Numa decisão de última hora, o artista Plácido Domingo anunciou a sua despedida da Ópera Metropolitana de Nova Iorque um dia antes de atuar na interpretação de Verdi da peça Macbeth, de Shakespeare, que entrou em cena esta quarta-feira. Domingo foi acusado de assédio sexual e intimidação por 20 mulheres.

Fiz a minha estreia na Ópera Metropolitana com 27 anos e cantei neste teatro magnífico durante 51 consecutivos e gloriosos anos”, disse Domingo num comunicado à imprensa. “Embora dispute veemente as recentes alegações feitas sobre mim e esteja preocupado com o clima gerado por pessoas que me condenam sem provas, depois de refletir, penso que a minha aparição na produção de Macbeth iria distrair as atenções do trabalho árduo dos meus colegas, tanto dentro como fora do palco. Em resultado disso, pedi para me ausentar e agradeço à liderança do Met (Ópera Metropolitana de Nova Iorque) por terem graciosamente aceitado o meu pedido”.

No entanto, a Ópera Metropolitana de Nova Iorque publicou uma declaração que parece indicar que Plácido Domingo foi pedido para sair. “A Ópera Metropolitana  confirma que Plácido Domingo concordou em se afastar de todas as produções futuras no Met, com efeito imediato”, avançou o comunicado da Ópera centenária, citado pela BBC.

O afastamento de Plácido Domingo na véspera da estreia deste espetáculo terá resultado num crescente número de colegas do Met preocupados com as suas aparições em público.

Outras instituições culturais dos EUA, incluindo a Orquestra de Filadélfia e a Ópera de São Francisco, já tinham cancelado as futuras atuações de Domingo por terem de garantir um ambiente de trabalho seguro.

A inquietação nos bastidores da Ópera Metropolitana de Nova Iorque chegou a um ponto de rutura quando o diretor geral do Met, Peter Gelb, se reuniu com o coro e com a orquestra depois do ensaio de Macbeth este sábado à tarde. Durante a reunião, muitos artistas questionaram-se sobre o que significaria o retorno de Domingo Plácido à produção no que diz respeito ao compromisso da companhia de ópera de lutar contra o assédio sexual.   

Ao The New York Times, o intérprete pareceu despedir-se dos palcos do Met para sempre: “Estou feliz de aos 78 anos ter sido capaz de cantar no papel principal de Macbeth nos ensaios, considero que esta tenha sido a minha última atuação no palco do Met”. 

As acusações contra Plácido Domingo vieram a público pela primeira vez em agosto, graças a uma reportagem da Associated Press que escreveu que Domingo pressionou mulheres a terem relações sexuais com ele e que, por vezes, castigava profissionalmente aquelas que o rejeitavam.

Os alegados casos de assédio sexual por Domingo mancharam mais uma vez o nome da Ópera Metropolitana de Nova Iorque que, em 2018, teve de despedir o seu antigo diretor musical, James Levine, pela mesma razão.

O surgimento do movimento #MeToo ajudou a desvendar casos escondidos de crimes sexuais e levantou questões sobre como as instituições lidam com acusações dessa natureza.

A decisão do diretor geral do Met, Peter Gelb, feita no passado dia 20 de setembro, de manter Plácido Domingo no papel principal na produção de Macbeth tornou-se insustentável no meio da crescente polémica dentro da companhia de ópera.

/ HMC