Harold Bloom, um dos mais influentes críticos literários e intenso defensor do cânone ocidental, morreu esta segunda-feira aos 89 anos num hospital em New Haven, Estados Unidos.

Nascido em Nova Iorque em 1930, Bloom começou a ocupar um lugar prestigiado dentro da comunidade intelectual dos Estados Unidos quando escreveu “O Cânone Ocidental”, um livro que investiga 26 expoentes da literatura ocidental, incluindo Fernando Pessoa, e que, na data do seu lançamento, vendeu 50 mil exemplares.

Sofisticado e polémico, o discurso de Harold Bloom ficou plasmado em várias obras que chegaram tanto às listas de best-sellers internacionais como às estantes das bibliotecas das mais prestigiadas universidades do mundo. 

A morte de Bloom foi confirmada pela mulher, Jeanne Bloom, ao New York Times.

Bloom, frequentemente considerado o melhor crítico literário dos Estados Unidos da América, lutou para que nomes como Shakespeare, Geoffrey Chaucer e Kafka fossem considerados num patamar de superioridade literária em contraste com a ascensão de escritores alicerçados, sobretudo, no marxismo cultural, um movimento que o crítico designava por “Escola do Ressentimento” e que, segundo Bloom, sobrestimava o conteúdo em detrimento da forma, esvaziava a literatura em nome da ideologia.

Nos anos 70, Bloom cunhou uma teoria extravagante de criação literária que afirmava que todos os escritores lutavam contra os seus predecessores, como Édipo lutou contra o seu pai Laio. Assim, o crítico defendia que mal o autor começasse a escrever numa folha em branco, a “ansiedade da influência” moldava qualquer rasgo inato de criatividade. 

Bloom escreveu, em 1997, no livro “A Ansiedade da Influência”, que “a influência é, simplesmente, a transferência de personalidade. Todos os discípulos carregam consigo algo dos seus mestres”.

Apaixonado pelas figuras heróicas da literatura ocidental, Bloom declarou, no livro “Shakespeare: A Invenção do Humano”, que “Shakespeare é um Deus”, afirmando que as personagens desenhadas pelo poeta e dramaturgo inglês moldaram a percepção ocidental sobre o que significa ser se humano. 

Harold Bloom defendia que um verdadeiro crítico deve ter “um profundo conhecimento de filologia, de grego e de latim, de occitano e de hebreu, tal como das línguas românicas e da história do inglês. Muitos ignoram estas coisas e parecem não se preocupar”.

Professor em Yale, Bloom ensinava os alunos a lerem em voz alta um poema até que o conseguissem declamar de cor. “Esse é o verdadeiro conhecimento no campo da literatura”.

Bloom autodenominava-se um “monstro da leitura” e era capaz de ler cerca de 400 páginas por hora, conseguindo recitar de cor vastos excertos de obras como “Paraíso Perdido” de John Milton e a “A Rainha das Fadas” de Edmund Spenser.

Sobre Fernando Pessoa, Bloom dizia que "não era louco nem um mero ironista; é Whitman renascido, mas um Whitman que dá nomes separados a "o meu Eu", o "Eu verdadeiro" ou "Eu, eu mesmo", e "a minha alma", e escreve maravilhosos livros de poemas para os três, assim como um volume à parte com o nome de Walt Whitman".

Harold Bloom era também bom amigo de José Saramago. Numa entrevista concedida à Revista Época, a 3 de fevereiro de 2003, o crítico definia desta forma o seu relacionamento com o Nobel português: “Gosto muito de José Saramago, somos bons amigos, embora eu não concorde com a posição dele em relação à guerra contra o terrorismo. Ele é comunista, respeito as ideias dele, mas não concordo. É um bom escritor”.