O ano era 1804 e a 30 milhas do cabo de Santa Maria, o ponto mais a Sul de Portugal Continental, a Marinha Real britânica tinha acabado de usar os canhões para afundar a fragata Nossa Senhora das Mercês, violando o Tratado de Paz de Amiens assinado por França, Espanha e Reino Unido dois anos antes.

Do ataque inesperado resultou a morte de 275 tripulantes e a submersão de um enorme carregamento de ouro, prata e cobre a 1.130 metros de de profundidade.

Foram precisos 203 anos para o tesouro perdido no Oceano Atlântico voltar à superfície graças à empresa Odyssey Marine Exploration que recuperou 600 mil moedas dos destroços da embarcação. Porém, a empresa foi obrigada a devolver o tesouro ao governo espanhol por decisão de um tribunal norte-americano, como é possível observar nas atas do congresso internacional Archaeology: Just Add Water, celebrado em Varsóvia, em 2019.

 

Perdidos no oceano ficaram, no entanto, o resto dos destroços e foram precisos oito anos para que um projeto do Museu Nacional de Arqueologia Subaquática, em Cartagena, iniciasse o processo de escavação do espólio perdido.

A técnica de escavação consistia em remover os sucessivos depósitos de areia com uma lança de água cuja potência podia ser regulada através de uma sala de operações. Isto tornou possível limpar o estrato da área com a mesma delicadeza com que se trabalha em arqueologia terrestre e “documentar e fotografar o visível. Para extrair as várias peças sem danificá-las, que incluíam todo os tipo de objetos de prata e ouro, como copos, talheres, lustres, moedas, uma torneira de bronze, duas conchas de bronze de três libras."

O relatório do congresso de Varsóvia detalha que os arqueologistas alinharam " braços de titânio com luvas de neopreno para evitar causar o menor dano aos objetos".

 

Os objetos foram encontrados “no substrato denso, acinzentado e solidamente coeso do fundo do mar, mal enterrados”.

A dureza do solo obrigou que a extração de algumas peças - por exemplo, uma colubrina  renascentista de 4 metros de comprimento - durasse mais de 35 horas, já que o leito marinho teve que ser cortado com água pressurizada até que pudesse soltar a antiga arma de fogo naval.

Na primeira campanha foram encontradas “âncoras, descobertos canhões de ferro e de bronze, lingotes de cobre e estanho, serviço de jantar e talheres, castiçais de prata, uma pequena argamassa de ouro, uma enorme quantidade de lingotes de cobre e outros itens não identificados ".

  

Foram extraídos ainda quatro canhões, uma coleção de 45 peças de prata, dois objetos de ouro, moedas de prata e um sistema de elevação com polias. 

"Tudo isto não representa nem 1% da carga da Nossa Senhora das Mercês", prossegue o documento, sublinhando que foram cumpridas todas as recomendações da UNESCO de dar prioridade à conservação dos destroços no local.

Uma segunda expedição no local, em 2016, levou à extração de mais relíquias em prata, como candelabros, pratos e facas, avança o jornal El País, citando a equipa arqueólogos do Museu  Nacional de Arqueologia Subaquática constituída por Rocío Castillo Belinchón, Juan Luis Sierra Méndez e Patricia Recio Sánchez.

“Um dos aspectos bem-sucedidos deste projeto foi o mais alto nível de coordenação entre instituições públicas, que forneceram navios, equipamentos e tripulação e a Marinha Espanhola” que confirmou a correspondência das conclusões com os documentos do Arquivo das Índias.

O Governo português foi informado sobre todos os passos da investigação , com o objetivo de preservar os princípios fundamentais de cooperação internacional definidos pela convenção de 2001 da Unesco.

Todo o espólio da fragata Nossa Senhora das Mercês vai estar em exposição a partir de novembro no Museu  Nacional de Arqueologia Subaquática, em Cartagena.