"Se Donald Trump não está a esconder uma enorme conspiração, a alternativa é talvez ainda pior: os Estados Unidos elegeram um presidente tão inconsciente e ignorante, tão auto-centrado e pessoalmente inseguro, tão naturalmente predisposto e minar as instituições democráticas e tão terrível como gestor e líder que se rodeia de tipos sem nível, facilitadores e agentes de potências estrangeiras, de tal modo que comprometeu a segurança nacional do governo dos Estados Unidos e desrespeitou, por simples satisfação do seu próprio ego, 75 anos de alianças externas construídas com critério."

GARETT GRAFF, artigo na Wired  

 

A Presidência Trump ainda só vai a meio (tomada de posse foi a 20 de janeiro de 2017, há dois anos, faltam outros dois), mas já se sentem sinais de exaustão.

É claro que os eleitores americanos tinham “legitimidade” de escolher para seu principal líder alguém que não é bem um Presidente dos EUA. O que já não dava para pedir era que esperassem que isso não viesse a ter consequências graves.

Donald Trump até já teve que desmentir em público que pudesse ser um agente russo. Tem a Comissão Mueller cada vez mais à perna. Revela comportamentos autoritários, de quem pisa o espaço dos outros poderes – qual aberração, para um sistema que está desenhado exatamente para o contrário: para evitar abusos de poder e travar devaneios ditatoriais.

Entra para a história dos presidentes americanos como o que tem o menor valor de aprovação médio nos primeiros dois anos, desde que há medição diária do desempenho dos Presidentes (desde Franklin Roosevelt, nos últimos 80 anos) – e a uma grande distância de todos os outros.

A imagem – algures entre o ridículo, o risível e o simbólico – das centenas de hambúrgueres servidos em mesa presidencial na Casa Branca surge como uma caricatura em retrato real, numa espécie de “última ceia” de um Presidente disfuncional e que ameaça um sistema preparado para assegurar

Na próxima terça-feira, caso não haja acordo até lá (como muito provavelmente não vai haver) completa-se um mês da mais longa paralisação governamental da história americana.

Este impasse afeta mais de 800 mil funcionários públicos, nove ministérios e várias agências federais. Para quem continua a achar que se trata de um "problema menor" aqui vão as áreas afetadas: Agricultura, Comércio, Justiça, Administração Interna, Habitação e Planeamento Urbano, Administração Estatal, Interior, Transportes e Tesouro.

Os primeiros estudos apontam para um dano global à economia americana que já estará na ordem dos 3,5 mil milhões de dólares (ironicamente, já perto de 70% do valor que Donald Trump pretendia obter para financiar o muro que neste momento 60% dos americanos dizem não desejar e que a maioria democrata no Congresso já garantiu que não vai aprovar).

Não é, por isso, uma "questão que não afeta o essencial da vida americana".

Trata-se de uma das mais graves consequências do facto dos EUA terem neste momento como líder na Casa Branca alguém-que-não-é-bem-um-Presidente. E que, em desespero, começa a passar a ideia de que vai prolongar este braço de ferro por tempo tão longo a ponto de tornar este um tema da eleição presidencial de 2020.

Estado da União em risco

Nancy Pelosi, dura e determinada, avançou com resposta firme e original à chantagem de Trump de prolongar o "shutdown": se o Presidente se recusa a negociar e condena o sistema a uma paralisação desta gravidade, ele próprio será vítima disso e não terá condições de endereçar na data esperada (29 de janeiro) o discurso do Estado da União -- momento mais importante do ano político nos EUA.

Dar um poder deste calibre a alguém tão irresponsável como Donald Trump tem consequências. Chega a ser misterioso ver como tanta gente achou que não iria ter.

Nunca se assistiu em Washington DC a um clima de paralisação e impasse político tão grave e irresolúvel como o que existe neste momento, com Presidente e liderança democrata no Congresso a terem posições aparentemente inconciliáveis sobre o financiamento do muro. Estamos a falar de mais de 800 mil funcionários públicos americanos sem ganhar há quase um mês, alguns deles já almoçam e juntam à custa da caridade. É isto "melhorar a economia americana" e "proteger o trabalhar americano"? Esqueçam. Não são só "os museus e os parques" que deixam de funcionar. Há vários serviços que não abrem, há programas de assistência que não se cumprem, há pessoas necessitadas ou dependentes que deixam de ser assistidas.

Tudo por causa de um Presidente disfuncional, que preso a um egocentrismo cego não sabe negociar politicamente – nem faz a mínima ideia do que significam as palavras “compromissos” ou “cedências”.

Trump insiste em tentar virar o bico ao prego e vai dizendo que “os democratas estão a prejudicar os americanos” e está à espera que “eles comecem a trabalhar”. Mas não é assim: num impasse como este, quem tem que ter a chave da solução é, obviamente, o Presidente.

Ameaças de recorrer à “emergência nacional” (utilizando fundos que estariam destinados a acontecimentos como catástrofes) não vão, desta vez, safar Donald.

O que esta enorme crise política do “shutdown” está a revelar, essencialmente, é que o estilo manhoso de “artista de variedades” de Donald Trump – uma espécie de vendedor de banha de cobra com uma conversa sexy para quem é vulnerável a cair em populismos baratos e nada sustentados em factos – resultou no ambiente eleitoral da campanha de 2016 para um nicho muito significativo do eleitorado americano.

Mas é curto – mesmo muito curto – para alguém que ocupa as funções (mesmo muito difíceis) de Presidente dos EUA. Trump está a exibir, nesta crise, toda a sua incompetência e todas as suas limitações políticas.

Naquele sistema complexo, ser Presidente implica saber negociar, fazer compromissos, ceder um pouco para levar a sua avante. Trump tem sido o contrário disso: tem passado os últimos dias a insultar os democratas, a minimizar os efeitos do que provocou.

Vingança a Pelosi

“Impeach Trump Now”, escreve Yoni Appelbaum na “The Atlantic”: “É tempo do Congresso julgar a aptidão do Presidente para servir o País”, insiste o professor de História Americana em Columbia, editor político da prestigiada revista.

O cerco começa a apertar-se para Donald Trump. Enquanto isso, aquele-que-não-é-bem-um-Presidente-dos-EUA teve, na quinta-feira, uma atitude que, simplesmente, não é digna da função que ocupa.

No seu pior estilo vingativo e de quem não tem a mínima capacidade de autocrítica e de ler o momento atual, escreveu uma carta a Nancy Pelosi, em retaliação da missiva de ontem da “speaker” do Congresso na qual Nancy solicitava ao Presidente o adiamento do Discurso do Estado da União enquanto durar o “shutdown”.

Ora, na contra-resposta, Donald nega acesso a frota militar para que a líder do Congresso dos EUA viaje devidamente protegida nas visitas já agendadas ao Egipto, ao Afeganistão e a Bruxelas.

Isto é de uma gravidade extrema: por vingança, o Presidente dos EUA pôr assim em causa os interesses de representação do seu próprio país, para mais com o pormenor de humilhação de ressalvar na carta “a menos que vá pela via da aviação comercial”.

Dúvidas sobre a lealdade

O cerco da “Russia Collusion” aperta-se para Donald Trump. O New York Times reportou que, depois de Trump ter despedido Michael Comey de Diretor do FBI, um setor daquele serviço de informações e inteligência iniciou investigação sobre se o Presidente seria uma ameaça de segurança aos EUA.

Será daqui que se fundam as suspeitas, iniciadas na própria campanha presidencial, de que Trump pudesse estar ao serviço de interesses russos. Como é que Donald reage a isto? Numa primeira questão que lhe foi feita numa entrevista à Fox News (sim, a própria Fox está a mudar a agulha e está também a começar a ir em cima do Presidente), mostrou-se indignado: “Essa é a pergunta mais insultuosa que alguma vez me fizeram!” Mas no dia seguinte, com vários repórteres a insistirem no tema, viu-se na necessidade de proferir um desmentido que é, todo ele, já um pouco comprometedor: “Nunca trabalhei para os russos”.

A verdade é que, no novo momento político ditado pela maioria democrata na Câmara dos Representantes, há 17 (isso mesmo, 17!) investigações a decorrer ou a iniciar no Congresso americano – e um cenário de Donald Trump intimado por um “subpoena” que o obrigue a testemunhar sob juramento vai ganhando força. Michael Cohen, advogado de Donald Trump durante uma década e sentenciado a três anos de prisão, vai testemunhar no Congresso americano no próximo dia 7 de fevereiro – e tudo indica que Trump ficará, no mínimo, com as orelhas a arder.

O relatório de Robert Mueller pode estar aí a rebentar e no campo Trump o nervosismo é evidente: Rudy Giuliani, antigo conselheiro político da campanha Trump e agora advogado do Presidente, teve o desplante de dizer que fará tudo para “corrigir esse relatório antes que ele venha a público”.

Donald desconversa e atira-se para o palco da campanha de reeleição – aplica imenso tempo a insultar e menorizar os candidatos que se vão perfilando do lado democrata e soma comícios com o boné da campanha Trump2020.

Entre uma espécie de negação e uma insistência num estilo truculento mas politicamente muito limitado nas opções revela, o “efeito Teflon” de Donald Trump parece começar a diminuir.

A sua popularidade está na casa dos 37%, menos 20 pontos que os 57% de desaprovação (há quatro meses que Trump não tinha saldo tão negativo).

As notícias sobre uma suposta “imunidade” dos disparates de Trump eram, afinal, manifestamente exageradas.

Breaking the Wall – Trump em queda

A estratégia de chantagem de Donald Trump em relação ao Muro, simplesmente, não está a resultar.

E os eleitores americanos culpam cada vez mais o Presidente pelo prolongar do “shutdown”.

Sondagem NPR/PBS/Marist dá 53% de desaprovação e apenas 39% de aprovação ao Presidente (um saldo negativo de -14, sete pontos pior do que estava há um mês, antes desta crise governamental). Mais preocupante ainda para o estilo Trump de se focar na sua base: grande parte está a ser junto do segmentos que o costumam apoiar.

Entre os homens das zonas suburbanas perdeu, só num mês 18% de apoio. Nos evangélicos baixou 13 pontos desde dezembro. No eleitorado republicano perdeu 10 por cento desde o início do “shutdown”. E entre os homens brancos com alguma habilitação perdeu 7 pontos.

Na mesma linha, outra sondagem recente (Pew Research Center, 9-14 janeiro) mostra que apenas 37% dos americanos defende o Muro exigido por Trump (23% "apoia fortemente"+14% que "apoia ligeiramente"), contra uns claramente maioritários 62% que se opõem ao Muro (53% opõem-se ferozmente+9% que se opõem ligeiramente).

A meio do seu mandato presidencial, a coisa está a ficar mesmo complicada para Donald Trump.