A Casa Branca pediu na noite de quarta-feira uma ordem de restrição urgente para tentar impedir a publicação do livro de memórias de John Bolton, ex-conselheiro de segurança do presidente Donald Trump, que deverá ser publicado no dia 23 de junho. 

Bolton nega que as memórias contenham informação confidencial mas faz um retrato desastroso do homem à frente da Casa Branca, acusando Trump de usar o país em benefício próprio. O ex-conselheiro diz mesmo que o inquérito de destituição ao presidente - que acabou com Trump absolvido - deveria ter ido para além da investigação ao escândalo com a Ucrânia. Trump estava acusado de ter pressionado o governo ucraniano a investigar no país a atividade da família do candidado democrata às presidenciais, Joe Biden.

Excertos do livro de Bolton foram publicados em vários meios de comunicação social norte-americanos e parecem demonstrar um padrão de corrupção de Trump.

O padrão parece evidenciar a obstrução à justiça como forma de vida, o que não podíamos aceitar", escreve Bolton que, segundo as memórias, terá chegado a falar com o procurador-geral dos Estados Unidos, William Barr, sobre as reservas que tinha em relação às ações do presidente. 

O livro chama-se "The Room Where it Happened" - "O Quarto Onde Aconteceu", numa tradução literal - e é particularmente demovedor no que diz respeito à relação de Trump com o presidente chinês. Bolton descreve uma reunião do norte-americano com Xi Jinping à margem da reunião do G20 no Japão, em junho de 2019, onde Trump sugere ao presidente chinês uma forma de o ajudar a derrotar a oposição interna, pedindo-lhe que a China comprasse soja e trigo aos EUA, o que seria importante para que ele ganhasse as próximas eleições. 

Já no que diz respeito à violação de direitos humanos na China, nas palavras de Bolton, Trump chegou mesmo a incentivar o presidente chinês a construir campos de concentração para minorias étnica em Xinjiang e recusou-se a emitir um comunicado no 30.º aniversário do massacre da praça de Tiananmen. "Foi há 15 anos", disse a Bolton. "Quem é que se importa com isso? Estou a tentar chegar a um acordo, não quero nada", terá dito o presidente. 

O livro de Bolton também revela que Trump terá dito que invadir a Venezuela seria "fixe" e que o país era, na realidade, "parte dos Estados Unidos". Bolton também conta que os esforços de Trump para se reunir com o líder do regime norte-coreano não passaram de um espetáculo sem substância, já que o presidente estava mais interessado em  fazer chegar a Kim Jong-un um CD autografado do tema Rocket Man de Elton John - recorde-se que era assim que Trump chamava ao ditador norte-coreano - do que na desnuclearização. 

E Bolton faz questão também de revelar a falta de conhecimento do presidente dos EUA ao nível de política externa, explicando que Trump se mostrou surpreendido por descobrir que o Reino Unido também tinha armas nucleares e que a Finlândia não era parte da Rússia. Segundo o Guardian, Trump também confundiu repetidamente os nomes do atual e anterior presidentes do Afeganistão em conversa com o primeiro-ministro japonês.

De acordo com Bolton, em maio de 2018, Trump terá prometido ao homólogo turco, Recep Tayyip Erdogan, que iria ajudar uma empresa turca que estava a ser alvo da justiça norte-americana por violar as sanções dos Estados Unidos ao Irão. E terá chegado a dizer que tudo se resolveria quando substituísse os procuradores da zona sul de Nova Iorque, que eram "gente de Obama", pela sua gente. 

Num excerto do livro publicado pelo New York Post, Bolton garante que Trump esteve quase a anunciar a saída dos Estados Unidos da NATO durante a cimeira de julho de 2018, dizendo que só não o faria se os outros membros da Aliança Atlântica aumentassem o orçamento da defesa.

O presidente dos Estados Unidos já escreveu no Twitter que as memórias de Bolton não passam de uma sucessão de mentiras e histórias falsas, mas dificilmente conseguirá, nesta altura, impedir a publicaçaõ das memórias do ex-conselheiro. 

Bolton chegou à Casa Branca em abril de 2018 e saiu em setembro do ano seguinte, dizendo que tinha decidido deixar o cargo de conselheiro para a segurança nacional. Porém, seria corrigido por Trump, que veio dizer que demitira o conselheiro porque ambos tinham opiniões divergentes. 

Bolton diz que Trump é inapto para ocupar a presidência dos EUA

O ex-conselheiro de Trump disse numa entrevista, que será transmitida este fim de semana, que Trump “não é competente para o cargo”.

Não acho que ele seja competente para o cargo. Eu penso que ele não tem as competências necessárias para exercer o seu trabalho”, disse John Bolton, no excerto divulgado hoje da entrevista à estação televisiva ABC.

Eu apenas lhe consigo perceber um único princípio norteador: o que é bom para a reeleição de Trump”, acrescentou o ex-conselheiro nacional do presidente.

A Casa Branca já reagiu às palavras do ex-conselheiro de segurança nacional.

John Bolton desacreditou-se”, disse a porta-voz da presidência dos EUA, Kayleigh McEnany, em depoimentos à cadeia televisiva Fox News.

Este homem elogiou o presidente Trump por ser forte na política externa, por não cometer os mesmos erros da administração anterior”, lembrou McEnany.

 
Bárbara Cruz