Está a ser um final de ano de loucos na Casa Branca.

A Administração Trump tem sido a presidência do caos, mas as últimas semanas bateram todos os recordes.

O ano de 2018 termina com o atual presidente americano em absoluto descontrolo.

O presidente está cada vez mais isolado, não ouve ninguém, prefere ficar sozinho a ver a Fox News do que seguir os conselhos dos assessores, mesmo os mais próximos. Com a saída de Mattis, já não há mesmo adultos na sala.

Se já era muito difícil travar o presidente de fazer os maiores disparates, agora essa passou a ser uma missão quase impossível.

A retirada total da Síria foi apressada, abrupta e sem critério. Foi feita à revelia da opinião do chefe do Pentágono (que se demitiu por causa disso e fez carta arrasadora para Trump, que pôs o presidente tão furioso que Donald fez questão de despedir Mattis dois meses antes da saída prevista do secretário da Defesa, que só iria abandonar o cargo no fim de fevereiro).

A transição na chefia do Pentágono não vai ser, assim, suave e planeada – vai mesmo ser à bruta e sem estratégia, como quase tudo o que tem acontecido nesta presidência. Patrick Shanahan, até agora número dois de Mattis, será, por enquanto, secretário da Defesa provisório, havendo a indicação de que o presidente irá nomear uma solução mais definitiva nos próximos dias.

Trump terá decidido retirar da Síria depois de telefonema com Erdogan, no qual o líder turco lhe terá dado garantias de que iria tratar do que falta resolver na região para eliminar o Daesh. Os americanos saem, assim, da Síria sem um plano razoável para proteger os curdos, que foram fundamentais no combate aos terroristas jihadistas e ficarão, a partir de agora, totalmente deixados à sua sorte, perante a força turca.

É grave, sobretudo pela falta de condição moral que isso significa. Isto não é forma de se tratar aliados fundamentais no terreno. Como poder confiar nos americanos enquanto Donald Trump estiver na Casa Branca?

Trump foi, neste período de festas, o primeiro presidente americano na última década e meia, desde 2002, a não visitar tropas americanas no terreno.

É mais um sinal que revela o lado egocêntrico e sem dimensão presidencial do atual inquilino da Casa Branca. Noutro âmbito, há sinais de que a Comissão Mueller terá novidades “fresquinhas” logo nos primeiros dias de janeiro. Sondagem NBC News/Wall Street Journal revela que quase dois terços (62%) dos americanos não acredita na versão do presidente em relação a este tema fundamental.

A culpa NUNCA é do presidente

Mas há mais: os dias anteriores ao Natal foram de nervosismo e queda brutal nas bolsas, com o índice Dow Jones a ter a pior semana da última década (queda geral de 2%, perda de 434 pontos, com a antevéspera de natal a fechar em perda superior a 600 pontos).

Começa a ficar cada vez mais claro que a tão propalada “euforia bolsista” do primeiro ano da presidência Trump, simplesmente, já foi à vida.

Os analistas apontam como principais causas as perspetivas de desaceleração da economia americana e mundial e os efeitos negativos da política de tarifas da Administração Trump, com as respetivas retaliações, sobretudo vindas da China.

Mas Trump, no seu estilo egocêntrico e negacionista (nada nunca é culpa dele), atirou responsabilidades aos democratas por não haver acordo para resolver o “shutdown”, à Fed por não corrigir a política de juros (o presidente tratou, nos últimos dias, de saber como pode enquadrar legalmente uma possível demissão de Jerome Powell, presidente da Federal Reserve, um dos postos mais “inamovíveis” do sistema americano) e até ao secretário do Tesouro, Steve Mnuchin (um dos poucos resistentes dos primeiros tempos da Administração Trump).

Impasse e agravamento

No meio disto tudo, prossegue a paralisação parcial do governo americano, num braço de ferro tendencialmente insolúvel: os líderes democratas não vão mesmo dar ao presidente a satisfação de ter financiamento para um muro que vai contra o sentimento maioritário dos americanos (sondagem recente diz que 56% dos norte-americanos discorda do muro prometido por Trump), Donald parece querer fazer finca-pé até ao fim nesta questão.

A poucos dias de uma mudança de jogo decisiva (Câmara dos Representantes com maioria democrata pela primeira vez na era Trump), a política americana parece ter caído num beco sem saída. Quando parecia ser difícil um cenário mais complicado, a realidade mostra-nos que há sempre formas de nos surpreender. Pela negativa, claro.

Donald Trump é, cada vez mais, um presidente autista e isolado. Quem lhe era próximo na administração e mantinha alguma força e credibilidade externa saiu, por regra em conflito com o presidente (Tillerson, Priebus, Cohn, McMaster, Kelly, Nikki Haley, agora Jim Mattis, para lá de várias dezenas de assessores, conselheiros e secretários adjuntos com algum relevo).

Sem capacidade de gestão a longo prazo, muito menos de estratégia, com uma liderança fraca e instável no plano interno na Casa Branca, Donald Trump vai ter agora que lidar com um dado novo: é que a partir de 3 de janeiro, o jogo vai mudar em Washington.

Os democratas tomam a liderança da Câmara dos Representantes, a speaker do Congresso passará a ser Nancy Pelosi e, pela primeira vez nos últimos dois anos, haverá contraditório real no sistema político.

Como pode haver compromissos?

Ora, Trump até com os republicanos mostra dificuldades em negociar e fazer compromissos. Na relação que estabelecerá com os democratas, teme-se o pior. A segunda parte do mandato presidencial de Donald Trump prevê-se ainda mais instável e conflituosa – e convém lembrar que estamos a falar um dos presidentes menos populares e com maior grau de perdas internas do último século americano.

Os próximos tempos em Washington prometem ser interessantes – mas na tal aceção do velho provérbio chinês, que associava “tempos interessantes” às épocas amaldiçoadas de caos, divisão e turbulência.

É o que sucede quando na Casa Branca está alguém que-não-é-bem-um-presidente-dos-EUA.