Se a vitória eleitoral de Trump foi surpreendente para quase todos - quiçá até para o próprio, que já no decurso das votações voltou a acenar com a ideia de poder não aceitar os resultados - menos espanto causou o facto da líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, ter sido a primeira a felicitá-lo. Efusivamente.

O cenário das presidenciais francesas no próximo ano foi aliás uma das questões tidas também em linha de conta esta quarta-feira, numa emissão especial na TVI24, em que o ponto central foi a eleição do magnata como 45.º presidente do país mais poderoso do mundo

Para a jornalista e comentadora da TVI24, Constança Cunha e Sá, Trump "teve a adversária ideal" numa "eleição crucial" para os EUA.

Foi a vitória de um homem contra tudo e contra todos. Tinha contra si o próprio Partido Republicano e teve a adversária ideal, Hillary Clinton, representante desse sistema", salientou Constança Cunha e Sá.

Para a jornalista, Trump "hostilizou as minorias e apostou no eleitorado branco". Ainda assim, não deixou de conquistar "muitos votos nos hispânicos e nos negros". Mas teve mais apoios entre os "evangélicos brancos", uma maioria que acha que o Estados Unidos lhe pertencem".

Isto é eleição crucial para os Estados Unidos. Porque se está a decidir que tipo de país vamos ter", salientou, lembrando que "um dos pontos essenciais da sua campanha é a ilegalização da imigração ilegal".

"Ninguém aprendeu nada com o Brexit"

Avaliando os antecedentes que levaram à eleição de Trump, o debate na TVI24 procurou também causas anteriores. No mundo, nos Estados Unidos e na Europa.

Acho que não é fenómeno exclusivamente norte-americano. Ninguém aprendeu nada com o Brexit. As razões são muito semelhantes, embora os processos sejam diferentes, obviamente", sublinhou Constança Cunha e Sá, lembrando que há uma conjugação de fatores relacionados com "o processo da globalização, que deixou muita gente desamparada e, por outro lado, o prolongamento de uma crise financeira, social e económica".

As questões económicas e culturais são também os alicerces que levaram Trump ao poder, na ótica da eurodeputada e comentadora da TVI, Marisa Matias.

A democracia há muito tempo que está tomada pelo sistema financero, por grupos organizados. Está raptada por esses interesses", considerou Marisa Matias, acrescentando que "Hillary Clinton representa taambém isso e por isso não consegiu demarcar-se de Donald Trump".

Rejeitando uma leitura simplista de que venceu o populismo, porque isso "é uma forma de fazer e de estar na política e não tem ideologia nem de esquerda nem de direita", a eurodeputada insistiu nas fraturas económicas e sociais que se vivem na América, "onde há muita gente que foi abandonada", mas também na carga cultural latente.

Há também uma questão cultural,de ressentimento: a questão da América branca, de um nacionalismo branco. Contra essas pessoas que não somos nós. Há o medo do outro, o ódio e essa divisão ganhou e traduziu-se na vitória de Trump", afirmou Marisa Matias.

"Há aqui uma coligação de deserdados"

Receando situações semelhantes nas próximas presidenciais francesas, Fernando Medina defendeu que a eleição de Trump "não é um fenómeno de margens, mas um fenómeno do centro".

Há aqui uma coligação de deserdados, há aqui um discurso de facilidade ou populismo. E há aqui uma péssima candidata alternativa. A política, quer nos Estados Unidos, quer noutros países está profundamente balcanizada e as margens de entendimento entre os setores estreitaram-se, reduziram-se imenso", salientou o autarca de Lisboa.

Para o comentador da TVI, há hoje enormes dificuldades de entendimento entre os chamados partidos centrais, sob os quais assentam os sistemas políticos tradicionais.

Se tivéssemos o Mickey contra a Minnie de certeza que, no mínimo, cada um teria 40%", exemplificou Medina, de forma a mostrar as posições extremadas na política atual.

"Sociedade está-se a desagregar"

Para o autarca de Lisboa, a desilusão com os partidos pilares do sistema político provoca uma transferência de apoios extremada e impensável há décadas.

Há uma base eleitoral dos partidos de esquerda, como do partido comunista em França, que acaba por ser transferida com rapidez. Para Donald Trump, como o foi para Le Pen, pai", sublinhou Medina, tendo em conta, por exemplo, o facto de apoiantes do democrata Bernie Sanders terem recusado o seu voto em Hillary Clinton.

A divergência no tecido político cada vez mais acentuada é também um fator fundamental para perceber a eleição de Trump, na ótica de José Miguel Júdice.

É o sistema democrático que está a ser captado por grupos antisistema, que não têm soluções para governar, mas que são eleitos", salientou o advogado e comentador da TVI.

Para Júdice, Trump provavelmente não vai poder fazer as coisas que anunciou, mas isso tem como resultado que as pessoas a seguir vão dizer "outros iguais que vêm a seguir é que serão bons".

Atrás de um Trump poderá estar outro Trump e isso é o que me preocupa. A sociedade está-se a desagregar com base na vontade popular", concluiu o comentador.

Que desafios globais?

Depois de analisada "A Nova América" de Donald Trump, foi tempo de olhar para os "Desafios Globais" que o 45º Presidente dos EUA vai ter de enfrentar quando substituir Barack Obama a 20 de janeiro.

Num debate com Medina Carreira, Paulo Ferreira e Sérgio Figueiredo ficou clara a ideia de que Donald Trump "não deve ser substimado" até porque os seus ideais são bem claros, como ficou provado ao longo de toda a campanha. 

No entanto, tais objetivos para o mandato podem não augurar nada de bom e podemos estar perante um "presidente que desafia a ordem liberal a nível global", como defende o diretor de Informação da TVI.

Eu julgo que este presidente, e não o subestimo, se for o que parece vir a ser desafia a ordem liberal a nível global, pelo menos desde o fim da guerra fria, pelo menos de uma forma que nunca tínhamos visto. Ele tem claramente uma perspetiva de fomentar o medo a tudo o que vem de fora e sendo consequente com o que defendeu na campanha eleitoral, vai tornar o mundo mais fechado do que era nas vésperas da globalização".

Sérgio Figueiredo defende ainda que "Trump tem claramente duas flechas" que não vai hesitar em apontar e "que são fechar fronteiras e estimular a procura interna". Como?

Baixando radicalmente impostos e aumentando despesa, porque a política de investimento que ele propõe para as infraestruturas e para a defesa, duvido que sejam compensados pelos cortes sociais que se adivinham. O Obamacare vai à vida".

O diretor de Informação da TVI defende ainda que "não se pode dizer que o povo tomou poder nos Estados Unidos", uma vez que Trump "fala em nome do povo, mas não é povo". No entanto, foi muito desse povo que votou nele nesta terça-feira.

[Donald Trump] tinha de facto as elites culturais, académicas, empresariais, politicas, tudo contra ele. Esqueceram-se que os eleitores não são só as duas costas americanas. O mapa eleitoral dos EUA é muito interessante porque tem algumas faixas a azul, onde os democratas venceram nas duas costas, mas o centro e o sul dos Estados Unidos virou republicano".

"Mas que Trump é que vamos ter?"

A questão é central e comum a todos. Que Trump é que vai ser Presidente dos EUA? Para Paulo Ferreira, comentador da TVI24, há duas possibilidades em cima da mesa. 

Mas que Trump é que vamos ter? Vamos ter o Trump radical? Vamos ter aquele homem durante a campanha prometeu muita coisa e muitas vezes contraditória, com discurso radical em termos económicos também, ou vamos ter um presidente mais conciliador e a deixar de lado algumas das políticas que defendeu ao longo da campanha?", questiona Paulo Ferreira.

Outra das dúvidas depois dos resultados da noite eleitoral desta terça-feira ter dado a vitória ao magnata é saber qual é o programa económico de Donald Trump, até porque podem estar em vista não um, mas dois muros em torno dos EUA.

Primeiro, é necessário saber "qual é a equipa que Donald Trump coloca na Casa Branca" e "até que ponto é que mexe ou não na direção de afeto". "E depois, a partir daí, perceber qual é o programa económico".

Se ele praticar, de alguma maneira, aquilo que foi anunciando ao longo da campanha, e alguma coisa há-de fazer certamente, talvez em graus diferentes, não tao radicais como ele anunciou, mas alguma coisa há-de fazer, eu penso que faremos em termos económicos um mundo pior do que aquele que temos agora."

Para o comentador da TVI24, o facto dos EUA passarem a ter "uma posição muito mais unilateral da parte dos EUA" vai fazer com que fronteiras se fechem, "acordos comercias que estão prontos ou praticamente prontos" sejam "rasgados" e que as "tarifas à importação de produtos" sejam "elevadas".

"O muro do México que Trump fala é um muro que ele pretende construir de alguma maneira para travar a entrada de pessoas, mas depois há um outro muro, invisível, que não existe fisicamente, que ele quer também colocar à volta dos Estados Unidos, que é o muro económico."

Europa precisa de “solavanco muito forte”

Cáustico, Medina Carreira é lapidar sobre a eleição de Donald Trump.

Atraiu-me por provocar uma comoção”, referiu o comentador da TVI, considerando que a eleição de Trump pode ter o condão de levar os europeus a reavaliar a sua situação.

Esta Europa não vai a parte nenhuma, se não levar um solavanco muito forte”, referiu Medina Carreira no debate na TVI24, considerando que os países do velho continente têm “andado entretidos com uma fantasia”.

Para o antigo ministro das Finanças, a Europa “viveu com a democracia-cristã e com a social-democracia, três décadas, quatro décadas, otimamente”. Porque “a economia produzia aquele dinheirão todo para distribuir, para os funcionários públicos, para o estado social”.

Para o professor, catástrofe inevitável pode ocorrer porque a situação atual é diferente.

Descobriu-se isso aqui, também na Grécia - o primeiro defunto já lá está, o Tsipras - aqui em Espanha, aquele homem de cabelo comprido [Pablo Iglesias] também descobriu isso, e aqui em Portugal, há também uns vestígios de pessoas que querem a social-democracia sem dinheiro”, considerou.

Aproveitando para criticar a situação nacional, Medina Carreira acha que “este governo, apertado pela Europa, o que gostaria era de alargar os porta-moedas para fazer social-democracia, que é um regime de distribuição ou de redistribuição que pressupõe que haja dinheiro”.

Já quanto à questão norte-americana foi lapidar: “Os Estados Unidos fazem dinheiro, são os donos do mundo, e não me quero meter naquilo que vão fazer porque nós não podemos fazer coisíssima nenhuma, porque não temos onde morrer”.

Redação / PD/AM