O médico congolês e Nobel da Paz Denis Mukwege afirmou que o mundo não será o mesmo após a covid-19, mas apelou a esforços contra as outras doenças e os massacres, mais mortíferos do que o novo coronavírus.

Mukwege, um médico ginecologista que fundou um hospital no leste do Congo, conhecido pelo seu trabalho no tratamento de sobreviventes de violência sexual, o que lhe valeu o Nobel da Paz em 2018, falava no Fórum Brasil África 2020, que está a decorrer em modelo virtual com o tema “Superando os desafios da pandemia: E agora?”.

“Somos mestres do nosso destino, mas a covid-19 tem-nos mostrado que ainda temos muito que aprender, em termos da nossa humanidade, em termos de epidemias e de uma pandemia desta escala”, afirmou, em resposta a uma pergunta colocada por um estudante da Costa do Marfim, a viver no Brasil.

E defendeu: “Temos que lidar melhor com as questões do meio ambiente, temos que rever as nossas projeções e a forma de gerir os nossos recursos, temos de nos preparar melhor e ajudar as populações as assumirem as suas responsabilidades, tal como os dirigentes”.

Para Denis Mukwege, no início da pandemia “houve uma grande falta de preparação mundial”, seguida de “um pânico mundial”.

“A gestão caótica da crise, e dos diferentes dirigentes do mundo, não ajudou muito a humanidade”, disse, defendendo uma aprendizagem com o que aconteceu na primeira onda para responder à atual.

“Esta pandemia vai continuar e temos de encontrar uma forma de lidar com isto, uma vacina, por exemplo”.

Mukwege acredita que a atual pandemia é uma lição: “Ensinou-nos a ser mais humildes na busca de soluções para a humanidade”.

E sublinha que a condição ‘sine qua non’ para vencer esta pandemia, tal como todas as outras doenças que afetam o mundo, é a paz.

“A paz e o desenvolvimento são urgentes para podermos erradicar outras epidemias que estão dizimando crianças e mulheres africanas”, como a malária, o Ébola ou o VIH.

“A covid-19 é menos devastadora do que o Ébola ou os massacres dos grupos armados. As guerras e os grupos armados matam mais do que as doenças”, declarou.

E apelou à “vontade política” para evitar e tratar doenças preveníveis. “A prevenção é possível até um certo ponto. Mas precisamos de mais vontade política”.

Denis Mukwege recordou que, nos primeiros tempos da pandemia, e no seguimento do confinamento com vista a travar a infeção, o isolamento prejudicou as vítimas de violência social e as vítimas de violência sexual não encontraram a resposta que procuravam, porque os serviços estavam encerrados.

Apesar disso, e sem encontrar uma justificação, o médico congratula-se por África ter menos casos e mortes do que outros continentes, apesar das projeções iniciais de que iria enfrentar “uma catástrofe humanitária”.

E concluiu que “a melhor forma de enfrentar as crises humanitárias é trabalhar em cooperação e em solidariedade”.

Organizado pelo Instituto Brasil África, o Fórum Brasil África 2020 junta, em formato virtual, líderes globais, representantes do governo e do setor privado, académicos e potenciais investidores para trocar experiências e discutir o cenário atual e pós-pandémico.

/ AM