O quarto tema do “Destino: Europa” aborda essa temática, sendo que na segunda parte da reportagem (no vídeo associado a esta notícia) vai à procura de recolher testemunhos de especialistas em cibersegurança e investigadores na área do terrorismo digital. É possível encontrar, nesta área, múltiplos contrastes, desde protestos motivados por movimentos nascidos na internet – como sucede com os Querdenken na Alemanha -, até campanhas orquestradas a partir de meios tradicionais ou sociedades totalmente orientadas para a literacia digital.

No caso da pandemia, a desinformação encontrou espaço para crescer, com o aparecimento de figuras que procuraram disseminar factos controversos através das redes sociais. Assim sucedeu com o cardiologista suíço Thomas Binder, que chegou a ser detido e viu as suas contas no Facebook e Twitter serem apagadas. “Há desinformação em todo o lado. O problema é que nos principais órgãos de comunicação social só há desinformação. A internet, o Twitter, o Facebook, o Telegram... Não é muito conveniente... Eu só estou no Telegram porque o Twitter apagou a minha conta quando cheguei aos 45 mil seguidores. Fui bloqueado pelo Facebook, pelo LinkedIn...E o que te diz isto? Sempre partilhei conteúdos baseados na ciência. Ninguém me consegue dizer onde procedi mal mas todos me apagaram das redes por espalhar notícias falsas”, contou à TVI.

Desde 2015, a União Europeia já mobilizou cerca de 50 milhões de euros para travar a desinformação. O plano de ação é claro, capacitar os utilizadores e melhorar a responsabilização das plataformas digitais. “Montámos um grande número de iniciativas, workshops, seminários com pessoas da UE mas também dos Estados Unidos, desde especialistas americanos a “think tanks” europeus. E foi muito útil. Temos muitas pessoas que trabalharam no setor da desinformação antes de chegar aos estados-membros. Têm muito conhecimento, estão familiarizados com o assunto e isso ajuda-nos muito. O que precisamos de fazer é ter os decisores, os CEOs das plataformas numa espécie de painel comum com  as pessoas da UE e estados-membros e descobrir como podemos alterar o algoritmo e melhorá-lo para que consiga cortar conteúdos malignos e rastrear fake news que prejudicam a saúde dos países e que podem desestabilizar alguns países como temos visto durante a pandemia”, explica a eurodeputada Viola Cramon-Taubadel, dos Verdes.

As novas ameaças

Para além das teorias de conspiração surgem as ameaças reais à estabilidade democrática na União Europeia, com campanhas de desinformação lançadas pela Rússia. Essa realidade obrigou o Serviço de Ação Externa da União Europeia a criar uma unidade especial de combate às notícias falsas disseminadas por meios apoiados pelo Kremlin, como refere Lutz Guellner, responsável  pela estratégia de comunicação da unidade especial East Stratcom Task Force.

“Fazemos três coisas que são novas, que também são importantes do meu ponto de vista. Por um lado detetamos a desinformação, como podemos encontrá-la, quais são as técnicas que estão a ser utilizadas. A segunda coisa é analisar, saber qual é o impacto disto, como é que funciona, como é enviada para aqui. E a terceira é expor e fazer algo sobre isso. Expor, mostrar às pessoas o que andam por aí, como desenvolver estratégias, como lidar com isto, como comunicar sobre isto. Por exemplo, o nosso website EU vs Desinfo, que coloca estas coisas. São três elementos fundamentais do nosso trabalho e relativamente novos”.

Esse bafo do grande urso russo é uma presença real em Tallinn, capital da Estónia. “Basicamente isto é um concurso entre dois lados que estão a tentar sobreviver: um é o regime russo; o outro são as democracias liberais no Oeste. E nós somos parte do Oeste. Somos parte do Oeste. Estamos tão integrados como é possível. Somos membros da União Europeia, da NATO, da zona Euro, da zona Schengen, tudo. Melhor integrados do que a Suécia ou a Dinamarca, de alguma forma. Isso faz de nós um alvo atraente. Também há uma outra mágoa por parte da Rússia. Fomos nós que iniciámos o fim da União Soviética e levámos ao seu colapso, o que Vladimir Putin considera ser o maior desastre geopolítico do séx. XX”. (03:00) - “Queremos acreditar que não há nada de pessoal quando estamos expostos a campanhas de desinformação, mas há algum aspeto pessoal de que os Estados do Báltico merecem um lugar especial no ranking dos países odiosos para o regime russo”, refere Tomás Jermalavicius, investigador do Centro Internacional Defesa e Segurança

A figura autoritária de Vladimir Putin é sombra permanente para a Estónia, uma nação com apenas trinta anos de independência e menos de um milhão e meio de habitantes. Livre do jugo soviético, é hoje um país de inspiração nórdica, cosmopolita e um dos mais avançadas tecnologicamente a nível mundial. Chamam-lhe mesmo a E-Estonia, pelo avanço digital que apresenta. Aqui nasceram gigantes do novo mundo ligado à internet, como a Skype ou a Bolt. Tudo isso faz com que esta seja uma das sociedades mais preparadas para reagir às ameaças da desinformação online.

Mas existe uma forte resistência e o combate é feito também pela sociedade civil, apesar do receio sempre presente como constatámos quando procurámos conhecer os responsáveis por um dos sites que desmonta a propaganda russa, o Propastop. Mais do que uma página de denúncia, é um movimento de voluntários, ex-militares do exército soviético, ex-jornalistas, especialistas em ciber-segurança, que observam constantemente como é que meios de comunicação controlados pelo Kremlin procuram espalhar informação falsa para influenciar a população russófona que vive nos países do báltico.

A Desinformação é o quarto de seis temas que integram a série de reportagens “Destino: Europa”. Está também disponível o podcast associado ao projeto, onde os jornalistas Filipe Caetano e Inês Tavares Gonçalves partilham os desafios identificados no terreno e detalhes sobre o processo de produção e concretização deste tema. Poderá subscrever e ouvi-lo aqui:

Esta reportagem foi cofinanciada pela União Europeia no âmbito do programa de subvenções do Parlamento Europeu para a área da comunicação. O Parlamento Europeu não esteve envolvido na sua preparação e não deverá ser, em momento nenhum, responsável ou vinculado pelas informações ou opiniões expressas. De acordo com a legislação aplicável, os autores, entrevistados, editores ou emissores do Destino: Europa, são os únicos responsáveis pela reportagem. O Parlamento Europeu também não poderá ser responsabilizado por danos diretos ou indiretos que possam resultar da sua execução.