Milhares de portugueses emigrantes na Venezuela estão a abandonar o país devido à crise humanitária, instabilidade política e insegurança. O Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus, Sérgio Marques, estima que só à Madeira (região de onde é oriunda a maioria dos emigrantes portugueses naquele país) tenham chegado três a quatro mil.

Muitos são luso-descendentes, portugueses nascidos na Venezuela e que consideram este país o “seu”, mas que acham insustentável e demasiado arriscado viver no país que os pais e avós escolheram para procurar uma vida melhor. Faltam alimentos, medicamentos. Faltam garantias de segurança. A pobreza e a criminalidade intensificaram-se nos últimos anos.

Leia também: afinal, o que se passa na Venezuela?

Victor dos Santos, 38 anos, é um destes luso-descentes. Nasceu e viveu sempre na Venezuela, em Barquisimeto, mudou-se para Portugal em dezembro. Deixou tudo para trás. Consigo vieram a esposa e a filha de oito anos, que Victor quer proteger do caos que se tornou o país.

São 38 anos a morar lá e é difícil habituarmo-nos a outro estilo de vida, mas a situação na Venezuela está muito má, tenho uma filha pequenina, tenho mulher… Deixei a minha casa, deixei tudo lá. Está muito perigoso: não há comer, não há medicamentos. Matam-te por qualquer coisa, por um par de sapatos. Tenho uma menina de oito anos, tive de trocar de vida.”

A crise económica e política levam diariamente para as ruas milhares de manifestantes, que não vão descansar até que o presidente Nicolás Maduro saia do poder. Nas ruas já morreram mais de 60 pessoas, mais de 1.000 ficaram feridas, em confrontos com a polícia. É o tipo de instabilidade que, aliada à criminalidade e à falta de mantimentos, que não permitem levar uma vida normal.

Ainda ontem mataram um amigo meu, estava nas ruas, nas manifestações. Levou um disparo de berlinde. Os polícias lá estão a disparar berlindes das caçadeiras. Levou um tiro na cabeça que o matou instantaneamente, um rapaz com 32 anos. Também mataram um vizinho meu, um menino com 12 anos."

Apesar dos milhares de portugueses que já regressaram, a maioria não quer desistir da Venezuela e de tudo o que conseguiram do outro lado do Atlântico. Portugueses como o pai de Victor – o único membro da família que ainda está na Venezuela – e como João (nome fictício, para evitar eventuais represálias)

"Há pessoas a comer do lixo"

A viver em Puerto la Cruz, este português com 49 anos – chegou à Venezuela aos 11 -, admite que já contemplou a ideia de regressar a Portugal. No entanto, custa-lhe abandonar o país depois de 38 anos do outro lado do Atlântico.

"Pensamos em algum momento ir embora, mas tenho toda a minha vida aqui. Tenho negócios, os filhos, e não é fácil deixar tudo o que trabalhámos para ir embora. É uma possibilidade, estamos a pensar, porque o país a cada dia está mais difícil".

Neste momento há pessoas a comerem do lixo que não eram da classe mais pobre. Algo que nunca se tinha visto aqui. É um país de muita abundância e agora até isso se está a ver. Pessoas a morrerem por falta de medicamentos. Não há para a diabetes, para o cancro, para a tensão. Há pessoas que precisam de fazer diálise e que estão a morrer porque não há tratamentos. É alarmante."

A situação não está fácil, mas João acredita que os problemas podem ser resolvidos se Nicolás Maduro sair do poder. Como tantos venezuelanos, quer o “cambio” de governo.

A única maneira de isto melhorar é se o presidente sair. Nas condições que as pessoas estão, não há outra solução. É preciso um cambio de governo. As pessoas já nem querem eleições, querem trocar o governo, porque não importa em quem se vote, vai sempre ganhar o mesmo.”

Leia também: os relatos de emigrantes portugueses na Venezuela

O sentimento de luta foi testemunhado pelo Secretário Regional dos Assuntos Parlamentares e Europeus, que esteve na Venezuela para uma visita de quatro dias – acompanhado do Secretário de Estado das Comunidades -, que contactou com várias associações de portugueses.

Ouvimos relatos de todas as dificuldades que são sentidas pela nossa comunidade, desde a dificuldade de acesso a alimentos, a medicamentos, às questões da insegurança (que já vinham muito de trás) mas que se estão a agravar. [Porém] há um sentimento paradoxal. A vontade de regressar não passa pela generalidade da comunidade portuguesa, pelo contrário. Há uma vontade séria de aqui continuar enfrentando todas as adversidades, mesmo entre aqueles portugueses que viram os seus negócios destruídos pelas pilhagens”.

Para os que querem regressar, e devido aos milhares que já o fizeram, foi aprovado em Conselho de Governo a criação de um gabinete na Madeira de apoio aos emigrantes que chegam da Venezuela.

Este gabinete, ainda em desenvolvimento, vai abranger questões relacionadas com “educação, saúde, emprego, formação profissional, até de desenvolvimento de iniciativas empresariais. Há uma série de ações que podemos desenvolver que podem ter um contributo no que concerne a estes conterrâneos”, afirmou Sérgio Marques à TVI24.

O Secretário Regional frisou, no entanto, que esta não é uma questão que diz respeito apenas à Madeira e que terá de ter apoio do Governo da República, o que já foi garantido.

Já me foi manifestado pelo Governo da República uma total disponibilidade para cooperar relativamente a esta situação.”