Damares Alves, a mulher que assumiu o cargo de ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos no governo de Jair Bolsonaro, está novamente nas bocas do mundo, desta vez por defender que a homossexualidade é uma “aberração” e uma “doença”. Outras declarações polémicas da nova ministra brasileira e pastora evangélica que se juntam àquelas que foram divulgadas na última semana em que afirmou que “meninos vestem azul e meninas vestem rosa.”

Conhecida pelas suas opiniões polémicas, a imprensa brasileira tem estado atenta a outras declarações da governante no passado. De acordo com a Revista Fórum, vários defensores do novo governo de Bolsonaro afirmam que existe uma “doutrinação” para incentivar as crianças a tornarem-se homossexuais.

A mesma publicação teve acesso a dois vídeos que mostram Damares Alves a discursar numa clínica de “restauração sexual”, onde pessoas que gostam do mesmo sexo são sujeitas a vários tratamentos para se tornarem heterossexuais. Na palestra, a ministra de 54 anos classifica o sexo entre mulheres e homens como “aberração” e uma “doença” e pede ainda para que as suas declarações sejam editadas porque falou em “coisas sérias que podem causar problemas.”

Num segundo vídeo ao qual a revista brasileira teve também acesso, Damares Alves classifica os homossexuais e os travestis de “doentes”.

A denúncia das atitudes e das declarações de Damares surgiu através de um dos pacientes da clínica de “restauração sexual”, que preferiu ocultar a sua identidade.

De acordo com a Revista Fórum, as declarações polémicas da ministra traduzem aquilo que pensa a mulher que é, atualmente, a responsável por todas as políticas de proteção de direitos LGBTI+ sobre essas pessoas.

“Restauração da sexualidade e lavagem cerebral”

O paciente X (segundo a revista) participou num tratamento de “restauração sexual” quando tinha 24 anos. De família evangélica, o jovem, atualmente com 29 anos, foi convencido pela igreja que frequentava em São Paulo de que sofria de um transtorno por ser homossexual. Foi internado no Seminário Intensivo de Sexualidade, onde assistiu à palestra de Damares Alves, algures entre 2014 e 2015, registada nos vídeos.

Este homem revelou que a suposta “clínica” fazia-se passar por uma escola, dado que o objetivo era não chamar a atenção, uma vez que, desde 1990 e de acordo com a Organização Mundial de Saúde, a homossexualidade deixou de ser classificada como uma doença. Assim, tratamentos para reversão sexual são ilegais.

O jovem revelou que teve consultas com pastores evangélicos, psicólogos e advogados, que “curavam” o que chamavam de “transtornos sexuais”, onde se incluía a homossexualidade e a pedofilia.

O método utilizado na clínica passava por isolar os pacientes, com regras rígidas de horários, palestras, terapias individuais e em grupo. Era dito aos pacientes que a homossexualidade, além de ser um pecado, deveria ser curada porque é um “distúrbio” e uma “imoralidade”. Os argumentos dos psicólogos eram a ausência de um pai e de uma mãe para um filho criado por um casal homossexual e recorriam, muitas vezes, a registos bíblicos.

O jovem revelou que passou por uma “lavagem cerebral” em que lhe foi dito que ser homossexual ou transexual iria piorar a sua vida e que tudo era feito com muita pressão psicológica em pessoas que apresentavam um estado emocional frágil. Vários vídeos de abuso sexual, tráfico de pessoas e pedofilia eram mostrados aos pacientes de forma a alertá-los sobre “os riscos de ser homossexual.”

“Deram-me duas opções: ou castrava-me ou ia para uma clínica”

A pressão e as chantagens que diz ter sido alvo diariamente na igreja provocaram-lhe várias depressões e um estado de saúde muito debilidado.

Deram-me duas opções: ou castrava-me ou ia para uma clínica. Diziam-me que eu ia para o inferno. Eu, por estar em depressão, estava até a aceitar ser castrado”, revelou o paciente.

No entanto, X pensou que ao ser castrado iria inviabilizar a sua vontade de ter filhos no futuro então decidiu entrar na clínica. Frágil emocionalmente, o jovem passou por um tratamento em que tinha de tomar vários comprimidos para a depressão e para a síndrome de pânico, que o deixou muito vulnerável.

Tinha cinco a seis crises de pânico por dia, tomava remédios e, lá [na clínica] tratavam de assuntos muito pesados. Numa altura, tive uma crise de pânico e uma psicóloga obrigou-me a ir para uma aula no meio da crise. ‘Vais ter a crise lá no meio.’ Senti-me completamente exposto.”

"Fiquei ainda com mais medo depois da escolha de Damares para ministra"

Os traumas causados pela pressão da igreja e da clínica fizeram com que tentasse suicidar-se há três anos. "As pessoas não sabem o que é a pressão de ser gay dentro de uma igreja evangélica. Foi muito pesado para mim. Eu queria morrer”, conta.

Totalmente afastado da igreja e ciente de que sua sexualidade não deve ser tratada como um transtorno, X revela que resolveu expor a clínica – que, segundo ele, não é a única no país – e o envolvimento de Damares Alves porque percebeu que com a nomeação da pastora como ministra iriam existir ainda mais riscos para os homossexuais.

Quando Bolsonaro começou a levantar uma maré de ódio, eu comecei a sofrer. Então, quando a Damares foi indicada para o cargo, entendi o que iria acontecer porque eu sei o que ela pensa em relação aos homossexuais. Fiquei com mais medo ainda porque agora estamos completamente desprotegidos. Quero dizer aqui que existe, sim, essa clínica e existe em vários lugares do país. Quero que as pessoas vejam o que está a acontecer e vejam ao ponto onde se chegou para se querer castrar um homossexual."

O jovem chegou mesmo a denunciar a clínica e os psicólogos e pastores que lá trabalhavam. No entanto, a sua atitude foi em vão. "Assim que saí da clínica tentei denunciar, mas ninguém acreditava nas minhas palavras. Pediam provas, mas isso é algo que é muito difícil de provar.”