Foi ator de filmes da Disney em criança, tornou-se empresário aos 18 anos e aos 33 entrou em grande no mundos das criptomoedas. O norte-americano Block Pierce tem 40 anos e pode ainda não ser tão conhecido como Bill Gates ou Jeff Bezos mas é também um dos homens mais ricos do mundo e foi candidato às últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos.

De facto, em entrevista à TVI24 (que pode ver no vídeo associado ao artigo), Brock Pierce diz que não sabe se alguma vez será "tradicional", ainda que acredite na tradição: "Muito do que faço baseia-se na preservação de coisas que de outra forma seriam perdidas”, explica, a partir do Paquete Funchal, que está a ser recuperado depois de oito anos inativo.

Nascido no Minnesota, começou ainda criança a aparecer em anúncios publicitários e, já na adolescência, em filmes da Disney. "The Mighty Ducks" e "First Kid" foram os seus maiores sucessos:

Brock entrou numa dezena de filmes entre entre 1992 e 1997 mas, aos 17 anos, terminou a sua carreira como ator e tornou-se empresário, como sócio minoritário da Digital Entertainment Network (DEN), uma empresa de produção e distribuição de conteúdos multimédia. Aos 18 anos, Pierce já ganhava 250 mil dólares por ano (perto de 212 mil euros) e recebia 1% dos lucros da empresa.

Questionado sobre as "saudades" do cinema, Brock Pierce lembra que o "mundo é o palco", e que o que fazia como ator tinha um cariz mais secundário.

Eu saí no auge da minha carreira porque pertenci à primeira geração de miúdos que cresceram à volta de computadores, e rapidamente percebi que a tecnologia ia mudar o mundo", refere.

Já em 1997 pensava no futuro da comunicação com a utilização da mutiplicidade de ecrãs e os conteúdos a serem gerados pelos utilizadores, ideia que diz ter sido mal recebida na altura.

Diziam-me 'ninguém vai querer ver televisão num computador ou telemóvel, é para isso que há televisão'", recorda.

Depois de criar uma série de startups, em 2013, Pierce juntou-se aos irmãos Bart e Bradford Stephens para fundar a empresa de capital de risco Blockchain Capital (BCC), uma das mais antigas e mais ativas empresas a usar a tecnologia "blockchain" em ações financeiras.

Resumidamente, o "blockchain"  é um sistema de segurança que imprime uma impressão digital (token) numa informação digital e assim permite rastrear o envio e receção de conteúdos pela internet. Desta forma, o blockchain possibilita, entre outras coisas, a transação segura de moedas digitais ou critpomoedas.

“Do meu ponto de vista, o blockchain vai substituir toda a Internet”, disse Pierce numa entrevista à revista Rolling Stone em 2018. “Quando a Internet estava a ser desenvolvida, nas décadas de 1970 e 1980, não tínhamos a capacidade para, de facto, proteger a Internet. Quando obtivemos a capacidade de processamento para implementar a criptografia necessária para protegê-la, a base do blockchain estava lançada. E foi nisso que se continuou a trabalhar.”

É a coisa mais fiável que já existiu em termos de infraestrutura, de arquitetura", diz, à TVI24.

Mas Brock Pierce explica que não vê a criptomoeda tanto como uma moeda em si, mas antes como uma espécie de poupanças.

Atualmente, além da cofundador da Blockchain, Brock Pierce é o presidente da Fundação Bitcoin; cofundador de uma importante empresa de consultoria em criptografia, a DNA; parte da equipa por trás da primeira ICO (oferta inicial de moedas); e um dos primeiros investidores em algumas das maiores moedas e tokens da criptomoeda, incluindo a EOS (atualmente a quinta maior criptomoeda) e Tether (a décima maior).

 

Em 2018 foi considerado, pela revista Forbes, um dos 20 maiores criptomilionários do mundo, com uma fortuna estimada entre 700 milhões dólares e 1,1 mil milhões dólares.

Mas ele não é o típico homem de negócios, de fato e gravata, sentado num escritório. Pelo contrário. Raramente vai a um escritório ou é visto numa sala de reuniões. Não costuma viajar com muitas coisas e está pronto para dormir em qualquer lugar, sem fazer qualquer exigência de luxos. Na sua mala, leva sempre pequenos recipientes de vários medicamentos vegetais, como o psicadélico peruano San Pedro e o rapé de tabaco da Amazónia. Não tem uma agenda pois diz que prefere deixar-se levar pelo "flow", de preferência ouvindo música trance na sua coluna de som. É um milionário hippie. Ou seja, tem tanto dinheiro que não precisa preocupar-se com minudências - alguém da sua equipa fará com que tudo corra bem.

Brock Pierce é também conhecido como filantropo. Fundou a EOS Alliance, uma organização sem fins lucrativos criada com o artista musical AKON e outros investidores, que apoia projetos na área da saúde, ambiente e cidadania, que entretanto parece ter parado a sua atividade. Depois disso, criou a Fundação Brock Pierce, que apoia a Fundação para os Direitos Individuais na Educação, o Centro para os Direitos Individuais, o Centro Brennan para os Direitos Humanos e a União Americana de Liberdades Civis.

Entre os muitos projetos de Block Pierce contam-se o investimento de peso em Porto Rico, após a destruição causada pela passagem do furacão Maria, em 2017. O empresário mudou-se para o país, fundou um banco e incentivou o empreendedorismo mas também promoveu a criação de um centro comunitário e apoiou projetos sociais. Porto Rico, que oferece grandes incentivos fiscais aos investidores, atravessava uma grave crise económica. “Vamos reconstruir Porto Rico com o dinheiro que economizámos do IRS, ao estilo Robin Hood", comentava na altura Pierce.

É precisamente em Porto Rico que vive há três anos e meio, levando já sete anos de investimento na ilha. Foi precisamente aí que fundou a Integro, uma organização que procura "integrar por via da integridade".

Do lucro que tiver nos meus projetos em Porto Rico, não vou tirar um dólar de riqueza da ilha", assegura, dizendo que esse dinheiro será reinvestido no local ou doado à caridade.

Ainda esta semana, Pierce publicou no Instagram uma foto sua com uma das suas frases inspiradoras: "Dar é a maior oferta. Quanto mais dás, sem expetativa de retorno, mais terás."

Em julho de 2020, Pierce anunciou a sua candidatura à presidência dos Estados Unidos, como independente, com o programa "América 2.0". Ele acredita que a tecnologia é atualmente um dos maiores problemas dos EUA mas acredita também que a tecnologia pode ser a solução para muitos dos problemas. Defende um rendimento básico universal, que seria possível graças à criptomoeda, apoia o Serviço Nacional de Saúde e a legalização da marijuana. O lema, anunciado na página oficial da campanha, era "prosperidade para todos". Nas eleições de 3 de novembro, a sua candidatura com Karla Bellard como vice-presidente obteve 49.695 votos.

Sobre a candidatura, diz que nunca a viu como algo "para ganhar", mas antes como algo como símbolo da luta pelo "bem-comum".

Foi como uma missão exploratória para perceber como o sistema funciona", explica.