estadual e municipal tentam passar a mensagem de que com o uso de máscara, distanciamento social e higienização das mãos a sociedade conseguirá eliminar a pandemia, "o que não é verdade", porque, em muitos lugares, não é feito um uso massivo e correto de das proteções faciais, me é aplicado o distanciamento social.

A componente das aglomerações é muito problemática. As pessoas passam duas horas dentro de um autocarro apinhado de gente, trabalham onde têm muitas pessoas juntas, então, evidentemente, vão auto-autorizar-se a fazer aglomerações em prol do entretenimento. Se todos os dias essas pessoas se expõem ao vírus a caminho ou no próprio trabalho, elas vão questionar-se sobre o motivo de não se poderem aglomerar para entretenimento", disse.

"É muito comum vermos as culpas a serem colocadas em cima dos cidadãos, mas quem realmente está a promover que as pessoas se exponham são os governos, que não aplicam quase nenhum dispositivo de controlo. Não se observam campanhas diárias, por parte de governos e prefeituras, e do Presidente da República nem se fala", acrescentou o especialista.

David Urbaez indicou que o chefe de Estado, Jair Bolsonaro, deveria ser a pessoa a dar exemplos de proteção à sua população mas, pelo contrário, provoca aglomerações que poderiam ser evitadas e circula na maioria dos eventos públicos sem máscara facial, na presença de terceiros.

"Não há nenhum tipo de exemplo nem de mensagens institucionais, nem de empresas, que promovam os cuidados básicos. Estamos a falar de um vírus que ainda circula com intensidade no Brasil. Só poderemos afirmar o contrário quando existirem uns 100 casos de infeção por dia, mas não neste momento, em que temos mais de 30 mil casos diários e um total de mais de 130 mil mortos", advogou.

"Se os brasileiros que ainda se mantêm em casa, em isolamento social, forem convencidos, através dos atos e mensagens das autoridades, de que a pandemia já terminou, os números voltarão a disparar", alertou ainda o médico.

A pandemia de covid-19 já provocou pelo menos 916.372 mortos e mais de 28,5 milhões de casos de infeção em 196 países e territórios, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

/ BC